Desafio


Decidida, borboleta preparava-se para o novo desafio. Camuflada há dias num tronco de árvore específica, sabia-se segura de predadores todos e quaisquer que rondassem o lugar, mas precisava com urgência de seguir sua vida e não mais convinha permanecer imóvel ali.

Era necessário ação qualquer que modificasse sua condição – ou morreria segura e inútil naquele tronco de árvore. Não queria ser inútil. Havia flores esperando para ser polinizadas, muitos jardins desejosos de sua visita, inúmeras crianças ansiando por ver suas cores flutuando nos ares.

Borboleta reunia-se em coragem, toda aquela que sabia ter e mais alguma que não conseguia adivinhar de onde vinha. Estava certa de que, uma vez que se mexesse, não haveria meios de estar novamente segura até que alcançasse o outro lado da floresta. Predadores a veriam e atacariam – doidos de famintos. Borboleta sabia das mínimas chances que tinha de sobreviver, mas precisava tentar. Antes morrer lutando que perecer inerte.

Assim, borboleta levantou voo – tão ágil e rápida quanto sua condição de borboleta lhe permitia. Sentiu bicadas de pássaros nas asas, garras que lhe rasgavam as escamas, espinhos que lhe feriam o corpo... Prosseguiu, porém, escapando de tudo, não sem surpresa por ainda estar no ar.

Ao atravessar a zona de perigo, pousou em lugar qualquer para avaliar as perdas. Viu-se com parte das asas esfrangalhada, um ferimento doído no corpo e pequeno trauma numa das antenas. Já não seria mais tão fácil sobreviver com tantas avarias físicas, mas estar viva – naquele instante – parecia-lhe mais importante que tudo o mais que existia. Enquanto vida tivesse, útil poderia ser.

E pensar que a metamorfose de lagarta era o ápice de evolução que uma borboleta poderia pretender... Ela agora sabia que as transformações mais importantes jamais poderiam ser vistas – pois que acontecem do lado de dentro...


A Borboleta e o Horizonte


Houve a vez em que uma borboleta – azul da cor do céu – apaixonou-se pelo horizonte. Admirava de longe a beleza que ele tinha, com as cores todas de que coloria-se ao longo do dia.

Até que borboleta cansou-se daquela paixão distante – decidiu ir ao encontro do seu amado. Entretantos todos que existem: quanto mais voava para o horizonte, mais ele lhe fugia.

Borboleta pensou, então, que o horizonte não a amava nem a queria por perto. Quis voltar para o lugar de onde tinha vindo, mas era já tarde, posto que estava no meio do oceano – completamente exausta – e não via sinais de ilha nem de pedra nem de nada onde pudesse repousar para recuperar suas forças.

Foi aí que borboleta pensou que nem havia motivos para voltar, pois que, fosse para ficar longe de quem amava, preferia mesmo deixar de existir.

Assim, borboleta jogou-se nas águas do oceano – que, com pena dela, deu-lhe barbatanas e guelras, para que vivesse e pudesse continuar em busca do horizonte que tanto amava. E foi aí e foi assim que surgiu a primeira sereia na face da Terra.


Dores


Hellah estava triste e não havia o motivo. Talvez, em verdade, não estivesse, posto que observava agora o fato de – ao que todas as evidências explicitassem – sempre haver sido assim. Difícil era chegar a conclusão tão extrema: a tristeza não lhe era um estado de alegrias ausentes, mas uma característica intrínseca que se mostrava presente – e com certeza irremediável – mesmo nos momentos de maior felicidade.

Só não sabia o motivo de sentir – talvez nem mesmo houvesse um que justificasse – tristuras tão plenas e dolorosas em todo o seu ser. Que lugar era esse cujo tempo não lhe cabia? Que tempo era esse cujos espaços não a podiam preencher?

Nessas horas pensava em morrer, mas logo desiludia-se com a ingenuidade frágil da ideia. Hellah sabia que sair desta vida era renascer em outros mundos. E se havia algo que Hellah não queria de forma alguma era renascer; por nada que desejaria tortura assim tão maior do que viver, o renascimento – começar tudo de novo.

