quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

(Entre Parênteses) & Reticências...


Entre parênteses e reticências foi escrita a história do amor mais maluco e ridículo que já existiu em qualquer tempo-espaço possível.

Nessa história nunca houve lugar para pontos finais, embora certas exclamações bem que tenham tentado se passar por eles. Havia vírgulas demais na história, mesmo porque os vocativos eram muitos e variados, assim como as enumerações, as gradações e as citações que a compunham. Sem contar o exagero de interrogativas e condicionais... Alegorias exageradas que nem chegavam aos pés da realidade que os protagonistas personificavam.

Às vezes perguntam-me dos meus sonhos. Digo que não preciso de sonhos, pois que vivo em realidade suficientemente mágica para enfeitar toda a existência que é a minha.

Questionam-me, então, o que quero da vida, o que almejo. Digo resoluta de minhas pretensões: desejo dormir em braços dele, alimentar-me do seu gosto, aquecer-me com seu corpo e viver do seu amor – por toda a infinitude do sempre.

Quase todas as vezes ninguém é capaz de compreender minhas respostas. O que, entretanto, resta dizer com palavras - se meus olhos gritam tudo o que há em mim?

Entre parênteses e reticências, um asterisco que dizia: “fosse com ele e tudo seria somente magia”.

É por isso que, toda vez que ele me pede em casamento, eu aceito. Pela eternidade afora, ou adentro, até que o infinito nos encontre.


quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Analogia


Amor e Medo dormem juntos em cama por demais macia.

Só que o Amor tem sono profundo e tumultuoso: é preciso grande empenho e muito esforço para acordá-lo. O Medo, por sua vez, tem o sono tão leve que há quem diga que dorme com um dos olhos aberto.

É, portanto, impossível acordar o Amor sem que o Medo desperte antes.

A menos que a Esperança esteja entre eles. Ela conta histórias para distrair o Medo e mantê-lo sonolento enquanto o Amor levanta-se e corre em busca de sua adorável Felicidade.


quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Queda


A menina caía. Não sabia se saberia sobreviver àquela queda. É... A menina sofria. Não era fácil entender as coisas daquele jeito tão claro.

Descobria que, às vezes, quando sentia-se despencando em precipício, atitude mais sábia era conformar-se com a queda e torcer para que houvesse um rio lá embaixo. Assim, teria uma chance que fosse de salvar-se por conta própria.

Maior erro era esse que cometera há pouco – o de segurar a corda que alguém jogou quando ela estava caindo. Alguém a erguera até o topo para jogá-la de volta, logo em seguida. E, então, iludida, com aquela esperançazinha de ser salva por outrem, a segunda queda doía muito mais, acabava com as forças da menina, arruinava qualquer possibilidade de salvação futura, ainda que ela não morresse, ainda que houvesse um rio e que ela conseguisse salvar-se por conta própria.

Pois que delegar a outrem a própria salvação é a mesma coisa que negar-se à própria capacidade de ser, de existir. A quem culpar quando se confiou a mãos alheias o direito de fazer as escolhas que cabem somente a si?!

A menina sabia que jamais seria a mesma, nunca mais confiaria em quem quer que fosse. Boba dela, que não confiara em si no momento em que mais precisou dela mesma.


quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Amor Platônico


Amor deve respeitar que limites?

Haverá classes, estilos, idades, personalidades ou signos compatíveis entre si? Por que raios de tempestade uma pessoa apaixona-se por outra? Que energia mágica é essa que aciona o amor entre duas criaturas que – em tese – nem se conhecem ainda, fazendo-as arder em desejo e ansiedade, desprezando regras, convenções e tudo o que se interponha em seu caminho?

Oras... Que amor deve respeitar limites?!

Houve o tempo em que vivi amor assim platônico. Criança ainda, como é que poderia cogitar a ideia de render-me a ele, também criança, também vítima do mesmo amor e do mesmo platonismo?

Era amor platônico, mas lindo. Ou o inverso. Doía do mesmo jeito que aquele outro tipo de amor, aquele que não sofre de ser impossível. E era real, embora impossível. Ou o avesso.

Tudo bem, era um amor que eu queria sentir. Ninguém precisava saber. Era um amor só meu... Todo meu...


quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Dupla Personalidade


E a menina morreu. Do coração. Coitadinha... Enquanto pôde, resistiu; com bravura lutou até o fim... Não aguentou, contudo, mais aquela derrota.

Sofreria até o infinito, pois que roubaram-lhe o coração sem que ela tivesse conseguido evitar. Foi por isso que tive pena da menina e dei-lhe o meu, para que ela pudesse morrer do coração.

E fiquei em seu lugar. Para sempre. Nenhuma possibilidade existe de ressurreição. Se o ladrão aparecer de volta com o coração da menina, terá que doá-lo a outrem – alguém qualquer que precise de um –, pois que já me acostumei com sua ausência. Morrerei de raiva, de estresse ou de doença qualquer em algum órgão. Mas jamais hei de morrer do coração.

Ninguém chorou a morte da menina. Nem mesmo eu, sua melhor amiga. Ela sofreria demais se não morresse. Eu bem que avisei que era tudo igual, que eram todos iguais, que somente ela mesma era capaz de ser diferente de tudo, de todos, mas só se quisesse e se esforçasse com sinceridade de coração.

Ela, porém, não acreditou em mim. Acreditou em tudo, acreditou em todos, mas esqueceu-se de acreditar em si mesma. E, como consequência, precisou morrer.

Coitadinha, tão jovem... Pobre menina... Fui a única a me lembrar de dar-lhe o coração que lhe faltava. É que não preciso mais de coração, pois que tudo em mim faz tempo que é puro sentimento...


quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Ares e Mares


Perigoso demais é mergulhar em mar de rosas. Mais ainda se forem vermelhas. Pois que as rosas murcham, as pétalas soltam-se e são levadas até a praia pelas ondas. Em busca delas – as pétalas na praia – é comum quase sempre ferir-se nos espinhos que sobram em alto mar. Feridas suportadas alegremente pela tola ilusão de que haverá a recompensa do perfume róseo. Quando se atinge a praia, contudo, provável é que as pétalas já tenham se degenerado em podridão. E é somente então que as lágrimas têm permissão de se juntar às ondas.

É por isso que prefiro mergulhar nos ares com asas de borboleta. Pois que elas me permitem beijar as rosas vermelhas e flutuar entre os espinhos, como borboleta que dança no vento, bailarina dos ares. Borboleta é capaz de alegrar humanos e hipnotizar leões, viajar em nuvens e transgredir os limites das dimensões todas que ninguém ainda conheceu. Borboleta é capaz de transformar mundos, criar universos e inventar fantasias – livre como somente o amor legítimo é capaz de ser.


quarta-feira, 21 de outubro de 2009

E Se Eu Dissesse...


O que você faria se eu dissesse que te amo?

... se eu dissesse que é você o amor-perfeito que preenche jardins em vida minha e o tempo mais-que-perfeito que enfeita cada um dos meus dias?

... se eu sussurrasse em ouvido seu que é você o príncipe dos sonhos meus e a poesia dos contos todos que conto?

... se eu falasse do seu toque em arrepio quente e do calor dos seus suspiros?

... se eu declarasse que vivo com saudade do seu corpo e morro de vontade de você?

... se eu reivindicasse sua presença inteira como condição primária para minha existência?

... se eu cantasse em serenata que sua voz em meus ouvidos é melodia erudita com ritmo folclórico em desarmonias modernas?

... se eu gritasse ao mundo que seu sorriso é como a luz que continua existindo mesmo depois que a estrela morre?

... se eu escrevesse com todas as letras que seus olhos transformam meus pontos finais em reticências e me obrigam a criar asteriscos que justifiquem os parênteses todos que você provoca em mim?

... se eu dissesse, enfim, que você é o passado que não pode ser esquecido e o futuro que nem pode ser evitado – portanto, o presente mais espetaculoso que poderia ter sido inventado?

E agora... O que você faria se eu dissesse que te amo?!


quarta-feira, 14 de outubro de 2009

A Menina do Deserto


Aquele deserto tinha tanta sede que há muito não havia animal vivo que não houvesse fugido dali. Aquele deserto tinha tanta sede – mas tanta e tanta sede – que nem os cactos conseguiam sobreviver ali.

Os poucos homens que se aventuraram em tentativas de atravessá-lo viram – estupefactos – suas provisões de água secarem em tempo recorde – pois que o líquido nem tinha tempo de evaporar, simplesmente secava de uma só vez. E os homens que insistiam na travessia sentiam na pele as gotas de suor sendo como que sugadas – arrancadas, extirpadas, amputadas – por um vento cheio de estranheza – um vento sedento.

Pobres dromedários, que percebiam-se desidratados logo nos primeiros passos dentro do deserto. Rebelavam-se contra os homens, davam meia volta resistindo aos açoites deles, pois que sabiam-se capazes de cicatrizar feridas, mas impossível seria resistir à tamanha sequidão daquele deserto.

Oásis não havia por aquelas terras arenosas e áridas. Mesmo águas imaginárias eram sugadas pelo deserto.

Foi por isso que a menina andou em vários mundos até encontrar aquele lugar maravilhoso. Desde a primeira vez que ouvir falar dele foi que ela decidiu-se a procurá-lo. E durou muito tempo sua busca, mas a menina agora sabia que haveria-se em recompensa por toda a sua jornada.

Caminhou pelo deserto decidida a ir em frente, sair do outro lado, sem jamais voltar e nem mesmo olhar para trás. E, enquanto andava, sentia secarem as lágrimas todas que lhe brotavam dos olhos e também as outras todas que existiam dentro de si. A menina caminhava com a esperança de que aquele deserto fosse capaz de secar a sua sede.


quarta-feira, 7 de outubro de 2009

O Leão e a Borboleta


Era o leão, não sem motivos, o rei da floresta. A simples existência dele era suficiente para manter a ordem e a segurança do lugar, pois que todos sabiam-se protegidos pela ferocidade sábia daquele bicho imponente, cheio de garras e presas para afugentar os inimigos, mas também cheio de jubas e ronronamentos para consolar os que carecessem de afeto ou amizade.

O leão era o bicho mais importante da floresta. E todo mundo sabia disso.

Todo o mundo sabia disso, exceto o próprio leão. Pois que ele era cego e surdo – incapaz de enxergar sua própria força, determinação e coragem, e incapaz também de saber da admiração e do respeito que lhe devotavam seus súditos.

O leão agia – unicamente – por instinto. E era bastante apurado o seu instinto – pois que somente contava com os sentidos mais genuínos que existem nas criaturas todas, os sentidos que, de fato, sentem: olfato, paladar, tato e intuição.

E era o leão tão bom em ser assim que nunca permitira que qualquer mal acontecesse ao seu reino ou aos seus súditos. E era tão bom em ser assim que ninguém jamais havia desconfiado da sua deficiência de visões e escutamentos. E o próprio leão não sabia que não sabia usar os olhos e ouvidos que tinha, pois seu instinto o ensinara a ver e ouvir de maneiras distintas do que costumava ser o convencional.

O leão agia baseado apenas no que sentia. Sentia cheiros, sentia gostos, sentia toques, temperaturas e vibrações, sentia a energia do que o cercava, do que aproximava-se ou recuava. E seus sentidos o guiavam como se nem houvesse outra forma de as coisas acontecerem, como se fossem reações automáticas e exatas – absolutas.

Houve o dia, porém, em que as coisas mudaram. O dia do primeiro encontro. Nesse dia, o leão caminhava distraído por terras que nem sabia serem suas quando sentiu uma dor grande de queimadura grave num ponto entre uma das patas dianteiras e o coração. Bateu com a pata no ponto da dor para se livrar do incômodo, que julgava ser o ataque de um bicho peçonhento qualquer. A dor, porém, aumentava e tomava conta de outras partes do corpo. Sentia como se chamas se alastrassem por sua pele, do lado de fora e do lado de dentro. A língua inchava, sufocando-o. Perdia o equilíbrio numa tontura inédita em sua vida, como se o mundo inteiro girasse abaixo dos pés que eram os seus. Até que desabou num solo que parecia muito macio e sentiu-se leve tal qual a alma que de repente liberta-se de um corpo velho e decrépito.

Viu-se em mundos coloridos e cheios de movimentos, com bichos que nunca existiram, paisagens que ninguém havia criado, construções de surrealismo e sons absurdamente inconcebíveis. Eram tantas as cores e danças e formas e ruídos que ele chegou a pensar que ficava doido ou talvez houvesse morrido.

Quando – sabe-se lá quanto tempo depois – enfim pôde recobrar os sentidos, o leão deparou-se com uma lagarta muito exótica que velava seu desmaio. Cheia de cores nos pelos venenosos, a lagarta estivera estática diante daquele corpo tão grande e forte do leão que derrubara com simples e leve toque. Extasiada perante visão tão imponente e bela daquele bicho, a lagarta sentia vontade grande de acariciar o pelo macio e a juba dourada que eram dele, mas sabia que o veneno que era dela era bem capaz de destituir para sempre o leão do posto real que ocupava no mundo ilusório da matéria. Assim, preferiu tão somente manter-se em observação daquela criatura nobre e exuberante que ele era.

E, ao ver que levantava-se o leão, a lagarta fez muitas reverências e destrambelhou-se a pedir desculpas, escusas e perdões. Queria certificar-se da saúde do rei da floresta e desculpar-se mil vezes pelo terrível acidente que causara sem nem ter a intenção. Estava quieta em meio às folhas de um arbusto qualquer, alimentando-se delas, quando viu-se em meio aos pelos da sua majestade. Não o vira aproximando-se e, ao que parecia, ele também não a vira a tempo de desviar-se do veneno dela.

O leão não distinguia direito o que aquele bicho maravilhoso de multicores dizia, pois que era a primeira vez em sua vida consciente que ouvia som qualquer que fosse. E tão atarantadamente encantado estava com a primeira visão consciente de sua vida – a imagem tão colorida daquela criatura à sua frente – que sentia-se hipnotizar com os movimentos de onda que ela fazia e suas anteninhas pequeninas que balançavam ao vento. O leão nem percebia que mantinha-se com o corpo imóvel e os olhos vidrados diante da lagarta, babando quase sobre ela, mudo às escusas e perguntas tão preocupadas que ela dizia.

