sábado, 10 de janeiro de 2009

Aurellyana em Solitude


Aurellyana era garota portentosa de graças, adolescida de idades, adulterada de modos. Pensava que o tempo tem vez que se cansa, a vida tem lugares em que se descansa, tem hora que a gente é que nem os alcança.

Havia-se como companhia de um vazio tão grande que já não mais lhe cabia no peito, por isso apreciava dividir-se consigo mesma em manias diversas e absurdas que lhe particularizavam as vivências.

Divisões constantes acabaram por transformá-la num caso muito abusado de talentos artísticos multiplicados – tudo nela era surpresa, pois que somente havia as sabedorias para coisas belas e de nenhuma utilidade prática.

Seus hábitos eram antigos, eruditos, fazia as coisas que não mais são consideradas passa-tempo e ocupa-espaço em dias de hoje. Ouvia a dança do vento e dos bichos que voavam em sua janela; dançava com eles; flutuava em melodias barrocas, suas favoritas, como se som fosse capaz de sustentar a leveza de seu peso; mergulhava nas cores de telas abstratas e se sujava em sombras que elas faziam; perambulava por mundos fictícios replenos de seres fabulosos e quimeras dentro deles.

Aurellyana era personagem importante da peça que acontecia em torno de seu quarto e através de sua mente. Fazia parte de histórias – lúdicas, lúcidas, lúbricas também – que vivia, embora preferisse a função de observadora. Gostava mais era de contemplar os lugares adentrados, analisar os porquês do que sucedia, bisbilhotar o que as criaturas faziam e o que se fazia delas, avaliar a qualidade dos criadores que lhe ofereciam suas criações – criaturas – de Arte, discutir com eles todos suas perspectivas de interpretação.

Com o tempo, começou a dialogar com estrangeiros. Fez escolhas aleatórias dentre nomes de uma lista de clássicos que conseguira reunir ao longo de conversas com pessoas entendidas e pesquisas autodidáticas. Um dia, encontrou García Márquez e percebeu a reviravolta nas entranhas. Que relâmpagos de mundo era aquele com que se deparava? Coisa mais estúrdia, como é que sentia tão próximo de si a realidade que as palavras romanceavam?

Feito se fosse a letra em meio dos capítulos, sílabas das frases que transformam papel em página, Aurellyana lia. Comia do texto – antropofágica. Regalava-se em devoramento daquilo. Alimentava-se. Peixe que se afoga em baba própria por excesso de bolhas.

Foi quando apareceu a Remédios que Aurellyana, definitivamente, antecipou-se em tragédia. Entendia que a menina que García Márquez lhe apresentava era o concreto daquilo que considerava a perfeição do advérbio adjetivado em substantivos. E Aurellyana sabia que tudo que é perfeito sofre de impossível. Descobriu que encontrava a personagem pela qual havia esperado desde que se sabia ser viajante dos caminhos da Arte e leiturista de ficções. Apaixonou-se pela menina com força tamanha que já pensava em raspar a cabeça e virar borboleta.

A vontade era sincera e tenaz. Tornou-se incontrolável – insuportável. Aurellyana queria repetir a façanha de Remédios, ser bela e livre como ninguém, nunca-e-jamais, alhures-e-algures, havia conseguido.

Olhou pela janela e teve a ideia. Mais de dez andares. Era fácil, era simples, era irresistível. Pulou. Nem se lembrou de guardar o livro. Levou-o junto consigo.

Sensacionalistas acusariam García Márquez de ser influente pelas letras, fazer apologias a uma solidão mais terrível que todos os monstros mais terríveis da mitologia. García Márquez seria responsável pela queda de Aurellyana. E pode ser que ninguém entendesse que o que Aurelyana queria era somente ser.


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