Hoje, cansaço era tão absoluto a ponto de suplantar qualquer outro tipo de sofrimento. Assim, as perguntas que a angustiavam resumiam-se em única dúvida. Por que não se pode simplesmente desistir, assim como atleta que abandona o campeonato ou criança que se cansa da brincadeira?

Não podia mais suportar as frustrações que lhe atacavam de todos os lados, mesmo quando pareciam improváveis ou mesmo impossíveis. Se bem que, raciocinasse com mais imparcialidade e descobriria a parte de responsabilidade que lhe cabia. Fato era que a dor existia e ignorava qualquer raciocínio sensato e ponderado que sugerisse o seu fim – ou mesmo sua existência em grau menos intenso. Sabia-se diferente e pode ser que as razões todas de suas tristezas partissem daí.

Que mal poderia haver em possuir asas? Pode ser que tudo fosse diferente num tempo em que todos soubessem voar... Se admitisse que as coisas nem eram assim tão difíceis, não haveria mais as justificativas para não fazê-las. Aí então descobriria que talvez a resposta procurada fosse, tão somente, começar as lições de ensinamento, mesmo embora soubesse da grandeza de incapacidades que havia no mundo.


Amor (Im)Perfeito


Borboleta apaixona-se por estrela e pensa que basta ir voando cada vez mais para o alto a fim de encontrá-la. Não entende da impossibilidade de distâncias.

Tempo passa e borboleta pensa que a estrela bem que poderia vir voando cada vez mais para baixo a fim de agilizar o encontro. Não entende da impossibilidade de movimentos.

Tempo passa mais e borboleta começa a pensar que a estrela está nem aí para ela. E sofre – muito e cada vez mais. Não entende do sofrimento que a estrela também enfrenta por causa desse amor impossível em si.

Tempo passa, porém, e estrela ama a cada dia mais a borboleta. E entende que distância nenhuma nem nada jamais será capaz de estragar o que sente. Estrela, então, descobre que amor perfeito tem que ser impossível.


Solidão


Quem gosta de solidão tem dificuldade de convivências quaisquer – pois que quem não incomoda-se com solidão não sente necessidades de misturar-se com semelhantes, menos ainda com divergentes. Sabe que é importante envolver-se com outrem, pertencer a um grupo e compartilhar a vida, mas apenas sente-se verdadeiramente à vontade longe dessas obrigações convencionais.

Problema de quem não sente a própria solidão é gostar demais só de si.


Bruxa


Era uma vez uma bruxa que não aguentava mais ser bruxa. Por isso, todo dia ela transformava-se em linda borboleta roxa e saía voando por aí, flutuando no vento.

Queria encontrar companhia para passeios, mas não sabia como. Então, fazia feitiço de todas as flores que encontrava e fazia o vento que a levava tornar-se cheio dos cheiros todos que conseguia juntar.

Será que um dia um bicho qualquer seria alucinado pelo seu rastro de odores doces e leves? Será que esse bicho seguiria a trilha que ela deixava? Será que ele iria em busca daquela magia perfumosa que ela inventava?!

A bruxa torcia para que assim fosse. Se acaso um dia o bicho a encontrasse, ela o levaria para voar com ela, aconchegado e dorminhoco em suas asas de borboleta.


Ares e Mares


Perigoso demais é mergulhar em mar de rosas. Mais ainda se forem vermelhas. Pois que as rosas murcham, as pétalas soltam-se e são levadas até a praia pelas ondas. Em busca delas – as pétalas na praia – é comum quase sempre ferir-se nos espinhos que sobram em alto mar. Feridas suportadas alegremente pela tola ilusão de que haverá a recompensa do perfume róseo. Quando se atinge a praia, contudo, provável é que as pétalas já tenham se degenerado em podridão. E é somente então que as lágrimas têm permissão de se juntar às ondas.