E quando enfim a lagarta cansou-se de falar – e o silêncio pôde enfim ocupar o lugar que era seu de direito –, ela pôde enfim também admirar a beleza do leão, a suavidade do seu pelo e a graciosidade da sua força. E ficaram longo tempo assim, parados e mudos, presos um ao outro sem que houvesse laços entre eles, presas um do outro sem que houvesse gula que justificasse tamanho apetite.

Até que olhos deles encontraram-se num choque alucinado de filme romântico. E o tempo – simplesmente – parou – por tempo indeterminado. E ambos souberam que ali – naqueles olhos deles dois – o destino traçava seu desenho.

O rei da floresta, então, pôde enfim balbuciar palavras que eram as primeiras de toda a sua vida, uma ordem peremptória e irrevogável: “Seja a rainha do meu reino, ó criatura multicor”. E a lagarta, tomada de grande susto, sentiu que era hora exata de fugir. Como poderia ser rainha se era dona de um veneno que poderia ter matado o rei?! Não concebia a possibilidade de fazer mal qualquer que fosse àquele bicho tão lindo e importante para o mundo – já também tão importante para ela?!

Mais que depressa, a lagarta embrenhou-se em meio às folhas do arbusto. E, mais que depressa, o leão tentou embrenhar-se também à caça dela. E ela fugia e o leão a procurava. E ela sumiu e o leão tentava encontrá-la. E em pouco tempo todos os bichos da floresta sabiam da perseguição esdrúxula do rei a uma certa lagarta colorida e perigosa que o derrubara com seu veneno. Uns diziam que ele queria exterminá-la por tê-lo atacado. Outros diziam que ele queria agradecê-la por ter-lhe devolvido alguns sentidos que ele antes nem possuía. Outros diziam que era simplesmente o vício do veneno.

E, a cada comentário que ouvia, a lagarta mais para longe fugia. E o leão mais duramente a perseguia. Ele ainda não sabia que amor não se caça, pois que tão somente aparece em nós – invisíveis dentro dos seres.

E, quando o leão não tinha mais pistas para achar a lagarta, seu reino já havia tornado-se uma amostra simples do que poderia ser o caos. Distraído pelas cores e sons que agora era capaz de distinguir, perdera quase completamente a astúcia do instinto. Quando via bicho qualquer aproximando-se de seus domínios, não sabia mais se era súdito que devesse ser governado ou inimigo que devesse ser combatido. Se era súdito, não sabia se era para ser ajudado ou punido; se era inimigo, não sabia se era para ser atacado ou afugentado. Cego e surdo, o leão sabia sentir e – de imediato – agir, como se algo mais sábio e forte o guiasse. Agora que via e ouvia tudo, o leão havia-se atacado pela dúvida, todos os antigos sentidos ofuscados por esses dois sentidos que nem sentem. Adquiria consciência de si, mas perdia-se no complexo universo do arbítrio – as possibilidades de escolha e suas consequentes implicações tantas vezes mal entendidas.

Como ninguém mais divulgasse notícias da lagarta, o leão caiu em si e viu-se o responsável pela desordem do seu reino. E, julgando-se irresponsável e inepto para o cargo que ocupava no mundo, fugiu para outras florestas, em busca do que ele nem ainda sabia o que fosse – talvez porque a busca fosse a de si mesmo.

Antes, porém, que soubesse disso, quis viver sozinho em parte qualquer de floresta sem dono nem rei. E quase morreu de tristeza, posto que não havia com quem conversar nem brincar nem compartilhar as largas refeições que caçava. O leão ainda não sabia que a solidão é a pior companhia para uma criatura – ainda que seja a melhor professora que uma criatura possa ter.

Quando cansou-se de ser tão só, quis reinar novamente, mas não podia voltar à sua floresta, pois que estava constrangido por tê-la bagunçado e, em seguida, abandonado. Decidiu, então, roubar o reino de outrem. E quase morreu de cólera, posto que os súditos não o veneravam como autoridade real, os vassalos eram-lhe insubordinados, os outros reis o ignoravam e todos viviam tentando contra sua vida, ávidos por ter seu verdadeiro rei de volta. O leão ainda não sabia que reinos não podem ser roubados, pois que sempre hão de pertencer a quem de legítimo direito.

Então, já que não mais queria ser só e nem mais podia ser rei, tentou viver como súdito. E quase morreu de tédio, posto que todas as tarefas que julgava desafiadoras eram realizadas pelo rei – e nenhuma das tarefas que eram-lhe delegadas exigia que usasse as habilidades que tinha. Sentia-se em desperdício de talentos, inútil em atividades incompatíveis com a imponência que era a sua. O leão ainda não sabia que qualquer reino é pequeno demais para ser reinado por duas realezas.

Sem mais ter aonde ir nem onde ficar, foi que resolveu enclausurar-se em esconderijo qualquer que lhe fosse abrigo pelo resto dos dias. Estava decidido a simplesmente ficar ali, deitado e inerte, até que a morte o viesse buscar para viagens em outros mundos. E quase morreu foi de saudade do passado que antes vivia: seu reino, seus amigos, seus súditos e aquela criatura multicor que miraculosamente fizera seus olhos e ouvidos funcionarem. Ele ainda não sabia que é muito difícil para um leão fugir de sua tendência a ser rei.

E enfim o leão entendeu que estava pronto para voltar ao seu reino. Urgia que remediasse o que fosse possível, antes que perdesse o único mundo que de fato sempre havia sido seu. Então ele voltou à sua floresta e todos os bichos o esperavam ansiosos pela ordem e segurança de seu governo, pois que todos sentiam-se acolhidos e protegidos sob a guarda da sua majestade. No início, o leão teve alguma dificuldade para cuidar das coisas, mas aos poucos recuperou o antigo jeito sábio de reinar – agora ainda mais competente por dispor de olhos e ouvidos que enxergavam e escutavam o mundo sob perspectivas distintas do que costumava ser o convencional.

É que ele precisou de tempo – quanto tempo (?!) – para aprender a ver e ouvir de modo apurado e recuperar os antigos sentidos e o instinto e usar todos eles juntos para reinar.

Enquanto tudo isso acontecia em vida do leão, a lagarta escurecia suas cores num casulo que ela mesma construía. Sem saber o que haveria lá dentro – e sem nem mesmo saber se dali sairia um dia – ela costurava-se em seda e preparava-se para enfrentar a si mesma. Sentia transformar-se o corpo, irreconhecia-se naquele aperto que a envolvia, perdia o veneno que sempre a havia protegido e em troca ganhava asas para fugir caso fosse preciso – e para viajar, brincar e dançar sempre que assim desejasse.

E quando enfim ela saiu do casulo, já nem mais se reconhecia com aquelas asas multicores num corpo esguio e leve, a boca devastadora de outrora substituída por uma linguazinha delicada, aquela fome descontrolada de folhas desaparecida diante de um desejo incontrolável de líquidos doces. Somente suas cores eram as mesmas, antes em pelos, agora em asas.

E ela também precisou de tempo – quanto tempo (?!) – para aprender a voar.

E houve o dia em que o leão caminhava pela floresta, dentro dos limites que sabia serem todos seus, quando sentiu algo que debatia-se em sua juba. Levou a pata ao local para se livrar daquilo e sentiu o toque mais suave que jamais sentira antes. De repente, ouviu o esvoaçar de asas nos ouvidos e levou a pata ali também. Ao tocar de novo tanta suavidade, viu uma chuva de pó colorido diante dos olhos que eram os seus. Incrédulo, pois que jamais havia imaginado que voltaria a ver aquelas multicores, o leão de novo levou a pata à juba – desta vez, não para se livrar do incômodo, mas para ajudar o bicho a libertar-se.

Borboleta multicor, misteriosamente bela, estranhamente frágil, diferente de tudo o que já havia visto com seus olhos felinos, flutuava em sua frente, dançando no vento, executando uma canção hipnótica com o ruflar das asas, exalando o cheiro de flores deliciosas que só ela conhecia, fazendo-o salivar como nunca antes em vida sua.

De repente, olhos deles encontraram-se. E o leão – que era forte e corajoso, que lutava contra bichos enormes e ferozes, que enfrentava todo e qualquer tipo de perigo para defender seu reino com seus súditos dentro dele – de repente tremeu. Não de medo ou susto. Ele apenas descobria que aquela criatura pequenina e delicada era a responsável por todas as cores e sons que um dia passaram a existir em vida sua. O leão reconhecia naquele bicho com asas multicores a criatura com pelos multicores que conhecera um dia. E sabia – um pouco pelo seu próprio instinto, outro tanto pelos olhos dela – que, embora cheia de asas, aquele bicho estranho era o mesmo de antes. Somente agora estava mais leve e livre, podia flutuar pelos ares e nem havia mais necessidade de veneno para defender-se. Tão diferente ela estava... E tão ela mesma era ela...

O leão desejou imensamente ter aquela borboleta para sempre consigo. E, então, pôde enfim repetir as palavras que haviam sido as primeiras de toda a sua vida: “Seja a rainha do meu reino, ó criatura multicor”. Desta vez, nos entantos de detalhes que há em vozes e faces, não era uma ordem de rei, mas um convite de amor.

E a borboleta hesitou um instante – instantezinho de nada – pois que morria de medo de ficar presa numa redoma de vidro – bem cuidada e paparicada, mas transformada em bicho de estimação que nem tem mais a liberdade que lhe é de direito. Ela, que tinha asas, precisava voar para escolher a melhor fonte de água, as melhores flores de alimento, as paisagens mais belas de enfeite para a vida que era a dela. Ela, que tinha asas, precisava voar ao lado daquele leão.

E o leão desejava imensamente ter aquela borboleta para sempre consigo. Jamais, contudo, ele pensaria em capturá-la e aprisioná-la. Tudo o que ele queria era que ela esvoaçasse suas cores perto dele – o dia todo, todos os dias – e, vez ou outra, pousasse docemente em sua juba. Da forma exata como ela pretendia fazer...


quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Lenda


Quando perguntam-me o que houve de errado, nem sei direito como responder. É algo que entendo com plenitude; sinto-me, contudo, incapaz de descrever ou explicar.

Era apenas uma borboleta, uma simples borboleta colorida em tons de roxo. Voava baixo perto de mim, procurando talvez o perfume suculento de flores quaisquer.

Meus olhos a viram e não mais conseguiram desviar-se daquela dança cheia de asas lilásicas. Eu ainda não sabia, mas estava hipnotizado.

Nem percebi que ela se aproximava. De repente, pousou em meu nariz e eu – que estivera, até então, estupidamente hipnotizado – vi-me irremediavelmente paralisado. Apenas sentia as patinhas dela caminhando pelo meu rosto, às vezes um suave bater de asas que a levava a outra parte de mim... Depois de novo as patinhas e de novo as asas.

Ela explorava rosto, pescoço, braços e costas... Batia asas em cílios e fazia cócegas com elas em orelhas... Enroscava-se em pelos de peito e pernas e eu já nem sabia mais se suportaria tortura tão doce como a que ela me fazia.

Aquela borboleta estúrdia desbravava meu corpo como um bandeirante ávido por riquezas de Eldorado. Eu já nem sabia mais se suportaria a falta daquela doçura tão torta que ela me fazia. E eu me perguntava, o tempo todo, que borboleta é essa que tem garras?

Então, quando perguntam-me que foi que houve de errado, como afinal eu me perdera naqueles prados, que poderia eu responder?!

Pois que nada houve de errado. Apenas estive preso nas garras invisíveis de uma certa borboleta – depois de ter me perdido para sempre em olhos dela.


quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Resposta ao Sr. Anônimo


Perguntaram a Sessyllya quem era ela. Sessyllya disse que era Hellah.

Então perguntaram a Sessyllya quem era Hellah. Sessyllya disse que era ela.

Então perguntaram a Hellah quem era ela. Hellah disse que era Sessyllya.

Então perguntaram a Hellah quem era Sessyllya. Hellah disse que era ela.

Então perguntaram a ela quem era ela. Ela disse que nem era Sessyllya e nem era Hellah – embora ambas fizessem parte de si e ela pudesse, quando quisesse, ser qualquer uma delas.

Então perguntaram a ela – de novo – quem era ela, já que a resposta anterior explicava apenas o que ela não era e o que ela podia ser. Ela disse que era simplesmente Cecilia e que, na verdade, nunca soube de fato – e nem sabia mais – e talvez jamais saberia – quem ela era.

Ela somente sabia das cicatrizes que trazia na alma – cuja causa era uma mania muito sua de sofrer para dentro em vez de gritar ao mundo as dores todas que sentia.

Ela também sabia de sua tendência a ser amiga de um vazio cheio de solidões e amante de uma solidão vazia de sentidos quaisquer que fossem justificáveis. Não que ela quisesse algum contato com a solidão. Era a solidão que queria a força e a sabedoria que ninguém mais saberia arrancar dela.

Essa - assim?! - era ela.

E era com ela que uma criatura desconhecida compartilhava o segredo inacreditável de um amor maluco que só poderia ser guardado por ela.

E era por ela que essa criatura desconhecida sentia o amor mais maluco que só podia se concretizar nela.

E era nela que havia um amor maluco que ela mesma desconhecia que era dela.

E era dela esse amor maluco de uma criatura desconhecida que só existia nela.


quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Nefelibatas


Onde estávamos antes de nos encontrarmos? Perdidos? Existíamos antes de nos conhecermos? Precários... O que éramos antes de estarmos juntos? Incompletos!

Andamos por aí, viajando por caminhos tortos. Navegamos mares hostis e nos perdemos em labirintos que nem sabíamos que eram. Enfrentamos monstros de espécies as mais estúrdias, tentamos voar sem ter asas e caímos em abismos cada vez mais profundos. Exaustos...

Um dia, nos olhamos bem dentro dos olhos e nos perdemos um no outro, pois que acabávamos de nos encontrar a nós mesmos. Inventamos um sentimento sem nome, sem razão, descrição ou explicação, sem medos ou pudores, sem medidas nem limites – sem fim.

Desde então, andamos sobre pétalas perfumosas de flores em cor de rosas, viajamos por mundos que nós mesmos criamos, mergulhamos em tempestades que se perdem nos gritos da nossa alegria, voamos juntos em asas de borboleta e afugentamos monstros com nossos rugidos de leão, nos jogamos de precipícios e caímos em nuvens coloridas que só existem para provar que a única realidade plausível é aquela dos sonhos que habitam em nós.


quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Monstro Avesso


Desde o dia em que pela primeira vez o olhou nos olhos, ela tentou fugir. Em vão, pois que esses olhos sempre a perseguiram, aterrorizaram e amedrontaram, aonde quer que ela fosse, onde quer que estivesse... Mesmo em seus sonhos – ou talvez especialmente neles.

