quarta-feira, 10 de março de 2010

Sobre Sapos e Borboletas


Diz a lenda que girino e lagarta apaixonaram-se perdidamente. Na margem da lagoa havia um arbusto que espalhafatava seus galhos até quase tocarem a água. Ali aquelas criaturas se conheceram. Ali aconteciam os encontros, iluminados pelo sol da manhã ou ensolarados pelos raios da tarde. Ali foram felizes como jamais seriam em qualquer outro tempo ou espaço possível.

Assim foi até que notaram as mudanças – descobriram-se em mudança. A lagarta, agora, falava pouco, ocupada que estava em fechar-se no casulo. O girino, por sua vez, falava menos ainda, envergonhado com as formas bizarras que dominavam seu corpo.

Tristonho por ver a amiga escondendo-se em si mesma, chegou o dia em que o girino decidiu recolher-se a qualquer lugar que também o escondesse. Foi para um lado bem oposto da lagoa e lá ficou, vendo as formas cada vez mais estranhas que saíam em (de?!) si.

A lagarta, por sua vez, morria de saudades do girino, mas nada podia fazer por enquanto, trancada que estava na prisão que ela própria havia construído – com tanto esmero que nem pôde dar a atenção devida ao amigo.

Dias se passaram e o girino resolveu tentar uma reaproximação – já não aguentava mais ficar longe da lagarta. Desolado, entretanto, percebeu que sua amiga havia simplesmente desaparecido. No galho em que ela costumava esperá-lo só havia agora uma casca esfrangalhada. O girino, então, voltou ao lado oposto da lagoa decidido a nem mais sair de lá.

Precipitado que foi - se tivesse esperado um minutinho de nada, teria encarado uma linda borboleta cheia de tamanhos e cores que morava naquele galho. Somente para se alimentar de néctares é que ela voava dali, e nunca se demorava, posto que passava os dias olhando para a lagoa com a esperança de re-encontrar seu amigo anfíbio.

Tempos depois, o girino já era sapo e havia saído de dentro da lagoa, mas jamais pulava para muito longe, pois ali vivera os momentos mais lindos de sua vida e ainda nutria o desejo forte de rever a lagarta um dia.

Num de seus voos em busca de nutrição, a borboleta cheia de tamanhos e cores se deparou com aquele bicho tão diferente e cismou que algo nele lhe era familiar. Aproximou-se até encará-lo nos olhos e exclamou, cheia de certezas, que o conhecia de lugar qualquer que fosse.

Faminto, o sapo nem deu importância para as palavras da criatura lepidóptera que esvoaçava à sua frente. Piscou para a borboleta cheia de tamanhos e cores que nunca tinha visto iguais sem nem perceber o gesto que fazia. Em seguida, lançou sua língua anfíbia e a devorou com ânsia e brutalidade. Regalou-se com todas as sílabas que a palavra é capaz de carregar!

E, desde que encontrara as cascas no galho e enquanto houve-se em vida, nem mesmo um único dia se passou sem que ele se sentisse triste e ressentido por considerar-se abandonado pela sua namorada de infância...


2 comentários:

Ciro M. Costa disse...

Mais um final trágico para outra borboleta, hein Sessyllya! Como você é má! Primeiro um gato, depois um peixe... agora um sapo! Assim as borboletas vão se revoltar! Hahahahahhaha!!!

Gostei desse texto também. Bom ver que seus dotes 'escriturais' não se acabaram. Pelo contrário, estão cada vez melhores!

Abraço!

Cecilia Teixeira Oliveira disse...

Valeu, Cirão! Tive sorte de ter bons mestres, como você... Rsrsrs...

Obrigado pela visita!
Mil bjos!!!