É por isso que Hellah preferia mergulhar nos ares com suas asas de borboleta. Pois que elas – as asas – permitiam-lhe beijar as rosas vermelhas e flutuar entre os espinhos, como borboleta que dança no vento, bailarina dos ares. Borboleta é capaz de alegrar humanos e hipnotizar leões, viajar em nuvens e transgredir os limites das dimensões todas que ninguém ainda conheceu. Borboleta é capaz de transformar mundos, criar universos e inventar fantasias – livre como somente o amor legítimo é capaz de ser.


Descobertas



Ferida por predador qualquer, a frágil criatura não conseguia decidir se a dor de estar viva era mesmo melhor que o alívio de ter sido devorada de vez. Pensava que a vida era injusta. Tão pequena e delicada ela era, tão leve e fraca – e precisava fugir de inimigos grandes e poderosos, fortes e brutos. Às vezes eles feriam tanto que nem parecia ser possível aquilo ser curado.

Nunca encontrou quem a protegesse, nunca conseguiu a amizade sincera de um animal mais forte que a salvasse, nunca pôde confiar em bicho qualquer que fosse, nem mesmo nos de sua espécie – quando surgia o perigo, todos lembravam-se somente de que cada qual por si deveria dar jeito de cuidar-se.

Pobre ser, tão pequeno e frágil. Ser mais pobre ainda, agora que descobria-se em solidão plena. No fim das contas, a vida era mesmo injusta. Tantos seres no mundo e – pobre de todos eles – cada um somente podia contar com si mesmo...


Monstro Avesso


Desde o dia em que pela primeira vez o olhou nos olhos, Hellah tentou fugir. Em vão, pois que olhos dele sempre a perseguiram, aterrorizaram e amedrontaram, aonde quer que ela fosse, onde quer que estivesse... Mesmo em seus sonhos – ou talvez especialmente neles.

Hellah não sabia que olhos dela também o assombravam.

É que havia um monstro naqueles olhos. Nos olhos que eram os dele e nos olhos que eram os dela. Metade de monstro em cada – nele e nela. Metades ferozes, desesperadas por se reencontrarem, mais ainda depois que viram-se e reconheceram-se em metades.

Ele queria favorecer o encontro, ansiava por enfrentar o monstro que habitava metade em si e metade nela. Hellah temia – e fugia. Sabe-se lá o que poderia acontecer se aquelas metades de monstro se unissem em um só. Hellah temia sentir o que pressentia nunca saber explicar, que nem tinha nome nem tamanho nem limites nem fim. Hellah negava sua parte de monstro – e fugia.

E tal foi o esforço dela – vão – em tanto fugir daquele monstro – que era parte dela – que, quando precisou de forças para enfrentar perigos outros que a vida ofertava, nem tinha mais. E, quando olhos dele enfim a encararam de novo, Hellah foi nem mais capaz de fugir nem muito menos resistir.

Foi assim que olhos dele e olhos dela brilharam nas mesmas cores e as metades do monstro que eram puderam libertar-se, prendendo Hellah e ele para sempre em laços infinitos do que ainda não foi inventado – posto que sempre existiu ali, do lado de dentro de si.


Pistas Coloridas


Toda palavra que escrevia em papel ganhava vida e desprendia-se – saltava para a realidade. Assim pôde criar um mundo inteiro para guardar fantasias todas que eram as suas.

Exagerava nas cores desse mundo. Exagerava – em números e em qualidades – nas borboletas que descrevia – sabia que elas iriam espalhar-se pelos mundos todos que existiam. Queria que elas lhe trouxessem companhia.

Um dia, alguém – que cantava cores que coloriam ares – seguiu uma das borboletas até deparar-se com o encantamento daquele mundo. Quis viver ali também. Então, quem criou aquele mundo deixou que esse alguém entrasse como se o mundo que criara fosse dele também. E acabou sendo mesmo, porque agora é um mundo cheio de asas desenhadas e cores espalhadas por toda parte, cores nas quais ambos aqueles seres mágicos fazem questão de se sujar inteiros...