Ela não sabia que seus olhos também o assombravam.

É que havia um monstro naqueles olhos. Nos olhos que eram os dele e nos olhos que eram os dela. Metade de monstro em cada um – nele e nela. Metades ferozes, desesperadas por se reencontrarem, mais ainda depois que se viram e reconheceram-se em metades.

Ele queria favorecer o encontro, ansiava por enfrentar o monstro que os habitava. Ela temia – e fugia. Sabe-se lá o que poderia acontecer se aquelas metades de monstro se unissem em um só. Ela temia sentir o que pressentia nunca saber explicar, que nem tinha nome nem tamanho nem limites nem fim. Ela negava – e fugia.

E tal foi seu esforço – vão – em tanto fugir daquele monstro – que era parte dela – que, quando precisou de forças para enfrentar outros perigos que a vida ofertava, nem tinha mais. E, quando os olhos dele enfim a encararam de novo, ela nem foi capaz de fugir nem muito menos de resistir.

Foi assim que os olhos deles brilharam nas mesmas cores e as metades do monstro dentro deles puderam se libertar, prendendo-os para sempre nos laços infinitos do que ainda não foi inventado – posto que sempre existiu dentro deles.


quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Presente


Houve um tempo em que eu cultivava o passado de um jeito mórbido. Olhava para ele e via somente arrependimento e culpa. O passado me era dor e tão somente. Eu vivia o vão desejo de voltar no tempo para consertar as coisas, enquanto meus dias de presente passavam vazios por mim.

Houve também o tempo em que eu renegava meu passado de um jeito infantil. Olhava para ele e fingia que nem sentia coisa alguma que fosse. O passado me era vergonha e tão somente. Eu vivia o vão desejo de apagar o pedaço de tempo passado que me atormentava, enquanto meu tempo presente passava apagado por mim.

E houve, enfim, o tempo em que renunciei ao meu passado de um jeito resignado. Olhava para ele e via somente o que havia sido e jamais seria de novo. O passado me era o presente de outrora que eu não quisera desembrulhar para ver o que tinha dentro. Presente que eu havia recusado e sobre o qual, portanto, não me havia mais em direitos. Eu vivia sem desejos, via o presente como tempo inadiável e irremediável, que precisava ser vivido, custasse o que custasse.

E então, de repente, sem aviso nem espera, o tempo me deu de presente um deja vu às avessas. Pois que o passado vinha à tona – mas de um jeito diferente. O presente que eu não havia querido antes de repente estava posto aos meus olhos. Algo, entretanto, havia mudado – não sei se a embalagem, o próprio presente ou eu mesma. Talvez um pouco de cada.

O que sei é que nem mais sei medir o tempo, se é que tempo tem medida quando é o amor quem calcula as coisas.

E eis que – no fim – tenho de volta o homem da minha vida, de todas as minhas vidas, passadas e futuras... meu presente em todas elas. Único. Sempre!!!


quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Ssshhh...


Não fale!

Preciso do silêncio para esquecer os gritos que ecoam dentro de mim. Estão presos - há tanto tanto tanto tempo que você nem seria capaz de acreditar...

Já tentei eu mesma gritar - para ver se eles se aproveitam de minha boca aberta e fogem para bem longe... Há, contudo, obstáculos ignotos que os impedem.

No silêncio eles se calam... Ou talvez eu me concentre o suficiente para não ouvi-los.

E que bom se eu pudesse desligar todos os sons do mundo... para sempre...


quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Desejo


Queria chamar de estrelas os seus olhos – cujo brilho me ilumina o caminho e me salva das trevas.

Queria embalar meu sono com sua voz – a mais doce canção que meus ouvidos já conheceram, que me acalma, me alegra e me faz dançar em meus sonhos mais belos.

Queria revelar que seus braços são meu refúgio – entre eles me sinto completa e feliz.

Queria gritar para o mundo que você é diferente de tudo que já encontrei – e exatamente do jeito que eu sempre quis.

Queria deixar claro que meu lugar é do seu lado – e que esse veredicto nunca mais pode ser mudado.

Queria confessar que adoro você, seu corpo, seu cheiro, seu jeito – e zilhões de outras coisas assim.

Acontece que tudo isso você já sabe. E todas as minhas palavras são repetidas, óbvias e vulgares demais para histórias de borboletas com meninas dentro dos olhos – ou vice-versa de avesso.

Ainda queria dizer que tudo o que eu quero é que você sempre me queira do jeito e tanto como eu quero você...

Mas o que eu queria mesmo é que você me desse um beijo, para eu poder morrer de alegria... Nem que fosse literalmente.


quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Delírio Onírico


— Parem de me torturar com os gritos desse despertador sanguinário!!!

Posso ver daqui que ele dá gargalhadas, em êxtase, por destruir todos e cada um dos meus sonhos.

— Façam alguma coisa!

Faço qualquer coisa para que ele se cale e me deixe ao menos sonhar.

— Onde está minha liberdade? Meu direito de escolher o caminho?

Talvez tenham trancado as portas e perdido as chaves. Já é tarde agora, não é possível encontrar... Definitivamente, impossível me encontrar.

Quero acreditar no perfume das flores, na beleza das cores e das borboletas brincando, no canto dos pássaros refletindo a alegria que não sei onde está.

Quero ser dominada por um sentimento incontrolável que me leve por onde for: quero ser forte para segui-lo - não o bastante para fugir.

Quero sentir dor!!! Uma dor tão intensa que me ajude a viver e tão cega e profunda que não me deixe morrer.

— Não, eu não posso acordar.

Preciso dos meus sonhos para suportar a estação que chega. Preciso do beijo, de todos os beijos que o alarme impertinente insiste em arrancar de mim.

Preciso mergulhar na ilusão do mundo que inventei para sobreviver na insanidade do mundo que escolhi...(?!)


quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Um Segredo


Meu passado é tudo aquilo que não me pertence mais. Infantilidade besta renegá-lo, pois que já esteve em minhas mãos. Inutilidade extrema apegar-me a ele, por que já me escorreu pelos dedos.

Meu futuro é tudo aquilo que não me pertence ainda. Ingenuidade perigosa achar que está em mãos alheias, que escrevem o que bem entendem do jeito que melhor lhes apetece. Irresponsabilidade insana esperar que me caia nas mãos como um presente mágico e maravilhoso, com as soluções todas boas e felizes de conto de fadas.

Tão somente o presente - esse sim - me pertence. Meu carrasco e também meu salvador. O que recebo do Universo agora é o que ofereci no passado (ainda que seja um passado tão remoto que eu nem me lembre mais dele). O que ofereço ao Universo agora é o que receberei no futuro (ainda que seja um futuro tão remoto que eu nem me lembrarei mais do presente que o construiu).

Colho o que plantei. Planto o que colherei. Efeito Bumerangue. Efeito Eco. Efeito Espelho. O Segredo. Não importa o nome, posto que é: Fato! E tenho dito!!! (...)

(Isso exposto e não me canso de indagar-me a mim mesma: por que cargas de chuva insisto em querer mudar o passado em vez de fazer agora-imediatamente-já o que é preciso para construir o futuro que desejo?! Por que querer viajar no tempo quando talvez uma palavra, um pedido ou um simples sorriso poderia resolver tudo?!)


quarta-feira, 29 de julho de 2009

Mudo


Há tempos falo a língua do silêncio, pois que frágeis e falhas tornaram-se as palavras para expressar o que me vem de dentro. Meu silêncio é a voz do meu coração. Mudo.

Mudo o tempo todo, meu coração bate no silêncio de ritmos absconsos e incompreensíveis, avesso a tudo o que existe no mundo, fiel apenas aos sentimentos todos que tão estranhamente brotam em si.


Mudo todo o tempo, meu coração transforma cada segundo numa vida inteira de aprendizado, cria mundos onde há somente o ser o que se é, o que as coisas são, sem máscaras nem dissimulações de quaisquer tipos.

Dentro do meu coração silencioso há somente a minha verdade. Verdade que jamais pude esconder de mim mesma, embora precise preservá-la do mundo, sob o risco grande dela nem ser capaz de sobreviver muito tempo fora de mim.

Disseram-me, entretantos, que meu silêncio é a voz muda do meu coração. Disseram-me que corações mudos nada têm a dizer. Respondo que, de fato, assim é. Pois que coração não tem mesmo que dizer o que quer que seja. Coração foi feito tão somente para sentir.


quarta-feira, 22 de julho de 2009

Sobre Anjos e Fadas


Diferença entre fada e anjo está na asa. Fada tem asa de borboleta. Anjo tem asa de ave. Fada esvoaçada enche de pólen os arredores de si. Anjo desnorteado faz chuva de penas. Fada flutua livre nos ares e ama a Natureza. Anjo carrega-se em voo pesado e ama o Bem. As fadas caem dos contos. Os anjos caem do céu.

Voz de anjo harmoniza. Fada, quando canta, enfeitiça.

Se eu fosse fada, ia querer conhecer um anjo que me acompanhasse em passeios aéreos que eu faria especiais para ele. Se eu fosse anjo, ia querer conhecer uma fada que viajasse comigo entre ventos e nuvens que eu escolheria especiais para ela.

Se eu fosse anjo, encantaria uma fada com meu canto. Se eu fosse fada, minha voz seria isca para atrair um anjo.

Não sou fada, tampouco anjo, porém. Talvez por isso eu prefira voar sozinha entre cores e sonhos que somente eu conheço – especiais que são os mundos que apenas existem em mim...


quarta-feira, 15 de julho de 2009

Por Si


Ser tristonha às vezes nem havia justificativa que explicasse. Ser tristonha derivava da vontade de não me conformar com os erros que eu mesma notava tão explícitos em mim. Ser tristonha era reflexo da impossibilidade – temporária, é claro – de ser igual ao que eu queria ser.

Acontece que faltou-me sempre a paciência para esperar tempo favorável às mudanças todas que eu queria imediatamente, com absoluta e irrevogável urgência. Eu queria correr a maratona sem nunca antes disso nem ter feito uma simples caminhada, como diziam-me os antigos. Ser tristonha, então, era o eterno querer e não conseguir superar a mim mesma.

Houve o dia, porém, em que quase me vi tristonha por outrem. Nesse dia, senti que um clic de alerta e insight havia ocorrido em mente que era a minha. Não mais que de repente, compreendi coisas muitas de uma só vez. Ninguém é capaz de saber de verdade o que significa para quem quer que seja. Ninguém é capaz de entender ao certo o que é de fato importante para quem quer que seja. Ninguém é capaz de fazer quem quer que seja ser feliz, pois que a felicidade está escondida, guardada ou perdida dentro de cada um. Felicidade existe para ser compartilhada – jamais pode ser doada, ofertada ou trocada. Raciocínio idêntico: também ninguém pode causar tristeza a quem quer que seja, posto que a tristeza vem de dentro.

Desde então foi que eu soube: melhor sacrificar-se por um sonho próprio do que sofrer pelos outros. Sofrer por si mesmo é ainda parte do querer superar-se, é insatisfação primeira antes do primeiro passo da caminhada. Sofrer por si próprio é já etapa avançada da busca por si mesmo. Sofrer pelos outros é, no entanto, nada mais que o maior engodo já inventado pelos seres – peça que se prega em si mesmo em meio a ilusões de ser a mais singela e inocente vítima.


quarta-feira, 8 de julho de 2009

Silêncio


Antiga é a língua do meu povo e à beira da morte se encontra.


Eu – tão somente – ainda a conheço. Ninguém mais é capaz de compreendê-la. Inútil tentar ensiná-la a quem for.


Falar não é suficiente e gritar não resolve: incomunicável me encontro, incomunicável me sou – !!! – A não ser pela expressão do meu olhar. Mas quem é que ainda olha nos olhos?


Sou a única sobrevivente de uma nação guerreira e pulsante – reflexiva...


Assim é meu costume de gritar em silêncio de pensamentos. E sinto - intuitiva - que em tempo-espaço qualquer do Universo - alhures e algures - alguém me escuta e responde em eco. Talvez sejamos os únicos a pensar assim. Pensamentos se encontram? Pode ser que sim, embora eu prefira o encontro de bocas e braços que se falam em língua ritmada de coração...


quarta-feira, 1 de julho de 2009

Alternativa


Drummond, sábio poeta que era, disse, certa vez, que ‘tinha uma pedra no meio do caminho...’. Devia ser meio distraído, pois que não soube reconhecer o insignificante obstáculo que uma pedra representa. Não era, pois, uma simples pedra aquilo que atrapalhou minha viagem. Se tivesse tido a sorte de encontrar uma reles pedra em meu caminho, eu a chutaria para longe ou passaria por cima dela... Pode ser que eu resolvesse pegá-la com a mão e jogá-la para fora da estrada, onde não atrapalhasse outras pessoas. Talvez eu apenas me desviasse dela e seguisse tranquilamente a minha trilha.

Não, definitivamente aquilo não era uma pedra diminuta e vulgar bloqueando meu caminho. Era uma montanha (ou talvez um precipício) o que impedia minha passagem. Só havia um meio de continuar: eu deveria escalar a montanha (ou construir uma ponte que me levasse com segurança ao outro lado do abismo).

Ora, vida inteira foi que me vi criando meios de simplificar as coisas todas que me apareciam, posto que me via vítima de um certo comodismo (para não confessar que fosse preguiça) que exigia de mim evitar ao máximo qualquer dispêndio desnecessário de qualquer tipo de energia - fosse corporal, mental, espiritual ou outro. Portanto, logo que tomei consciência do dilema que se mostrava diante de meus olhos incrédulos, entrei em profunda meditação. Não fiquei procurando um método que me levasse ao outro lado e permitisse que eu prosseguisse na minha estrada; o que fiz foi refletir se todos os sacrifícios que deveriam ser empregados na transposição daqueles obstáculos valeriam a pena.

Assim, ao fim de muito tempo dedicado à busca de motivos que me convencessem de que eu deveria me esforçar para vencer a gigantesca pedra (ou o abissal despenhadeiro), cheguei a conclusão bastante óbvia: se eu tentasse escalar a montanha (ou atravessar a ponte do precipício), eu me atrasaria, me cansaria, nem sei se conseguiria, provavelmente desistiria. Não, nunca fui suficientemente corajosa e destemida para me arriscar numa empreitada dessas. Por outro lado, como já disse, sempre fui suficientemente preguiçosa e inteligente para encontrar meios mais simples e cômodos para enfrentar situações de tal natureza.

