terça-feira, 10 de março de 2009

Reflexos de Narciso


Tão linda era a borboleta – vendo-se refletida na água do lago, apaixonou-se por si mesma sem desconfiar de que as coisas eram assim. Todos os dias esvoejava sobre as águas, enamorada da imagem colorida que via, namorando o que pensava ser seu par. Tornara-se feliz e jurava-se correspondida, sentia-se completa e favorecida pelas sortes todas deste mundo – não era todo mundo que havia-se em tantas alegrias conjuntas como eram as dela.

Tão confiante estava que suas patinhas pousavam na superfície da água e ela assim permanecia por horas a fio, apenas contemplando a imagem tão linda do companheiro que imaginava estar também encarando-a nos olhos. As frágeis patinhas tocavam a água e a borboleta pensava estar tocando as patinhas do companheiro. E seus dias eram tão felizes que ela às vezes se esquecia de voar e enfeitar outros prados.

E o tempo passou e a borboleta aprendeu a passar o tempo todo parada na superfície da água, em companhia do reflexo que acreditava ser seu amor perfeito e eterno. Até o dia em que um peixe desses vulgares, que habitam lagos vulgares e exercem hábitos de vida vulgares, encontrou – na linda borboleta enamorada de si mesma – alento para a fome que sentia.


2 comentários:

Ciro M. Costa disse...

Caramba, hein Sessyllya? Nem parece que gosta de borboletas! Olha o tanto que você judia delas no final! Me lembrou até o final trágico de um de seus maiores clássicos: "o gato e a borboleta".
Seja mais boazinha com elas, hihihih!!!

Gostei!
Abraço!

Cecilia Teixeira Oliveira disse...

Quê isso, Ciro! Eu só estou alertando pra elas ficarem mais espertas, ora! Rsrsrs...