Sonhos


Fazia já tempos muitos que lembrava-se d’Hellah desde o momento em que acordava até o momento em que deitava-se para dormir. E, quando dormia, continuava lembrando-se d’Hellah. Por isso a encontrava nos sonhos que tinha – e, lá, lembranças todas tornavam-se realidade. Ou será que lembrava-se d’Hellah o dia todo por causa das lembranças vividas enquanto dormia?!

Será que Hellah sonhava o mesmo sonho que era o seu?! Se assim fosse, sonho seria completo.

“Como é que você, sendo o meu sonho, é capaz de sonhar comigo, que sou a realidade mais concreta que é presença em sua vida?” Era o que sonhava em perguntar a Hellah, a mulher dos seus sonhos, se soubesse da reciprocidade desses sonhos em sono d’Hellah.

Coração partido bem que pode ser o coração de duas pessoas separadas por tempo ou espaço grande, cada metade em época ou lugar distante demais...


Legado


Passados tantos e tantos tempos, o homem começava a ficar intrigado com aquilo. A cada pensamento que dedicava à sua amada, uma borboleta surgia para visitá-lo. Não podia ser coincidência. Fazia muito tempo que acontecia, embora só agora ele atentasse para o fato.

Num dia distante do passado, o homem perdera a mulher de sua vida – para sempre é que a perdia. Até hoje não conseguia entender como foi que deixou-se enveredar por trilhas a tal ponto tortuosas que o impediram de agir a tempo – de evitar o acontecimento. Quando enfim reencontrou-se na exatidão do caminho certo – aquele que o levaria à sua fada encantada –, ainda pôde abraçá-la com toda a força que guardava dentro de si, chegando a arrebentar-lhe as asas. Era tarde, porém, pois que sua amada já se havia transportado para outras dimensões que ele ainda não estava – e talvez jamais estaria – autorizado a conhecer.

Em seu lugar, ficaram apenas os casulos que ela protegia em meio aos cabelos e as borboletas que fugiram no seu último suspiro.

Somente agora o homem compreendia: a fada que amara – e que ainda amava – e que talvez para todo o sempre amaria – deixou-lhe borboletas como forma de conforto.

Desde então, o homem passou a sempre acenar para as borboletas que via. Tinha certeza de que era sua amada que vinha visitá-lo, para enfeitar-lhe a vida com cuidados de todas as cores aladas que podiam existir.


Desencanto


A Mennynnah, um dia, descobriu um poder bizarro e inútil que tinha: transformava, com seu beijo, príncipes em sapos. Deu-se conta, assim, de que estaria fadada à eterna escolha entre solitude e desencanto. Pois que o feitiço não tinha cura e seus efeitos não tinham volta.

O que fazer ante tal dilema? Transformar príncipes encantados em sapos asquerosos ou aceitar-se para sempre só? Chegou a experimentar os beijos em sapos, para testar se coisa qualquer acontecia. Em vão. O feitiço não funcionava às avessas. Restava esperar que houvesse no mundo príncipe com poder idêntico ao seu – o de transformar princesas em anfíbios, de modo que o beijo dele nela e o beijo dela nele transformassem ela e ele em bichos da mesma espécie?

Foi assim que a Mennynnah compreendeu a parte do destino que lhe cabia como carma – aquela que jamais poderia alterar. Não sabia o que fazer, mas agora sabia o que não mais poderia fazer. Não era a maneira ideal de se estar diante da vida, mas, em todo caso, era ao menos o estabelecimento de um critério.


Ambiguidade



Coisa mais estranha é o tempo.

Necessário para o nascimento. Responsável pela morte.

Necessário para que haja lembranças. Responsável pelo esquecimento.

Necessário para a construção das coisas todas. Responsável pela destruição de tudo.


Força


A Mennynnah pensava que era forte. Até que a vida resolveu colocá-la à prova, enviando-lhe desafios e sofrimentos grandes demais para o tamanho que ela pensava que tinha.