Foi assim e foi por isso que, em vez de lutar para seguir em frente minha jornada, de fazer um esforço que me levasse ao outro lado, de enfrentar e vencer o obstáculo que bloqueava meu caminho, decidi simplesmente voltar sobre meus próprios passos e tomar outro rumo.


segunda-feira, 29 de junho de 2009

Perspectivas - Parte 5


— Eu tenho direito a um telefonema, delegado. Já que decidiu me prender arbitrariamente, preciso de alguém que me ajude a provar que sou inocente.

— E posso saber a quem pretende recorrer, senhorita?

— Ainda não sei o que tenho a ver com isso, delegado. Eu não fiz nada. Sou tão vítima da Dalva quanto o Davi, a diferença é que consegui escapar daquela louca.

— Cuidado com o que dizes, senhorita, pois tuas palavras podem se voltar contra ti.

— O que o senhor quer dizer com isso, delegado?

— Não quero dizer mais do que já tenho dito.

— O senhor só está blefando! Eu não matei ninguém! Foi a Dalva!

— Bom, não é assim que as evidências se encaminham. Mas estás certa em teu direito. Guardas, levem-na ao telefone.

Dito isto, o delegado finge uma pausa reflexiva que parece exageradamente artificial. Os guardas e o escrivão estavam tensos tal qual espectadores de um filme de suspense. Nem se mexeram.

— O que vocês estão esperando, guardas?

Só assim eles encaminharam a acusada ao telefone. O delegado, ao se ver sozinho, posto que o escrivão fora dispensado, desejava imensamente estar em casa, de banho tomado e mesa posta, cochilando em frente à TV. Prendera uma suspeita, mas sentia que havia algo de muito errado com a história toda. Peças que não se encaixavam. Por exemplo: se Dália era a garota foragida dos jornais, se matara os pais e o namorado, por que se aproximara de Dalva? Por que matara Davi? Por mais que raciocinasse, não conseguia vislumbrar uma hipótese lógica. Pensou em grampear o telefonema que a garota faria, mas não conseguiria fazê-lo em tempo. Aliás, aquela história toda acontecia rápido demais. O assassinato, as descobertas, a briga entre Dália e Dalva, o depoimento de uma e de outra... Em menos de um mês - isso tudo. Não houve tempo para ligar os pontos todos, relacionar os fatos... Agora, somente o que poderia fazer era esperar, aguardar que as coisas acontecessem...

Enquanto isso, Dália Cristine Cordeiro tentava ligar pela terceira vez para um número que não atendia. A ligação caía diretamente na caixa postal. Os guardas observavam-na com um misto de pena e incredulidade. Menina tão jovem, bonita, aparência inofensiva e indefesa... Como as aparências enganam, não é mesmo?! Ninguém diria que uma garota discando desesperadamente no telefone da polícia poderia ser uma assassina, desequilibrada. Acharia antes que fosse a vítima!

Um filme confuso e estonteante rodava na cabeça da suspeita. E rodava a sua cabeça também. Parecia remoto, longínquo, infinito o tempo em que toda esta história começou. Estava internada há 3 anos no Sanatório Municipal quando Dalva chegou. Logo se aproximaram uma da outra, visto que ambas pensavam serem as únicas pessoas lúcidas ali dentro. A amizade se fortaleceu, ficou mais profunda e intensa. Segredos foram trocados. Dalva contou que fora internada pela madrasta, que o pai fora manipulado, que os interesses entre ambos excluíam sua presença em vida deles, que o namorado a amava e a tiraria dali. Dália contou que não conhecera a mãe, morta de tanto apanhar do marido. Contou que o pai nunca fora violento com ela, Dália, até descobrir que a filha era homossexual. Deu-lhe uma surra e decidiu interná-la no sanatório.

Após tais confidências, a amizade tomou outros rumos. Num dia nublado e friorento, quando os outros internos assistiam a filmes repetidos da TV, Dalva sugeriu à amiga que ficassem nos beliches, conversando. Nesse dia, amaram-se intensamente, como Dália jamais imaginara ser possível. Apaixonara-se pela amiga no momento mesmo em que a mirou pela primeira vez, mas não nutrira esperança alguma, pois sabia que Dalva tinha namorado e respeitava isso. Se Dalva tinha namorado, não quereria trocá-lo por uma namorada. Assim Dália pensava. Por isso ficara surpresa e feliz naquele dia nublado e friorento. Felizes foram todos os momentos ao lado de Dalva.

Poucos meses depois, Dália recebeu alta. Dalva a convenceu a participar de um plano. Era perigoso e esquisito, mas Dália estava perdidamente apaixonada e teria aceitado qualquer proposta. O plano, em si, era simples. Dália sairia do sanatório e se mudaria para alguma cidadezinha próxima dali, onde se estabeleceria, faria amizades e passaria a imagem de estudante dedicada e responsável. Quando Dalva mandasse o aviso, Dália voltaria para ajudá-la a fugir e ambas voltariam para a tal cidadezinha. Morariam juntas, como se fossem primas ou amigas, estudantes a dividirem uma casa. Era bom que Dália Cristine Cordeiro usasse somente o nome do meio, para que ninguém relacionasse o nome dela ao de uma interna fugitiva.

Algo deu errado, no entanto. Muitas coisas deram errado. A começar pela fúria de Dalva. Mal se viu livre, ela procurou pai e madrasta e os matou a sangue frio. Dália participou, ajudou. Mesmo assustada, não se negaria a fazer o que fosse pela garota que amava. Mas essa garota, Dalva, fez algo que doeu um pouco em Dália: procurou o namorado e não foi para terminar a relação. Dalva se justificava, dizia que precisava de tempo, que o namoro era longo e não poderia ser terminado da noite para o dia. Dizia que o namorado a perseguiria. Por isso precisava de tempo para convencê-lo. Poucos dias foram necessários para que Dália percebesse o estorvo que aquele namorado representava para sua felicidade. Não era idiota: sabia que Dalva não terminaria com ele, que estava indecisa. Resolveu ajudar na escolha: reuniu forças de algum lugar desconhecido por ela mesma e matou o garoto.

Somente aí foi que Dalva a acompanhou para a cidadezinha combinada. Dalva sabia de tudo e nada dizia: não aprovava, não recriminava. Antes, porém, de partir com a namorada, mudou os planos: não morariam juntas, para evitar as suspeitas. Dalva sabia que seu nome estava nos jornais e desconfiava de que os equívocos noticiados eram uma armadilha. Por serem amigas desde o sanatório, era bom terem o máximo de cuidado.

Dalva também achou que arrumar um namorado influente era uma forma de ganhar a confiança do povo da cidade e estar segura, ainda mais se conseguisse se mostrar carinhosa e delicada com ele e com todos. Dália seria a amiga, a melhor e única, assim poderiam continuar se encontrando sem problemas. Depois de um tempo, assim que a cidade acolhesse as duas como habitantes quaisquer, o namoro seria rompido e a amizade continuaria, sempre forte e crescendo. Tudo foi planejado assim, por engenhos de Dalva. E Dália fez tudo que era da sua parte.

Até que, novamente, Dália percebeu a dúvida em Dalva. Davi era moço distinto, era difícil não gostar dele. Por isso, Dalva não se encorajava a terminar o namoro. Assim dizia. E, ao ouvir isso por vezes seguidas, Dália decidiu facilitar de novo as escolhas. Matou Davi.

Desta vez, porém, houve problemas. O garoto era filho do prefeito, iriam investigar. Pode ser que acabassem descobrindo o passado das duas. Dalva sabia da culpa que a namorada tinha, mas não a recriminava, tentava apoiar. Teve outro plano: armariam uma cena – aquela em que Dalva cai da escada – e, quando Dália fosse chamada a prestar depoimento, contaria uma história – aquela que, de fato, contou. O delegado iria atrás de Dalva, sabendo-a culpada. Antes disso, porém, Dalva estaria bem longe: fugiria. Algum tempo depois, quando a poeira abaixasse, Dália ligaria em número combinado de telefone e reencontraria a namorada, em lugar que lhes pudesse ser seguro.

Dália executou seu papel com integridade. Não contava, porém, com o resultado diferente do que esperava. Acabara presa. E o número combinado não atendia. A ligação ia direto para a caixa postal. Entrava em desespero. E, em tempo não muito extenso, acabava retornando ao local primeiro onde se iniciara sua história toda, onde conhecera Dalva.

Jamais, em momento algum do restante de seus dias, Dália sequer imaginou que todo o acontecido depois do dia em que trocou os segredos com a amiga do sanatório era apenas a realização perfeita de todos os planos arquitetados por Dalva. Dália nunca seria capaz de pensar que havia sido apenas as partes de um plano maior, e menos ainda que agora era descartada justamente por que tais planos haviam obtido sucesso.

Não fosse a passionalidade do caso, Dália poderia ter percebido a estranheza que envolvia Dalva em todos os movimentos que esta fazia. Talvez, se não estivesse tão apaixonada, teria desconfiado de um detalhe relevante: de onde vinha o dinheiro que Dalva usava desmesuradamente? Dinheiro suficiente para manter as casas das duas, a de Dália desde algum tempo antes. Se Dália tivesse percebido isso, talvez também tivesse percebido outras coisas...

As perspectivas, porém, nem sempre se dão em esferas comuns deste mundo...


sexta-feira, 26 de junho de 2009

A Função do Casulo


Sufoco, solidão e escuridão são talvez as melhores companhias para ser qualquer que seja. Capazes de transformar, posto que obrigam o contato consigo mesmo – a parte de dentro que tenta-se esconder a todo custo, até mesmo de si mesmo.

Em solidão e escuridão, sufocada, a lagarta asquerosa se metamorfoseia em linda borboleta. Corajosa a lagarta, que, reconhecendo-se repugnante, arrisca-se em aventura tão perigosa – dolorosa? – de estar, de uma vez por todas, somente consigo. Como recompensa de si mesma, é pelo contraste do sufoco e da escuridão que descobre-se cheia de asas e cores – parte de si que sempre esteve escondida, apenas à espera de um casulo repleno de sufoco, solidão e escuridão que pudesse libertar.


quarta-feira, 24 de junho de 2009

Desnorteios


O mundo sofria de seus revertérios, enquanto Hellah expulsava de dentro de si todos os desnorteios que desconhecia serem dela. Os desejos.


Ela era duas, mas só uma poderia ser. As duas eram opostas, contrários difíceis de se alcançarem. Brigavam muito e se machucavam cada vez mais, embora a vida pela qual brigassem passasse incólume, indiferente e irremediável do outro lado delas. A elas não havia condições possíveis de perceber a passagem do tempo, ocupadas que estavam em se vencer.

Havia “ele” também. É claro que havia um “ele”. O papel dele era participar temporariamente da vida dela. Não muito, não pouco. Apenas o suficiente para que Hellah acordasse de volta. Uma delas. A mais forte. A melhor. Assim ele pensava. Assim Hellah pensou também. Pensavam que havia uma mais forte e melhor.

Ele existia somente dizendo “sim”. Hellah só podia ser se dissesse “não”. Eram opostos também, mas não brigavam. Completavam-se. Poderia haver brigas se também houvesse amor. Não era o caso. O que havia era uma exuberância de felicidade nela, exageros de ânimo nele... E mais a vontade imediata de ambos por algo que fosse só deles, sós. O mudo era um espaço de muitos sóis, onde o tempo desaparecia. Fora da realidade estavam. Fora do mundo comum. Queriam completar-se, queriam se completar.

Aos poucos, desapareciam em si, de si. Deixavam de ser e passavam a estar. As máscaras. Estavam juntos. Estavam sós. Jogos, apostas. Tudo era permitido, desde que fosse dissimulado.

Sentimentos? Nenhuns, embora todos a um só tempo. Tantos que sufocavam, apertavam... E a intensidade dos cheiros, dos sons e dos mundos causava desespero, angústia, pois que havia os desencontros... Mundos opostos ansiosos pela mistura doce e quente, perigosa. Mundos opostos que queriam se encontrar. Era preciso que. Precisavam-se.

Não se serviam, porém. Hellah não devia. Ele não servia. E o mundo se transformava numa fratura. Rompida a ligação cósmica.

Só assim Hellah percebia que era duas, que eram desconjuntadas as duas. Foi preciso o desejo, a impossibilidade e a perda para que se encontrasse em si. Despertava e as duas se estilhaçavam, passavam a ser muitas, incontáveis, inacreditáveis, impossíveis... Estavam todas lá e nenhuma estava lá. Todas brigando, todas se amando. Cacos de espelho espalhados pelo chão, espelhados pelo lado de dentro.

Jamais o mundo seria o mesmo. Jamais seria a mesma. Jamais reencontraria os apoios seguros – que às vezes eram substituídos ou transformados, mas nunca deixavam de estar lá. Agora, não haveria mais alicerces. O mundo perdia suas esferas. Hellah perdia suas esquinas. Ganhava a si.

Hellah fora duas, fora muitas e conseguia ser uma, enfim. Na verdade, várias em uma, equilibrada em si. Agora, não havia mais brigas. Hellah era uma só. Uma e só. Ficava só, mas era una, única. Única, embora só. Era Hellah. Era dela. E poderia ser quantas quisesse.


segunda-feira, 22 de junho de 2009

Perspectivas - Parte 4


— Sabes, senhorita, também fiquei meio surpreso ao descobrir que teu primeiro nome é Dália. Por que omitir nome tão belo? Dália Cristine Cordeiro... As iniciais da foragida são D.C., portanto, batem com as suas, embora batam com as de Dalva também, como tu mesma disseste.

— Como é que o senhor descobriu isso?

— Ah, foi muito fácil. Na verdade, não tive o menor esforço. Foi a própria Dalva quem me contou, quando a interroguei no hospital. Perguntei a ela se conhecia a história dos recortes de jornal e ela disse que sim, pois Davi havia mostrado a ela. Perguntei o nome dela, que não hesitou em responder: Dalva Correia. Chamei atenção para a coincidência das iniciais e foi então que ela revelou o teu primeiro nome. Até àquele momento, eu pensava que ela era mesmo a foragida. Mas depois disso, concluí que, se tu nada tivesses a esconder, não omitiria teu primeiro nome.

— Delegado, o senhor está equivocado! A Dalva está tramando tudo isso! É ela a culpada!

— Bom, por enquanto, há mais suspeitas sobre ti e...

— Cadê o diário??? Onde está o diário dela, o senhor o achou??? Está tudo lá, toda a verdade está lá, delegado!!!

— Por acaso o diário ao qual te referes é este?

A garota ficou muda. Inacreditavelmente, era. Ao menos a capa era a mesma. O delegado entregou-lhe o caderno, mas logo o recebia de volta pelas mãos raivosas da acusada.

— É esse o diário, senhorita?

— É claro que não, delegado! Dalva certamente arrancou as páginas que a condenavam! Ou escreveu outro diário, sei lá!

— Parece-me que não observaste os escritos com a devida atenção, senhorita. Repara melhor – disse o delegado, passando-lhe novamente o caderno.

A garota, então, abriu o diário e, à medida que lia, sua pele adquiria um tom pálido e suas mãos se tornavam trêmulas. Não chegou à terceira página:

— Delegado, isso é um absurdo sem tamanho! É ridículo! Foi Dalva quem escreveu tudo isso, inventou tudo pra me incriminar! Ela reescreveu o diário como se fosse eu, pois sabia que eu o mencionaria! Delegado, por favor!!!

— E como a senhorita explica a letra desse diário ser a tua?

Diante de tal pergunta, a acusada não tinha mais argumentos. Como explicar que Dalva tivesse conseguido copiar sua letra? Dália Cristine Cordeiro acabava de perceber que estava encrencada. Muito encrencada. Não sabia o que fazer. Não sabia mesmo, por isso precisava pensar. Estava, porém, cansada de mais para pensar. Queria dormir, descansar... Talvez morrer...

Os guardas e o escrivão aguardavam ansiosos o desfecho da situação. O silêncio doía o ouvido de todos. As respirações estavam quase suspensas. Até que, enfim, ouviu-se:

— Delegado, se não estou enganada, tenho direito a um telefonema, não é mesmo?


sexta-feira, 19 de junho de 2009

Desafio


Decidida, a borboleta preparava-se para o novo desafio. Camuflada há dias num tronco de árvore específica, sabia-se segura dos predadores que rondavam o lugar, mas precisava com urgência de seguir sua vida e não mais convinha permanecer imóvel ali.

Era necessário ação qualquer que modificasse sua condição – ou morreria segura e inútil naquele tronco de árvore. Não queria ser inútil. Havia flores esperando para serem polinizadas, muitos jardins desejosos de sua visita, inúmeras crianças ansiando por ver suas cores flutuando nos ares.

A borboleta reunia-se em coragem, toda aquela que sabia ter e mais alguma que não conseguia adivinhar de onde vinha. Estava certa de que, uma vez que se mexesse, não haveria meios de estar novamente segura até que alcançasse o outro lado da floresta. Os predadores a veriam e atacariam – doidos de famintos. Ela teria poucas chances de sobreviver, mas precisava tentar. Antes morrer lutando que perecer inútil.

Assim, a borboleta levantou voo – tão ágil e rápida quanto sua condição de borboleta lhe permitia. Sentiu bicadas de pássaros nas asas, garras que lhe rasgavam as escamas, espinhos que lhe feriam o corpo... Prosseguiu, porém, escapando de tudo, surpresa por ainda estar no ar.

Ao atravessar a zona de perigo, pousou em lugar qualquer para avaliar as perdas. Viu-se com parte das asas esfrangalhada, um ferimento doído no corpo e pequeno trauma numa das antenas. Já não seria mais tão fácil sobreviver com tantas avarias físicas, mas estar viva – naquele instante – lhe parecia mais importante que tudo o mais que existia. Enquanto estivesse viva, poderia ser útil.

E pensar que a metamorfose de lagarta era o ápice de evolução que uma borboleta poderia pretender... Ela agora sabia que as transformações mais importantes jamais poderiam ser vistas – pois que acontecem do lado de dentro...


quarta-feira, 17 de junho de 2009

Sessyllya por Sessyllya


Sob o signo gemente e taurina em ascendente, Sessyllya é a personificação da ambiguidade. Mesmo sem acreditar em zodíacos, nunca pôde negar tamanha coincidência: sol e ascendente viverem em plenitude de inferno astral.

Dúbia e confusa – Sessyllya em dúvidas e conflitos.

Contraditória e paradoxal, Sessyllya é reflexo e avesso de si mesma. Quanto mais quer sair para o mundo, mais entra em si. Quanto mais tenta conhecer o mundo, mais descobre a si. Quanto mais tenta fugir do mundo, mais para longe foge de si.

Isso ou aquilo?! Quer ou não quer?! Sente ou não sente?! Sessyllya é absurdamente incapaz de responder a tais questões. Não sabe compreender a palavra ‘ou’, posto que vive a palavra ‘e’. Não sabe, pois que, para ela, é isso ‘e’ aquilo, quer ‘e’ não quer, sente ‘e’ não sente. Tudo o que ela mais quer é exatamente o mesmo que ela já não quer mais. Não é questão de escolha, mas, sim, a manifestação mais pura e estúrdia de sua própria essência – polarizada que sempre foi.

Sessyllya é tão incoerente como uma ilha de silêncio cercada de palavras por todos os lados e ventilada por ares de sons que jamais dão trégua. Haveria alguém capaz de amá-la sendo ela tão aparentemente sem sentido?! Talvez somente um signo gêmeo - coração de alma gêmea - seria capacitado para tal desafio.

Na vida dessa criatura, tudo é – no mínimo – duplo, aos pares avessos, dúbio. Para ela, dificilmente haverá respostas – certamente jamais haverá certezas.

Pode ser que seja essa a maldição de Sessyllya. Pode ser que seja salvação.


segunda-feira, 15 de junho de 2009

Perspectivas - Parte 3


Diante da impassibilidade dos que estavam ao seu redor, o delegado se viu obrigado a exclamar, energicamente:

— Guardas, repito: prendam-na imediatamente.

— Mas, delegado, o senhor não tem o direito! Eu não fiz nada! É a Dalva que tem que ser presa! Ela é uma assassina fria e calculista! Ela tem problema, é uma psicopata, não pode ficar solta por aí! Delegado, por favor, eu pr...

— Guardas!!! Estão surdos??? Prendam-na!!!

A ordem foi obedecida desta vez, embora a antiga depoente e atual acusada demonstrasse bastante resistência, dizendo palavras e expressões que revelavam descontrole total. Diante do fato, o delegado retomou seu tom sossegado, porém firme, e começou:

— Senhorita Cristine, achas mesmo que não mereces ser presa? Porque, se achares, talvez eu deva dar-te alguns motivos bem convincentes para seres... Posso começar do começo, se quiseres...

Como o silêncio fosse incomodamente desagradável, o delegado imaginou que devesse prosseguir:

— Caso não saibas, senhorita Cristine, o prefeito e eu somos muito amigos. Tanto que ele é padrinho de minha filha do meio e eu... Bem, eu sou padrinho do... Davi. Talvez tu saibas disso, afinal, disseste ser amiga de infância de meu afilhado... Mas, engraçado... Vi aquele menino crescer; acompanhei-o de perto durante todos estes anos; nós costumávamos pescar juntos e conversávamos bastante... Mas nunca, nem mesmo uma única vez, lembro-me de tê-lo ouvido dizer o teu nome ou de ter te visto perto dele... Aliás, senhorita, só me lembro de ter te visto nesta cidade há pouco tempo... Talvez somente há pouco mais de um ano... Talvez menos que isso... Também não encontrei seu nome nos registros da cidade, nem mesmo nas escolas...

Cristine se movimenta na cadeira, desconfortável. Faz menção de dizer algo, mas desiste. O delegado observa a tudo, mas ninguém percebe. Cristine fala de um só fôlego:

— Estudei na Escola de Freiras!

O delegado continua, vitorioso:

— Ah, sim, muito conveniente, não?! A Escola de Freiras foi vítima de um incêndio recentemente, portanto, não há registros dos alunos que estudaram lá. Assim sendo, nunca saberemos se realmente viveste aqui e foste amiga de Davi ou não...

Após breve pausa, prosseguiu:

— O prefeito, tanto quanto eu, achou estranho que tu estivesses tão interessada nas investigações sobre a morte de nosso garoto, uma vez que não nos lembrávamos de ti na vida dele antes de Dalva aparecer. Aliás, era muito curioso que Dalva, a namorada, estivesse tão conformada com a morte de Davi enquanto tu, a amiga, estivesses tão empenhada em fazer valer a justiça. Por isso, além de investigar o crime, fiquei de olho em ti. Logo descobri os recortes de jornal compilados por Davi, aos quais te referiste, e fui até a cidadezinha mencionada investigar mais a fundo. Descobri que a versão dos jornais era falsa, forjada para tentar atrair a garota que, de fato, fora internada num hospício e matara a madrasta, o pai e o namorado, tal como disseste que está escrito no diário de Dalva. A polícia local sabia que essa garota era a culpada, mas transformaram-na em vítima para que ela voltasse para a cidade. Devido à idade, à descrição e às iniciais da garota, durante um curto período de tempo imaginei que Dalva fosse mesmo a culpada. Durante algum tempo, eu quase tive vontade de odiá-la pelo crime horrendo que acreditei que ela houvesse cometido... Mas isso foi durante muito pouco tempo, afinal, um delegado experiente percebe as sutilezas dos crimes calculados, premeditados... É por isso que hoje, senhorita Dália, devo confessar-te que tua ideia foi boa, deveras boa, mas não boa o suficiente para realizar um crime perfeito...

— Peraí, delegado! Do que foi que o senhor me chamou???


sexta-feira, 12 de junho de 2009

Sabedoria de Borboleta


Certo dia, a menina indignou-se. Queria porque queria ser livre e não se conformava com a cruel realidade de não possuir asas que a levassem para longe. Foi então que a borboleta pousou-lhe no braço e houveram-se em conversa por demais séria e amiga. A surpresa da menina foi grande quando ouviu as ponderações tão sábias do bichinho lepidóptero. Disse a borboleta:

— Diferente do que pensas, ó menina, ser livre não é ter asas. Ser livre é saber-se dona de tuas escolhas e consciente de que todas trazem consequências implicadas, previsíveis, dedutíveis, prováveis e/ou até mesmo (quase sempre!) improváveis. Eu, por exemplo bobo que pensei agora, sou livre porque pude escolher pousar em teu braço, ainda que soubesse do risco de ser rejeitada, ferida ou presa por ti. Poderia ter escolhido conversar voando alto para que não me alcançasses, poderia estar pousada em lugar seguro ou talvez escondida de teus olhos. Minha escolha, todavia, foi conversar pousada em teu braço, olhando em teus olhos, porque também sei do risco de agradar-te e de alegrar-me em companhia tua, de nos tornarmos amigas, de sentirmos conforto recíproco. Neste caso, portanto, sei dos riscos e escolhi enfrentá-los. Se somos felizes juntas, sinto-me mais livre e plena. Se, no entanto, me feres ou me prendes, ainda assim não me sentirei vítima, porque sei-me responsável pelas consequências do que escolhi – e assim permaneço livre mesmo quando tais consequências não são do meu agrado, pois tudo foram as escolhas que eu mesma fiz. Podes escolher o que quiseres, menina. Ser livre é cometer o arbítrio – e tão somente.

Ouvindo isso, abriu-se o sorriso da menina. E sentiu-se tão livre que asas algumas nem mais seriam tão encantadas quanto antes sempre pareceram.


quarta-feira, 10 de junho de 2009

Aprendizagem


Hellah entrava em fase de casulo. Recolhia-se em si para avaliar em que ponto estava, em que ponto deveria estar. Mais ainda – onde é que gostaria de ter estado antes, onde é que gostaria de estar agora, para onde gostaria de ir? Que desejos eram os seus, afinal?!

Precisava de silêncio para ouvir o que vinha de dentro. Precisava de escuridão para enxergar o que estava além. Precisava de solidão para entender se o que era realmente era o que era ou se era apenas reflexo do que havia em redor de si.

Em princípios de fases assim, Hellah sofria. Sentia o que não era capaz de definir ou expressar. Sentia, apenas, como se nem se reconhecesse dona de tanto sentimento. Aflita, confusa, sozinha, tentava compreender-se. E compreendia-se buscando os porquês do que havia experimentado em vivências.

Aos poucos, abstraía-se e as lembranças tornavam-se filme em memória sua. Sofrimento ia embora, pois que agora Hellah estava fora de si. Lembrava-se de tudo como se apenas fosse telespectadora de um drama cult. Esforçava-se por entender traumas e fugas, causas e consequências, a volta por cima – lições quaisquer que a vida lhe tentava ensinar.

Por fim, Hellah regenerava-se em aprendizado. Crescia – evolutiva. E ansiava por novamente outras oportunidades de sentir o que nem tinha nome, e entender o que nem tinha explicação, e aprender o que nem sabia por que, e ser o que sempre haveria de ser: essencialmente eterna; temporariamente mutante...


segunda-feira, 8 de junho de 2009

Perspectivas - Parte 2


Ao dizer isso, a garota abaixa a cabeça, contempla as próprias mãos que estão apertadas uma contra a outra e se mantém num silêncio maior do que o das pausas que fizera ao longo da narrativa. O escrivão da delegacia entende que ela acabou seu relato e recosta-se, exausto, na cadeira desconfortável em que trabalha há muitos anos. Está absolutamente chocado. Redigira o depoimento da garota com precisão, imaginando que aquela era a história mais trágica, estranha e assustadora que já ouvira. Se fosse filme ou romance policial, talvez tivesse gostado. Mas saber que tudo havia acontecido tão perto de si, na cidadezinha pequena e pacata em que encontrara a tranquilidade e a segurança que tanto almejava para sua família... Ah, isso era perturbador.

Conhecia Dalva, a menina simpática que se mudara há pouco para a cidade. No começo, participou das especulações em torno das origens e propósitos da forasteira, mas logo foi obrigado a abandonar a formulação e reprodução de boatos, visto que havia problemas de ordem mais subsistencial para resolver – ou ao menos tentar remediar. Agora, ao ouvir e registrar o depoimento de Cristine, a melhor amiga e quase última vítima de Dalva, concluía, de si para si, que nunca mais em sua vida ignoraria sua intuição: “Bem que eu percebi que havia algo diferente no ar que envolvia aquela menina... Talvez fosse a aura da loucura psicopata ou a mar...”.