Então, a Mennynnah sofreu bem mais do que queria – embora muito menos do que demonstrava. Dramatizava um pouco, que era a maneira dela de tornar as coisas mais líricas.

No fim, a Mennynnah superou tudo, superou tanto que acabou por superar a si mesma em todas as fraquezas que agora já não tinha mais. E, depois do tudo passado, concluía que nem havia sido assim tão difícil.

Foi então que a Mennynnah descobriu que era ainda mais forte do que pensava.


Vingança


Havia já 16 anos desde que fora atacada pelos lobos brancos. As lembranças daquela noite já não lhe perturbavam tanto, mas ainda apareciam às vezes, durante o sono. No começo revoltou-se, quis vingar-se, fugir... Mas jamais conseguiria vingar-se ou fugir das centenas de lobos brancos que a atacaram. Por isso, acabou juntando-se a eles.

Levou algum tempo até descobrir a verdade sobre o aumento desordenado da população de lobos naquela região. Aquela história de que eles começaram a reproduzir-se desordenadamente era uma farsa. Em primeiro lugar, eles reproduziam-se muito pouco, pois a quantidade de fêmeas era insignificante por ali e elas só permitiam a cópula nas épocas de cio. Em segundo, os lobos brancos eram nômades caçadores e migraram para aquele lugar após serem escorraçados de um vilarejo no estado vizinho. Devoraram os lobos nativos e, desde então, começaram a alimentar-se principalmente de pessoas que passavam desavisadas pelo lugar, o que acontecia regularmente.

Não entendia como as pessoas continuavam aventurando-se por aqueles caminhos, mesmo sabendo do perigo que corriam. Descobriu, ao longo dos anos, que era aquela velhinha caquética quem as convencia a caminharem rumo ao Grande Rio, em troca de os lobos deixarem em paz a população do vilarejo. Como a região era um ponto turístico muito famoso e importante no país, todos os dias recebiam boas e fartas refeições humanas: 30, 50 pessoas, às vezes o dobro disso.

Algumas vezes, caçadores armados atiravam nos lobos, mas eles nem mesmo sangravam. Aqueles lobos não morriam. Lobisomens. A população de lobos aumentava desordenadamente por esse motivo. Uma espécie de lobisomens que não tinham mais necessidade de transformar-se em homens para caçar, visto que a caça ia certeira até eles. E ela também tornou-se um deles. Também comia turistas desavisados que se perdiam por aqueles prados.

Nos primeiros dias após o ataque, foi difícil acreditar no que seus olhos viam, mas logo as evidências tornaram-se incontestáveis. Havia transformado-se em um deles e o mesmo acontecia com todos aqueles que eram atacados nas noites de sexta-feira.

Conseguiu viver assim por 16 anos, assim como seu amigo. Tempo suficiente para que planejasse algo – qualquer coisa – que pudesse interromper a situação. Procurou por anos a fio até encontrar a erva – uma que conhecia de tradições antigas, única capaz de acabar com essa espécie de lobo. Já não podia contar com o amigo, há muito integrado como se fora nascido ali, lobisomem como os outros – tornara-se o chefe da alcateia. Haveria que agir sozinha.

Assim, em dia que julgou conveniente, ingeriu quantidade adequada do veneno e provocou o amigo da maneira como sabia que deveria ser. Provocou-lhe irritação, raiva, ódio, fúria... Os outros lobos todos manifestaram-se, sabiam como agir em situações desse tipo. Desafiar o chefe era erro imperdoável. Qualquer outra infração às regras poderia ser relevada, menos essa.

A uma ordem do chefe, os lobos atacaram – sem que reação alguma de fuga ou enfrentamento fosse percebida na infratora. Cada um dos lobisomens obteve um naco daquele corpo, embora a parte mais nobre – o coração – ficasse reservada ao chefe.