Seus pensamentos foram interrompidos pela voz sossegada, porém firme, do delegado:

— Isso é tudo o que tens a dizer, senhorita Cristine?

— Sim, delegado. Isso é... tudo.

— Tens certeza?

— S...sim, delegado. Tenho certeza de que não me esqueci de nada.

Novo momento de silêncio na delegacia. O escrivão contempla a jovem ali sentada e começa a sentir por ela algo como uma certa piedade: “Coitadinha, poderia ter morrido nas mãos daquela as...”, mas leva um grande susto – que quase o derruba da cadeira – quando ouve novamente a voz do delegado, desta vez em volume bem mais alto do que o habitual:

— Guardas, prendam essa jovem!

— O quê??? – Exclamam a um só tempo os próprios guardas, o escrivão e a jovem depoente.


sexta-feira, 5 de junho de 2009

Aurellyana em Solitude


Aurellyana era garota portentosa de graças, adolescida de idades, adulterada de modos. Pensava que o tempo tem vez que se cansa, a vida tem lugares em que se descansa, tem hora que a gente é que nem os alcança.

Havia-se como companhia de um vazio tão grande que já não mais lhe cabia no peito, por isso apreciava dividir-se consigo mesma em manias diversas e absurdas que lhe particularizavam as vivências.

Divisões constantes acabaram por transformá-la num caso muito abusado de talentos artísticos multiplicados – tudo nela era surpresa, pois que somente havia as sabedorias para coisas belas e de nenhuma utilidade prática.

Seus hábitos eram antigos, eruditos, fazia as coisas que não mais são consideradas passa-tempo e ocupa-espaço em dias de hoje. Ouvia a dança do vento e dos bichos que voavam em sua janela; dançava com eles; flutuava em melodias barrocas, suas favoritas, como se som fosse capaz de sustentar a leveza de seu peso; mergulhava nas cores de telas abstratas e se sujava em sombras que elas faziam; perambulava por mundos fictícios replenos de seres fabulosos e quimeras dentro deles.

Aurellyana era personagem importante da peça que acontecia em torno de seu quarto e através de sua mente. Fazia parte de histórias – lúdicas, lúcidas, lúbricas também – que vivia, embora preferisse a função de observadora. Gostava mais era de contemplar os lugares adentrados, analisar os porquês do que sucedia, bisbilhotar o que as criaturas faziam e o que se fazia delas, avaliar a qualidade dos criadores que lhe ofereciam suas criações – criaturas – de Arte, discutir com eles todos suas perspectivas de interpretação.

Com o tempo, começou a dialogar com estrangeiros. Fez escolhas aleatórias dentre nomes de uma lista de clássicos que conseguira reunir ao longo de conversas com pessoas entendidas e pesquisas autodidáticas. Um dia, encontrou García Márquez e percebeu a reviravolta nas entranhas. Que relâmpagos de mundo era aquele com que se deparava? Coisa mais estúrdia, como é que sentia tão próximo de si a realidade que as palavras romanceavam?

Feito se fosse a letra em meio dos capítulos, sílabas das frases que transformam papel em página, Aurellyana lia. Comia do texto – antropofágica. Regalava-se em devoramento daquilo. Alimentava-se. Peixe que se afoga em baba própria por excesso de bolhas.

Foi quando apareceu a Remédios que Aurellyana, definitivamente, antecipou-se em tragédia. Entendia que a menina que García Márquez lhe apresentava era o concreto daquilo que considerava a perfeição do advérbio adjetivado em substantivos. E Aurellyana sabia que tudo que é perfeito sofre de impossível. Descobriu que encontrava a personagem pela qual havia esperado desde que se sabia ser viajante dos caminhos da Arte e leiturista de ficções. Apaixonou-se pela menina com força tamanha que já pensava em raspar a cabeça e virar borboleta.

A vontade era sincera e tenaz. Tornou-se incontrolável – insuportável. Aurellyana queria repetir a façanha de Remédios, ser bela e livre como ninguém, nunca-e-jamais, alhures-e-algures, havia conseguido.

Olhou pela janela e teve a ideia. Mais de dez andares. Era fácil, era simples, era irresistível. Pulou. Nem se lembrou de guardar o livro. Levou-o junto consigo.

Sensacionalistas acusariam García Márquez de ser influente pelas letras, fazer apologias a uma solidão mais terrível que todos os monstros mais terríveis da mitologia. García Márquez seria responsável pela queda de Aurellyana. E pode ser que ninguém entendesse que o que Aurelyana queria era somente ser.


quarta-feira, 3 de junho de 2009

Palavras de Sessyllya


Quis ser qualquer coisa de especial, fértil e útil, até descobrir que nem sabia o que, de fato, era.

Quis ter qualquer coisa de belo, confortável e moderno, até descobrir que nada, de fato, era meu.

Quis querer qualquer coisa de grandioso, extravagante e eterno, até descobrir que queria, de fato, o impossível.

Descobri que nada sou, portanto, posso ser o que quiser.

Entendi que nada tenho, portanto, nada posso perder.

Decidi que nada mais quero, portanto, já tenho (o) tudo.


segunda-feira, 1 de junho de 2009

Perspectivas - Parte 1


“Quando Dalva chegou, todos notaram algo diferente no ar que a envolvia. Nunca soubemos descrever o que era exatamente: se o brilho forte dos olhos, a agilidade dos passos, a tranquilidade dos atos ou o sorriso misterioso... Talvez fosse o desequilibrado conjunto de tudo isso, ou talvez fosse coisa da nossa cabeça. Fato é que, quando Dalva chegou, todos notaram algo diferente no ar que a envolvia.


Não deveria ter mais que 18 anos. Parecia-nos estranho que menina tão jovem como Dalva aparecesse assim, sozinha, de repente, sem explicações, vinda de local ignorado, abastada... Todos se questionavam o que a teria trazido. Nossa pequena cidade, como aconteceria em qualquer cidade pequena, foi imediatamente afetada pela chegada da nova moradora, que não demorou dois dias para alugar uma casa, providenciar os móveis, abastecer a despensa, se matricular no último ano do Ensino Médio do grupo escolar, causar confusões com o filho do prefeito e arranjar um namorado.


A casa do prefeito ficava ao lado daquela alugada por Dalva. O filho dele se chamava Davi e foi, sem querer, o responsável pelo desentendimento com a menina. Com o intuito de oferecer ajuda para o que fosse preciso, Davi subiu no muro que dividia os dois quintais e perguntou se podia ser útil. Dalva encarou a atitude como invasão de privacidade: ‘Quisesse ajudar, bateria na porta da frente em vez de invadir meu quintal!’. A discussão pôde ser ouvida pelos vizinhos mais próximos, bem como as palavras que os levaram a fazer as pazes e os beijos que anunciaram o namoro.


Além de ser da mesma classe em que ela se matriculara, eu também era vizinha de Dalva. Sou testemunha da história toda. Logo observei a personalidade introspectiva daquela menina, a maneira delicada como se negava a falar de sua vida para quem quer que fosse. Ofereci meus cadernos para que ela copiasse a matéria dada até então, apresentei-a aos outros alunos, expliquei os regulamentos da escola e as tradições da cidade. Ficamos amigas. Grandes amigas. Dalva sabia cada mísero acontecimento da minha vida, mas nunca me contou um único detalhe da sua. Ela era tema de grandes boatos, debates e apostas na cidade, mas sabia que eu não estava envolvida nisso. Eu também jamais questionei sobre seu passado, o que talvez tenha contribuído para ganhar sua confiança.


Davi estudava conosco, numa outra turma. Era o editor do jornal da escola, gentil, inteligente, curioso, belo... Crescemos juntos, ele era meu melhor amigo e creio que a recíproca fosse verdadeira. O namoro com Dalva ia muito bem, eles se mostravam mais felizes a cada dia. O prefeito, de início, não aprovou o relacionamento do filho com uma desconhecida, mas a simpatia de Dalva logo o conquistou. Oficializado o compromisso, os moradores da cidade não mais ousaram se intrometer na vida da menina, embora todos tivessem enorme curiosidade em saber detalhes sobre seu passado. Com o tempo, a curiosidade foi arrefecendo - e teria desaparecido completamente, não fosse a inexplicável sensação que tinham de que havia algo diferente com aquela menina.


Dalva e Davi pareciam gostar da minha companhia, uma vez que sempre me convidavam para festas, piqueniques e outros passeios. Eu também gostava daquele casal de amigos, sentia-me feliz em fugir um pouco da solidão.


Seis meses após Dalva ter chegado à nossa pequena cidade, no entanto, Davi foi encontrado morto. Um tiro na cabeça. Não havia indícios de roubo, sequestro, violência... Nada se sabia sobre o garoto ter inimigos... Especulava-se sobre a possibilidade de suicídio. A polícia parecia querer abafar o caso, talvez a pedido do prefeito. Eu conhecia Davi há tempo suficiente para duvidar de que ele tivesse se matado, por isso foi tão grande o choque que senti diante da notícia.


Inconformada com a indolência da polícia, não pude resistir à tentação de tentar desvendar o mistério daquela morte. Eu precisava entender o que havia acontecido com o maior am... com o maior... amigo que já tive...


Só não sabia por onde começaria minhas investigações...


Após apenas alguns dias de investigações na editora da escola, descobri que Davi havia encontrado informações relevantes sobre o passado de Dalva. Segundo recortes de jornal e notícias retiradas da Internet, um estranho crime envolvia a forasteira: uma madrasta mandou a enteada adolescente para o hospício, matou o marido para ficar com a herança e, ao ser descoberta, se matou; após a morte da madrasta, a menina foi enviada a uma casa de apoio, mas desapareceu misteriosamente, horas antes de seu namorado se matar. As iniciais da enteada desaparecida correspondiam às de Dalva, bem como a idade e a descrição física. Além disso, o desfecho da história coincidia com a data em que Dalva chegara à nossa cidade.
Tal descoberta me deixou confusa. Algo nessa história não fazia sentido. Minha amizade com Dalva, no entanto, estava cada vez mais forte, pois foi comigo que a garota desabafou toda a tristeza que a morte do namorado lhe causava. Certo dia, me arrisquei a questioná-la sobre a tragédia que ocorrera em sua vida. Ao contrário do que pensei, Dalva não se recusou a falar sobre o assunto. Sem pestanejar, ela disse que a história dos jornais era absurda e ridícula, fruto da incompetência das autoridades policiais.


─ Então o que foi que aconteceu de verdade, Dalva? – Indaguei.


─ Eu tinha um namorado de infância. Nós nos amávamos muito. Quando meu pai se casou com minha madrasta e ela me mandou pro hospício, meu namorado não se conformou. Ele sabia que eu não era louca, por isso tentou convencer meu pai a me tirar daquele lugar. Só que o velho estava cego de amores por aquela mulher, é claro que não podia dar ouvidos a um moleque. Meu namorado, então, matou os dois e me ajudou a fugir do hospício. Mas, quando revelou que havia matado meu pai, não pude mais ficar com ele. Mesmo tendo me salvado, ele agora era um criminoso e eu não podia namorar um criminoso. Inconformado com minha rejeição, ele se matou. Com medo de que a polícia me procurasse ou de ser internada de novo, fugi.


Aquela história ainda não havia me convencido. Parecia ilógico que alguém fosse cercado por tantas mortes – a mãe, o pai, a madrasta e dois namorados – e sobrevivesse incólume. Seria a vida realmente movida por forças do destino ou algum tipo de carma?


Descobri a resposta por acaso, numa ocasião em que Dalva e eu assistíamos a um filme em sua casa. Ela cochilou e, como fazia muito frio, começou a bater queixo e ter pesadelos. Fui ao quarto dela procurar um cobertor e acabei encontrando um caderno de capa dura toda colorida e cheia de florzinhas e borboletas e mais um monte daquelas frescurinhas femininas. Logo percebi que aquilo só podia ser um diário. Seria antiético se eu o lesse? Não que eu fosse curiosa, mas talvez aquele diário esclarecesse alguns pontos...


De acordo com o que li, Dalva não parecia mesmo ser uma pessoa psicologicamente equilibrada. Houve um trecho, porém, que me fez temer ainda mais. Dizia assim:


Quando meus pais se casaram, sabiam que minha mãe possuía uma saúde muito frágil e certamente morreria se tivesse um filho. Mesmo assim, para realizar o maior sonho de meu pai, ela engravidou e morreu no parto, o que considero uma prova de amor infinito e incondicional. Meu pai parece nunca ter sentido o mesmo, ou talvez tenha se esquecido do que sentia por minha mãe nos braços das inúmeras mulheres com quem se envolveu desde então. Depois, se casou de novo e minha madrasta o convenceu a me mandar para o hospício. 'Por causa das minhas esquisitices’ foi o argumento que ela usou para convencer meu pai. ‘Queria viver em paz o amor de sua vida’ foi o argumento que meu pai usou para justificar o que estava fazendo comigo. Com a ajuda do meu namorado, saí do hospício. Em seguida, matei meu pai, depois ela. Meu namorado, assustado, não mais me quis, sugeriu que eu voltasse para o hospício. Matei-o.


Nesse ponto da leitura, senti que Dalva se aproximava, mas não tive tempo de esconder o diário. Ela ria de maneira irônica e senti muito medo de seja lá o que fosse que ela pudesse fazer comigo. Dalva, no entanto, parou a boa distância de mim e disse:


— Espero que tenha se divertido com a leitura, afinal, é o que se espera de uma boa literatura. Saiba que fiz tudo isso por amor à minha mãe. O único amor verdadeiro nessa história toda foi o dela, que renunciou à própria vida para que eu nascesse e o sonho de meu pai fosse realizado. Meu pai não deu o mínimo valor a esse gesto, pois logo se tornou amigo íntimo dos mais odiosos tipos de meretrizes e enganador dos mais variados tipos de mulheres de bem. Depois se casou de novo e nem pensou duas vezes antes de me internar apenas para satisfazer o capricho de minha madrasta ambiciosa e interesseira. Meu namorado não entendeu que eles mereciam a morte por não saberem respeitar o amor... Aliás, eles nem mesmo imaginavam o que é o amor, pois suas atitudes blasfemavam contra o sacrifício de minha mãe. Meu namorado me achou verdadeiramente louca. Ia me denunciar, por isso o matei. O mesmo fiz com Davi e acho que é desnecessário dizer o que vou fazer com você agora, certo?


Nesse momento, Dalva avançou para mim. Tentei fugir, mas ela parecia ser muito experiente em brigas, talvez até soubesse essas lutas marciais. Soube me encurralar com a maior das facilidades. Não tive outra saída a não ser a de me defender e, para isso, comecei a golpeá-la. Ela era bem melhor que eu, se defendia da maior parte dos meus golpes e me atacava de maneira incrível! Tive sorte, porém. O quarto dela fica no segundo andar e, em certo momento, percebi que estávamos lutando perto da escada. Direcionei a briga para aquele ponto e, na primeira oportunidade, empurrei-a. Em seguida, chamei a polícia e esperei ali até que alguém chegasse. Foram os minutos mais longos de minha vida."


sexta-feira, 29 de maio de 2009

Surpresa


Em resumo:


video



quarta-feira, 27 de maio de 2009

Conto de Fadas Pós-Moderno


Não sabia por que havia nas pessoas tamanho medo – tão grande – da solidão. Não entendia a ideia obsessiva que todos praticavam de procurar alguém com quem ficar junto para sempre, a busca incansável por uma companhia agradável, incondicional e eterna...

Hellah era feliz – muito e bastante – quando vivia na solidão profunda do mundo que criara, na escuridão vazia dos dias que eram os seus. Lembrava-se de que a indiferença dos outros era o que dava-lhe mais prazer, posto que sentia-se leve e livre para ser o que era, o que pensava ser e o que sempre seria, sem dissimulações ou máscaras.

Até que ele apareceu. Pode ser que a limitação de um nome seja desnecessidade grande para a compreensão da história. Nome dele, em verdades todas, nem faz diferença mínima no desenrolar dos fatos. Pode ser que não. Talvez se Hellah fosse mística ou fútil, encontrasse significado qualquer que fosse numérico, quiçá astrológico, para o nome dele... O caso, entretanto, não se configura nessas formas.

Importante – isso sim – é descrevê-lo. Ele é algo assim que nem um príncipe encantado: belo, inteligente, corajoso, forte e, ao mesmo tempo, romântico, carinhoso, atencioso e apaixonado. É bom que se diga que é apaixonado por Hellah, o que poderia causar inveja a qualquer uma dessas garotas sonhadoras e esvoaçadas que há por aí, mas que causa, a Hellah, um misto de compaixão e tédio. Compaixão por ele, moço de características tão singulares, que bem poderia conquistar quem quisesse, ter a ilusão besta de escolher justamente o enamorar-se dela... Tédio pelo desperdício de tempo e energia dele, gastos em vãs tentativas de acordar um coração já em coma por período muito longo de dormência....

Ele é o típico príncipe encantado. Problema grande é Hellah não ser princesa. Se tivesse que ser encaixada numa dessas historinhas de contos de fada, certo seria que fizesse papel de madrasta má, das irmãs cruéis ou mesmo da bruxa. Nunca, porém, dariam a Hellah o papel da princesinha linda e sensível. Falta-lhe a bondade e a delicadeza da princesa. Falta-lhe, principalmente, um coração capaz de sentir uma paixão fulminante, a coragem de lutar pelo seu amor, de deixar tudo e fugir com ele, ainda menos por ele, sem nem mesmo olhar para trás. Falta-lhe a insensatez dos românticos, a insanidade dos apaixonados e, sobretudo, a vontade de se afastar da solidão...


segunda-feira, 25 de maio de 2009

O Homem que Vendia Sonhos


Era velho, era só e vendia sonhos.

Acordava antes do sol, pegava seus sonhos e saía de bicicleta – chapéu na cabeça e esperança nos olhos.

Pedalava lentamente pela cidade toda, oferecendo sonhos a quem interesse houvesse, indagando aos gritos e quase em desespero quem é que queria um sonho. Era raro que alguém respondesse – mais raro ainda que a resposta fosse positiva.

Somente as crianças e os loucos sentiam alegria ao vê-lo – e jamais recusavam-se a pegar um sonho para si.

Nem se lembrava há quanto tempo exercia encargo tão pesado – vender sonhos num mundo pleno de insônia.


sexta-feira, 22 de maio de 2009

Leis de Atração


Opostos atraem-se? Contrários completam-se? Será mesmo mais cativante aquilo que é diferente de si?

Bela e Fera, tão princesa e tão ogro, são capazes de se compreender – de saber do que o outro necessita e supri-lo?! O que buscarão um no outro: o que são ou o que não têm?

Pode ser possível duas criaturas que não falam a mesma língua entenderem-se. Pode ser possível duas criaturas que falam a mesma língua não se entenderem. Opostas, contrárias, avessas... O que determina a língua e o entendimento de cada uma?!

Quando sai do casulo, borboleta deixa de ser lagarta? Antes de virar casulo, lagarta já é borboleta? E se a borboleta se apaixonar por uma lagarta – ou vice-versa?! Que há de diferente entre ambas? Que parte de oposição ou semelhança há nelas?

Pode ser que o oposto atraia. Pode ser que o semelhante conforte. Pode ser que o contrário surpreenda. Pode ser que o semelhante acolha. Pode ser que o diferente ensine. Pode ser que os iguais se aprendam...


quarta-feira, 20 de maio de 2009

Sessyllya e eDDu


Em umas das conversas que Sessyllya teve com seu amigo eDDu, ambos meio excêntricos com palavras e pensamentos, ambos meio alheios ao que criaturas comuns julgam ser o normal das coisas, registrou-se o que se lê nas linhas que se seguem.

"Sessyllya: Tem hora que penso... Penso?

eDDu: Penso, logo me acho inteligente.

Sessyllya: Quer dizer que gente desinteligente não pensa? Ou apenas pensa diferente?

eDDu: Não sei. Sei que penso, logo dou risada.

Sessyllya: Então penso, logo me jogo!

eDDu: Penso, logo fede.

Sessyllya: Penso, logo fico confusa...

eDDu: Penso, logo viajo.

Sessyllya: Penso, logo... me acho?!

eDDu: Penso, logo esqueço.

Sessyllya: Penso, logo pereço.
Penso, logo estremeço.
Penso, logo enlouqueço.
Penso, logo entristeço.
Penso, logo emudeço...
Penso, logo... existo?

eDDu: Penso... logo... desisto."

Sessyllya e eDDu têm dessas manias de conversas sem sentido – em busca pelo sentido delas? São ambos seres que vivem em mundos diversos, debaixo de arco-íris que chovem colorido.


segunda-feira, 18 de maio de 2009

Eclipse


Difícil para quase qualquer um encontrar seu par. Maioria das gentes enfrenta desafios indescritíveis para não estar só. Amores impossíveis, platônicos, não correspondidos... Relações difíceis, conflituosas ou simplesmente monótonas, vítimas da rotina imposta por longo tempo e pouca atenção, cuidado nenhum.

Amar é a parte fácil da vida. Difícil é entender, expressar, aprimorar e manter o amor. Quando o tempo nem é mais represa que acumula saudades, as águas retidas mudam de nome. Saudade vira ciúme, implicâncias ou tédio – entre tantos outros defeitos.

Amor tem prazo de validade curto para quase todas as gentes. Esperança, ilusão e – principalmente – medo é que as enganam. Esperança de viver feliz em conto de fadas, ilusão de que é possível viver esse conto depois do final feliz e medo da solidão sozinha – pois que solidão a dois é mais fácil de fingir que nem existe.

Amor é flor delicada que exige cultivo constante e eterno, cuidados especiais com terra e adubo, até com vaso em que está plantada e as pragas que se aproximam. Flor precisa de água e sol, ar fresco e bichinhos que a ajudam a distribuir seu cheiro.

Em palavras outras, mais resumidas e abstratas, amor que pretende viver muito carece de ser raro. Por isso que corações sábios – aqueles capazes de sentir e pensar a um só tempo – entendem que amantes predestinados ao amor eterno são como lua e sol. Toda vez que encontram-se, enfeitam o céu de eclipse.


sexta-feira, 15 de maio de 2009

Descobertas


Ferida por um predador qualquer, a frágil criatura não conseguia decidir se a dor de estar viva era mesmo melhor que o alívio de ter sido devorada de vez. Pensava que a vida era injusta. Tão pequena e delicada ela era, tão leve e fraca – e precisava fugir de inimigos grandes e poderosos, fortes e brutos. Às vezes eles feriam tanto que nem parecia ser possível aquilo ser curado.

Nunca encontrou quem a protegesse, nunca conseguiu a amizade sincera de um animal que a salvasse, nunca pôde confiar em bicho qualquer que fosse, nem mesmo nos de sua espécie – quando surgia o perigo, todos lembravam-se somente de que cada um por si deveria dar jeito de se cuidar.

Pobre ser, tão pequeno e frágil. Ser mais pobre ainda, agora que descobria-se em solidão plena. No fim das contas, a vida era mesmo injusta. Tantos seres no mundo e – pobre de todos eles – cada um somente podia contar consigo mesmo...


quarta-feira, 13 de maio de 2009

Fuga


Queria ir para longe, muito longe – o mais distante possível. Há tempos tornara-se desagradável viver ali. Agora, contudo, insustentável tornara-se a situação. Simplesmente insuportável! Se pudesse, sumiria agora e não daria satisfações a quem quer que fosse. Iria embora para lugar qualquer que fosse bem longe e não mais voltaria. Iria embora para sempre. Para sempre é que iria. E, finalmente, sentiria-se livre de verdade. Mas por que não podia ir embora imediatamente? Quem impediria que fosse? Pela Lei, era livre para ir e vir, não era? Era maior de idade, responsável, tinha documentos, carteira de trabalho, conta no banco, não devia dinheiro nem obrigações a outrem, estava em dia com seus deveres civis... Só queria ir para longe dali. Iria para um lugar bem distante. Não havia quem impedisse – então, iria agora.

E foi.

Foi para uma cidade vizinha à sua e logo percebeu que ali também não era possível viver. Talvez por estarem muito próximas, as localidades eram meio parecidas e isso dificultava sua tentativa de ser livre de verdade. Não conseguia desligar-se completamente das recordações. Não era possível ficar ali por mais tempo. Precisava ir para mais longe.

E foi.

Foi para uma cidade em outro estado, mas talvez ainda não tivesse ido longe o bastante. Para ser livre, precisava esquecer. Pensava que a distância tinha o poder de apagar certas lembranças desagradáveis da memória – mas, por alguma estranha rede de associação de ideias, Hellah sempre recordava o que queria esquecer. Era necessário que fosse para mais longe ainda.

E foi.

Saiu do país. Continuava, entretanto, lembrando-se de falas e fatos e imagens e pessoas que não deviam ser lembrados. Como sentiria-se livre se as amarras do passado mantinham-se prendendo a circulação de sua vida, impedindo que prosseguisse? Urgia que fosse suficientemente longe, para lugar qualquer que nenhuma memória pudesse alcançar. Iria agora, não podia esperar.

E foi.

Foi para uma localidade no continente mais afastado do seu e ainda assim não sentiu-se livre. Cruzou lugares exóticos, visitou cidadezinhas e metrópoles, conheceu a rusticidade da vida rural e o conforto da tecnologia avançada, passou por recantos turísticos e retiros espirituais, aventurou-se por rios e vales, florestas e pântanos... Quase deu a volta ao mundo.

E, quando deu por si, estava absolutamente só, no topo de uma montanha tão alta que só podia ser o lugar mais distante que poderia imaginar. Distante de tudo e de todos. Distante do mundo todo e de todo mundo.

Infelizmente, porém, Hellah não estava assim tão distante do que mais gostaria de estar. Sua memória era implacável, irredutível, negava-se a abandonar o posto que há tanto tempo ocupava. Estava longe – as lembranças, todavia, estiveram sempre próximas. Queria fugir delas, mas a todo momento se lembrava, as recordações ficavam por perto, rondando, invadindo sua mente. As lembranças doíam.

Agora, Hellah compreendia que poderia ir para onde quisesse, para longe, bem longe, mais longe ainda, o mais distante possível... mas sua memória iria junto. Poderia ir para longe, desde que isso não significasse ficar distante das lembranças que faziam doer.

Iria para longe. Sim, iria embora para sempre. Sumiria e não daria notícias. Fugiria do mundo, talvez até da vida. Entretanto, agora sabia que jamais conseguiria fugir do que era.


segunda-feira, 11 de maio de 2009

Arbítrio


Acordou de repente, mas de modo tão sereno que nem abriu olhos. Espreguiçou-se, depois encolheu-se mais entre as cobertas, curtindo calores todos acumulados por ali ao longo da noite. Espreguiçou-se uma outra vez, mais uma e ainda outra – e, enfim, pôde abrir as janelas de sua alma para as luzes do dia já amanhecido.

Abriu os olhos ainda sonolentos e deparou-se com a aranha, pequena-pequena, lá em cima, bem perto do teto, na parede em que encostava-se a cama. Notou que ela descia lenta, sem pressa alguma que fosse, como se não houvesse coisa qualquer a se fazer na vida além de se descer do teto ao chão.

Já sem sono algum, acompanhou atento ao desenrolar do passeio aracnídeo. Previu que gastaria certo tempo na observação, posto que havia parede demais e aranha de menos para percorrê-la. Admirava-se da disposição da aranha, enfrentar caminho tão longo, quase infinito em proporção ao seu tamanho pequenino. Seu interesse, nos entretantos do caso, advinha de um detalhe relevante: havia uma janela aberta no meio do caminho – entenda-se, da parede que a aranha descia. Curiosidade dos olhos recém acordados era saber de que modo o bicho venceria aquele trecho.

Sabe-se lá quanto tempo se passou até que a aranha chegasse à janela. Tão desenvolta atuou na questão que até parecia já conhecer o caminho e ter planejado como vencê-lo. Grudou-se em teia na estrutura da janela e foi descendo de rapel, bem mais lenta do que quando caminhava pela parede. Talvez apreciasse a paisagem lá fora ou quisesse curtir o fresco e leve balanço que a brisa lhe proporcionava.

A aranha tinha pressa nenhuma em chegar ao parapeito. Aproveitava cada instante do seu passeio como se fosse o único. Propósito exclusivo de sua existência parecia ser, justamente, o caminhar.