Somente dias – muitos – depois, quando uma quantidade inenarrável de urubus foi capaz de formar uma nuvem que cobrisse a luz do sol por mais do que alguns instantes, a população do vilarejo deu-se conta do significado da palavra “liberdade”.


Os Lobos


Após três dias de caminhada praticamente ininterrupta, nosso cansaço era tanto que decidimos acampar por ali mesmo. De acordo com nossos cálculos, faltavam apenas algumas centenas de metros para chegarmos ao Grande Rio, mas estávamos exaustos demais. Era preciso recarregar as energias. Alcançaríamos nosso objetivo com facilidade no dia seguinte, quando acordássemos de um sono de, no mínimo, umas doze horas.

Havia três dias saíramos de casa, logo nas primeiras horas da madrugada, com o objetivo de conhecer o Grande Rio. Estávamos de férias, tínhamos muito tempo e energia para gastar nessa aventura. Queríamos curtir ao máximo a bela e boa Mãe Natureza, afinal, estávamos mesmo precisando relaxar, desligar a cabeça dos velhos problemas impostos pela civilização.

Durante esses três dias, caminhamos tranquilamente, mas sem parar, pois queríamos chegar logo ao Grande Rio e pescar durante dias e dias. Colhemos frutas frescas nas árvores do caminho e as saboreamos ao som agradável dos pássaros e do vento. Caçamos pequenos animais e fizemos singelos banquetes antes de dormirmos quatro horas por noite. Dormimos pouco, mas andamos muito e aproveitamos tudo o que a paisagem e o ambiente nos ofereciam. Sabíamos que, com um pouco de sorte, encontraríamos mel silvestre e invertebrados exóticos. Fotografamos tudo até ali, sob os mais diversos ângulos, e pretendíamos tirar tantas fotos quantas fossem necessárias para eternizar cada minuto daquele passeio.

Tudo estava perfeitamente planejado e calculado, mas algo havia que incomodava-me desde o início desta história: os lobos. Segundo relatos de habitantes do vilarejo mais próximo, havia naquela região, do outro lado do Grande Rio, uma estranha raça de lobos brancos selvagens. Por motivo desconhecido qualquer, eles reproduziam-se mais do que o normal e, com o passar do tempo, a comida foi tornando-se escassa. Passaram a atacar lenhadores, caçadores e turistas que cometiam o atrevimento de cruzar o Grande Rio e, desde então, os lobos viciaram-se em carne humana.

A última pessoa que vimos antes de entrar na floresta foi uma velhinha cega e esquálida que parecia ter a idade da Terra. Ela fez o sinal da cruz três vezes antes de dizer que, depois que o primeiro lobo atacou o primeiro ser humano, ninguém que entrou por aquelas trilhas conseguiu sair para contar o que viu. Estremeci de pavor e senti os pelos do meu corpo eriçarem-se de imediato. A velhinha parece ter percebido, pois procurou minhas mãos e apertou-as carinhosamente, murmurando uma bênção. Depois, tratou de tranquilizar-me, garantindo que não correríamos perigo algum se ficássemos do lado de cá do Grande Rio, pois os lobos jamais conseguiriam nadar em águas tão profundas.

Foi essa informação que trouxe-me de volta o ânimo para encarar aquela aventura, mas a simples existência daqueles lobos apavorava-me. Durante o trajeto, ouvíamos um uivo de vez em quando, distante o suficiente para não assustar alguém que já não estivesse sentindo suficiente pavor. Se aquela senhora não tivesse garantido ser impossível haver lobos daquele lado do rio, eu juraria que um desses bichos acompanhava-nos escondido em algum lugar da mata que margeava a trilha.

Quando eu ouvia esse uivo, os pelos da minha nuca arrepiavam-se e eu pensava que era uma espécie de provocação penetrar em terras que aqueles lobos habitavam. Precisávamos prosseguir, no entanto, e foi o que fizemos.

Já havíamos nos deitado em nossos sacos de dormir e conversávamos sobre nosso passeio. Certamente comeríamos peixe no almoço do dia seguinte. Eu tentava convencer-me de que não havia motivos para ter medo, mas os uivos pareciam menos esparsos agora e já não estavam mais tão distantes. Um estranho farfalhar na mata, como se não estivéssemos a sós por ali, fazia-me lembrar de que estávamos já perigosamente perto do território dos lobos.

Foi quando um uivo longo e aparentemente bem próximo interrompeu nossa conversa, provocando um arrepio desagradável e inesquecível na minha espinha. Agradecemos aos céus por haver um rio bem fundo que nos protegia daqueles monstros e decidimos nos ajeitar e dormir. Devido ao cansaço da longa jornada, não demoramos a cair em sono profundo.

Pouco antes da meia-noite, uma sucessão de sonhos assustadores e angustiantes despertou-me e, a partir daí, não pude dormir mais. Resolvi andar um pouco, explorar os arredores para tentar desacelerar meus batimentos cardíacos. Os uivos eram mais constantes agora, assim como os arrepios da minha espinha. Não havia dúvidas de que os lobos estavam bem perto. Eu só continuei a caminhar porque sabia que havia um leito de rio bem fundo entre mim e os lobos. Eles jamais chegariam até mim.

Tais eram meus pensamentos quando desci por um acentuado declive e cheguei a uma parte diferente do terreno, num nível uns 10 metros inferior ao barranco. O solo era úmido, pegajoso, a lama engolia meus pés e dificultava a marcha. Havia poças de água barrenta espalhadas aqui e ali. Eu diria que era um pântano meio seco pela estiagem, não fosse a ausência daqueles arbustos com raízes aéreas retorcidas acima da lama.

Na verdade, agora eu reparava que havia árvores frondosas no topo do declive, sem frutos e com as folhas meio amareladas. Mais um uivo, desta vez bem próximo, fez-me olhar em volta e perceber que o barranco por onde desci não era um trecho de terra desmoronada pela erosão, como eu havia pensado. Após observar atenciosamente o lugar, vi que do lado oposto ao que eu desci, também havia um barranco e ambos seguiam paralelamente até onde a vista alcançava. Havia árvores dos dois lados, formando um estranho corredor largo e rebaixado ou, talvez, o leito de um rio bem fundo... Imaginei que o topo dos barrancos, enfeitados de árvores amarelentas, eram as margens de um grande rio que havia muito estava secando. Grande Rio! Ali era o leito do Grande Rio que deveria nos proteger dos lobos!

Tomada de pavor, caminhei às cegas à procura de um lugar que permitisse-me subir de volta, mas a terra desmoronava a cada uma das minhas tentativas de escalar o declive. Logo avistei um lobo branco no meio do leito seco do Grande Rio e seus uivos paralisaram-me – imediata e completamente. A mata movimentava-se e os uivos multiplicavam-se. Parecia haver muitos lobos por ali, inúmeros, infinitos. Dois deles juntaram-se ao primeiro que vi, depois mais dois e vários outros que desciam pelo barranco. Eles chegavam devagar e ajuntavam-se em pequenos grupos, como se estivessem reunindo-se para uma grande festa. Ouvi um barulho atrás de mim e virei-me, pedindo ao cosmos que aquilo não estivesse acontecendo; mas estava: os lobos desciam também por aquele lado, deixando-me dentro de um cerco irremediável.

Mal tive tempo de preocupar-me com meu amigo que dormia na barraca, a alguns metros dali. O que aconteceria com ele? Aliás, o que aconteceria comigo? Por que eu estava ali? Eu sabia que havia lobos famintos por aquelas bandas, então por que aventurei-me até aquele ponto? A essa altura, eu via uma enorme multidão branca aproximando-se por todos os lados. Os pelos da minha nuca estavam eriçados e os uivos causavam-me arrepios cada vez mais desagradáveis na espinha.


Reflexos de Narciso



Tão linda era a borboleta – vendo-se refletida na água do lago, apaixonou-se por si mesma sem desconfiar de que as coisas eram assim. Todos os dias esvoejava sobre as águas, enamorada da imagem colorida que via, namorando o que pensava ser seu par. Tornara-se feliz e jurava-se correspondida, sentia-se completa e favorecida pelas sortes todas deste mundo – não era todo mundo que havia-se em tantas alegrias conjuntas como eram as dela.

Tão confiante estava que suas patinhas pousavam na superfície da água e ela assim permanecia por horas a fio, apenas contemplando a imagem tão linda daquela companhia que imaginava estar também encarando-a nos olhos. As frágeis patinhas tocavam a água e a borboleta pensava estar tocando as patinhas da companheira. E seus dias eram tão felizes que ela às vezes esquecia-se de voar e enfeitar outros prados.

E o tempo passou e a borboleta aprendeu a passar o tempo todo parada na superfície da água, em companhia do reflexo que acreditava ser seu amor perfeito e eterno. Até o dia em que um peixe desses vulgares, que habitam lagos vulgares e exercem hábitos de vida vulgares, encontrou – na linda borboleta enamorada de si mesma – alento para a fome que sentia.


Acorrentada


A Mennynnah sentia um amor de passarinho preso em gaiola inversa.

Passarinho na gaiola canta de saudade e só pensa em fugir da prisão. O amor da vida do passarinho é a liberdade.

A Mennynnah, porém, queria era justamente estar presa ao amor da vida dela para sempre – acorrentada que estava ao sentimento mais libertador que jamais havia sido capaz de experimentar.


A Estrela e o Arco-Íris



Era uma vez uma estrela que brilhava longe no infinito escuro do Universo. Há zilhões de anos sem parar ela brilhava, mas seu pisca-pisca chegava fraquinho no céu dos planetas do Sistema Solar, os mais próximos que havia – embora extremamente distantes. Tão distantes que sua luz chegava fraquinha até eles. Tão fraquinha que até confundia-se com as outras zilhares de estrelas que piscavam também por ali.

Era lilás essa estrela, única entre outras todas que cores tinham em si. Única estrela lilás de todo o Universo. Mas que é que interessava a cor da estrela se brilho seu chegava tão fraquinho nos planetas para os quais piscava? Tão pouco interessava a cor que refletia que nem mesmo ela mesma sabia que era única.

Um dia, cansada de brilhar tão longe e ser só mais uma entre outras todas, a estrela lilás jogou-se no planeta Terra. Queria cair naquele azul tão lindo que via de longe. Jogou-se e caiu numa praia de areia clarinha e bem fina, tão macia e leve que nem machucou-se na queda. Olhou para o céu e viu todas as suas colegas estrelas, tantas cores elas tinham... Com um pouco mais de observação, descobriu, cheia de susto, que não tinha uma colega com cor gêmea. Era única, pois.

A dúvida, então, instalou-se em sua vida. O que “era” agora que descobria-se única? O que “fora” antes de sabê-lo? O que seria daqui em diante, sabendo-se assim? Cheia de dúvidas, conflituosa que tornava-se, perguntava-se qual seria sua função no mundo. Não sabia, nem imaginava – por isso, desesperava-se.

A noite seguia seu curso e, de repente, a estrela viu o arco-íris. A visão a deixou alucinada, jamais havia visto imagem tão linda em todo o seu existir. Quis subir nele e descer de tobogã, mas, quanto mais tentava aproximar-se, mais dela ele afastava-se. Virou criança entretida com o novo brinquedo. Corria para o arco-íris e ele lhe fugia.

Muito tempo passou-se até que a estrela intuísse algum engano. Que estranho amigo era aquele que aparecia para alegrá-la com suas cores mas lhe fugia o tempo todo? Tanto pensou nisso que chegou a dizê-lo em voz alta. O arco-íris, então, soube o que passava-se na cabeça da amiga e fez questão de responder o que sabia, tão óbvio parecia – o arco-íris era tão somente reflexo que a estrela fazia na água.