Fato é que, porém, a jornada do animal era por demais lenta para as aspirações de quem observava da cama. Já sentindo-se em tédio diante de tanta falta de pressa no caminhar pela parede e descer pela teia o espaço da janela, levantou-se da cama com calma e devagar, espreguiçou-se com gosto, inclinou-se em direção à janela e interrompeu entre o polegar e o indicador da mão direita o passeio da aranha.


sexta-feira, 8 de maio de 2009

Transformação


A menina, sentindo-se estranha e diferente demais de tudo o que existia em redor de si, achou que nada havia que fizesse sentido em vida que era a sua. Então, fugiu para dentro dela mesma e escondeu o que era. O vazio que sentia era tão grande que preenchia muitos espaços dentro dela. Quando, entretanto, sentiu que nenhum espaço mais havia dentro de si que a coubesse, a menina escapou de si mesma levando consigo tudo o que ali dentro havia de si. Sabia-se agora como a lagarta metamorfoseada em borboleta - transtornada!


quarta-feira, 6 de maio de 2009

Sessyllya em Dúvidas Plenas


Querer... Poder... Dever... Fazer...


Nem tudo o que se quer é possível.


Nem tudo o que é possível deve ser feito.


Nem sempre se faz aquilo que se quer, aquilo que se pode ou aquilo que se deve.


Maioria das vezes, a possibilidade depende de contextos vários a se considerar, tais como conveniências, consciência ou simples vontade própria.


Sessyllya sempre descobria-se em dúvidas perante as escolhas todas que a vida exigia – em todo e cada momento do existir. Queria saber os porquês todos de tudo – embora jamais se contentasse com eles, pois que o mais tenebroso de seus medos era justamente o crer em certeza qualquer que fosse. Para Sessyllya, a dúvida talvez fosse a única defesa dos seres contra a estagnação.


Avaliava, assim, as alternativas que possuía – quero, posso, devo?! – e pensava que bom seria se pudesse viajar pelo futuro através de cada uma das inúmeras possibilidades que a vida lhe oferecia e depois voltar no tempo, sem se esquecer de tudo que havia acontecido. Tal possibilidade, contudos todos, ainda não existia na realidade ilusória do mundo material, o que a obrigava a fazer suas escolhas baseada tão somente no que já havia aprendido e no que ainda havia a aprender - também um pouco do que sentia que era preciso fazer.


Por tudo isso, Sessyllya era feliz com toda a falta de certeza que sempre a envolvia.


Sessyllya sempre haveria de preferir os questionamentos do sábio à certeza absoluta dos fanáticos.


segunda-feira, 4 de maio de 2009

O Fim do Menino de Arame


Um dia, o menino de arame teve curiosidade de saber o que acontecia no mundo fora da água. Quis saber se ainda era o mesmo mundo que deixara ou se algo havia de mudança por lá. De onde surgia aquela vontade de saber de mundos (ultra)passados? Por que o desejo de rever o que há muito soubera de cor? Talvez o menino de arame sofresse da síndrome do centro do universo, tão comum aos meninos humanos de tempos antigos, e, talvez por isso, quisesse apenas conferir se sua descoberta havia transformado o mundo da mesma forma como o transformara. Ou talvez quereria saber se sua presença no mundo das águas havia sido sentida como ausência no mundo de fora delas?


O menino de arame, então, caminhou para fora da água com tranquilidade e retidão, como era de sua personalidade sempre ser assim. Não percebeu o que acontecia, tão concentrado estava no objetivo a que se propunha. A água pesava seus movimentos, de modo que ele precisava esforçar-se em múltiplos para conseguir sair do lugar e ainda despendia tempo maior do que o estritamente necessário para tal intento.


Foi lembrando-se da brisa fresca que ele se viu, enfim, com os pés no cascalho grosso que a lagoa rododendrava. Mal sentiu as pedras e – incompreensivelmente – sentiu-se seco de súbito, como se sugado de tudo que havia de líquidos em si. A brisa, surgindo com frescura de não se saber onde seria possível haver e agindo catalisada naqueles tempos em que a vida se reconfigurava no planeta Terra, corroeu-lhe de modo imediato e irremediável. Naquele futuro remoto, era a brisa que carregava em si a estúrdia maldição de ferrugem – atacava tudo aquilo que se arriscasse a estar impregnado de água.


O menino de arame entendeu-se, de repente, imobilizado a apenas alguns passos da lagoa que tanto lhe havia confortado, das águas que de todo lhe haviam preenchido. Acabava de descobrir, com horror grande, o que era a impotência completa – a derrota. A corrosão da ferrugem foi a primeira sensação de dor insuportável que o menino de arame sentia – sensação mais forte e permanente que jamais sentiria de novo, tão lento transformando-se em pó. Teria bem sobrevivido no mundo se não houvera-se em mergulhos. Apenas agora, tarde demais, compreendia que, uma vez preenchido com a água, somente nela (dela?) seria capaz de viver.


sexta-feira, 1 de maio de 2009

Das Simplicidades de Ser


Era borboleta. Bela e frágil como todas, capaz de metamorfoses inacreditáveis e definitivas. Sempre que era preciso, que era possível, elas aconteciam – as metamorfoses. Só há metamorfose naquilo que é forte o suficiente para se suportar em mudanças.

Queria um lugar no mundo. Não um pedaço de terra, terreno ou território no planeta Terra. Um jardim não era o que queria. Não se tratava disso. O que queria era um lugar onde pudesse existir – lugar infinito o suficiente para preenchê-la, longínquo tanto quanto ela era, profundo e belo como só a simplicidade simplesmente mais pura e simples pode ser.

As simplicidades. Tudo que é simples é rico de integridade, pois que o natural das coisas carrega a essência do que deve ser, do que não tem que se justificar... Tudo que sofre de muito ser acaba sempre sendo a alegria de sempre ser...

A flor é bela, perfumosa, cheia de cores cuja alegria é intrínseca. A flor, de tão simples, carrega em si a alegria de ser. Ela tem seu lugar, tem sua terra. A flor se encontra onde ela sempre está, é o centro de seu próprio universo. Está onde sempre se encontra.

Um dia houve o encontro. Nesse dia, a alegria tornou-se uma possibilidade muito mais próxima do que qualquer outra coisa concreta que se pretendesse. Doçura e delicadeza que de tão intensas eram até capazes de construir universos completos, com todas as dimensões possíveis.

Simples a borboleta já era, portanto, íntegra. O que lhe faltava era o lugar para ser, como a flor já encontrara o seu. Pois que a alegria existe, mas também precisa de lugares. Talvez somente numa dimensão ilimitada ela encontrasse espaço para respirar, para cantar e dançar, para pensar e voar com suas asas de borboleta, asas roxas, delicadas e sublimes, tão fortes e seguras quanto o pensamento de que é feito tudo aquilo que sempre foi.

Era borboleta, não era flor. Então, terra não era para ela. Talvez o ar sim. Talvez o ar fosse lugar dela ser, a menos que - flor e ela - sofressem da metamorfose que as transformasse em eternidade.

Descobria-se assim, aos poucos. Descobria a profundidade maior de tudo o que existia por perto, por longe, por todo lado dela. Era também o centro do universo – do seu.

Era ela tudo aquilo que há entre a imensidão do que não é, a infinitude das questões e a integridade dos mundos... Borboleta cuja alegria se formava de voo, de vento, de pouso, do toque macio e do cheiro meloso da flor, de tudo o mais que vivesse.

Alegria em que se tornavam, patas nas pétalas. A mistura de borboleta e flor, boca da borboleta no copo da flor. Tudo simples, natural, encaixe perfeito, mistura de cores e cheiros e sons que pareciam estar ali desde sempre, esperando, ansiosos apenas por serem sentidos.

A flor já nascera beijada, ainda que o encontro com a borboleta só agora se desse. A borboleta sempre houvera-se dona de seu lugar, embora nem o houvesse encontrado ainda.

Certo dia, a flor agradeceu as alegrias divididas, com todo o coração é que o fazia. A borboleta respondeu com a doçura que aprendera da flor. Agradecer o quê, se nada somos além da simplicidade mais pura que só pode sofrer de alegria conjunta?!


quarta-feira, 29 de abril de 2009

Dores


Hellah estava triste e não havia o motivo. Talvez, em verdade, não estivesse, posto que observava agora o fato de – ao que todas as evidências explicitassem – sempre haver sido assim. Difícil era chegar a conclusão tão extrema: a tristeza não lhe era um estado de alegrias ausentes, mas uma característica intrínseca que se mostrava presente – e com certeza irremediável – mesmo nos momentos de maior felicidade.

Só não sabia o motivo de sentir – talvez nem mesmo houvesse um que justificasse – tristuras tão plenas, dolorosas, em todo o seu ser. Que lugar era esse cujo tempo não lhe cabia? Que tempo era esse em que os espaços não a podiam preencher?

Nessas horas pensava em morrer, mas logo desiludia-se com a ingenuidade frágil da ideia. Hellah sabia que sair desta vida era renascer em outros mundos. E se havia algo que Hellah não queria de forma alguma era renascer; por nada que desejaria tortura assim tão maior do que viver, o renascimento – começar tudo de novo.

Hoje, o cansaço era tão absoluto a ponto de suplantar qualquer outro tipo de sofrimento. Assim, as perguntas que a angustiavam resumiam-se em única dúvida. Por que não se pode simplesmente desistir, assim como um jogador que abandona o campeonato ou uma criança que se cansa da brincadeira?

Não podia mais suportar as frustrações que lhe atacavam de todos os lados, mesmo quando pareciam improváveis ou mesmo impossíveis. Se bem que, raciocinasse com mais imparcialidade e descobriria a parte de responsabilidade que lhe cabia. Fato era que a dor existia e ignorava qualquer raciocínio sensato e ponderado que sugerisse o seu fim – ou mesmo sua existência em grau menos intenso. Sabia-se diferente e pode ser que as razões todas de suas tristezas partissem daí.

Que mal poderia haver em possuir asas? Pode ser que tudo fosse diferente num tempo em que todos soubessem voar... Se admitisse que as coisas nem eram assim tão difíceis, não haveria mais as justificativas para não fazê-las. Aí então descobriria que talvez a resposta procurada fosse, tão somente, começar as lições de ensinamento, mesmo embora soubesse da grandeza de incapacidades que havia no mundo.


segunda-feira, 27 de abril de 2009

Fantasia


Este ano seria diferente. Ah, seria mesmo. Há dias sentia que uma mudança radical e irreversível aconteceria em sua vida. Agora, em pleno carnaval, percebia que essa mudança precisava acontecer imediatamente. Não suportava mais tanta angústia e solidão. Era necessário, era fundamental, era irremediável que se transformasse.

Todo ano era a mesma coisa: ansiava pela chegada do carnaval, confeccionava a mais linda fantasia, cantava, dançava e pulava nos bailes da cidade e, por fim, quase morria de tristeza quando a festa se acabava. Toda a expectativa e a agitação dos dias de folia eram substituídas por um vazio imenso e insuportável.

No início, acreditava que a fantasia tinha uma influência mística nos acontecimentos da festa e no seu próprio destino, por isso já havia se vestido de fantasma, palhaço, imperador, marinheiro, pirata e todos os super-heróis de que pôde se lembrar ao longo de todos esses anos. Experimentou cada uma dessas fantasias com atenção e sinceridade, tentando descobrir qual havia lhe trazido a melhor sorte.

Agora, no entanto, reconhecia que todos os carnavais de sua vida foram iguais, independente da fantasia que usou em cada um deles. Pensando bem, os carnavais não foram exatamente iguais: na verdade, a situação foi se tornando desagradável aos poucos, embora nos últimos anos tenha sido pior, muito pior.

Na última década, fantasiara-se apenas de pierrô e de arlequim, convencido de que a beleza poética da comédia italiana lhe inspiraria a viver aventuras e paixões. A despeito, entretanto, de toda a sua crença na energia das personagens que vestia, aconteceu justamente o contrário: sofreu decepções inesquecíveis e traumáticas, que lhe faziam sofrer durante todo o resto do ano.

Neste ano, porém, seria diferente. Haveria uma mudança. Operaria uma transformação inimaginável em sua vida. Tomaria uma atitude que mudaria para sempre seu destino. Celebraria o carnaval mais incrível e fascinante de toda sua existência e, finalmente, poderia ser feliz.

O carnaval deste ano seria o melhor de todos, especial como sempre deveria ter sido. Não iria se vestir de palhaço ou pirata; tampouco de pierrô ou arlequim. No carnaval deste ano, definitivamente, ele seria colombina.


sexta-feira, 24 de abril de 2009

Metamorfoses


Assim como a lagarta, girino também sofre de metamorfose. Apenas não carece de entrar em casulo, de modo que a estética do processo fica toda aparente. Também não ganha asas, mas aprende a respirar outros ares – liberta-se da limitação das águas. Quando girino transforma-se, torna-se maior, mais forte – autonomiza sua existência.

O sapo também - portanto - tem seus méritos de mudança – muitos deles, aliás. Criatura que ganha pernas em vez de asas. Não pode voar alto, como as borboletas, mas é capaz de pular alto - o que lhe basta para trilhar seus caminhos de liberdade. Bizarro seria se todos os seres – tão diferentes que são – seguissem pela mesma estrada, passassem pelas mesmas curvas e enfrentassem os mesmos obstáculos para chegar - todos - ao mesmo lugar.


quarta-feira, 22 de abril de 2009

Sessyllya em Ciclos


Em casos de jardineiros displicentes – e consequentes jardins mal cuidados, precários - em sua vida, Sessyllya jamais sentia-se vítima. Antes pelo contrário. Sabia-se sempre e cada vez mais responsável por si mesma. Pois que, no fundo, para Sessyllya só existia uma única verdade:




segunda-feira, 20 de abril de 2009

Abandono


Quando acordou, ele já havia saído. Ficou preocupada. Será que estaria com outra mulher? Sabia que cedo ou tarde ele iria embora para sempre – afinal, era um marinheiro –, mas certamente não iria assim, no meio da noite, sem se despedir, como se estivesse fugindo. Então, ele só podia estar com outra. E isso a roía por dentro.

Estava preparada para o dia em que ele se fosse. Sabia que o caso não duraria muito. Ele era um marinheiro jovem e lindo, era mais do que óbvio que só poderia oferecer a ela uma felicidade passageira. Conhecia muitas histórias de garotas que se apaixonaram por marinheiros e sabia que nenhuma delas tivera um final feliz. Decidiu não sofrer quando ele partisse. Com ela seria diferente: aproveitaria cada minuto ao lado dele e, quando o perdesse, guardaria a lembrança agradável e reconfortante dos bons momentos que viveram juntos.

O que não concebia era a hipótese de ser traída. Se ele quisesse se divertir com ela e depois ir embora, tudo bem, ela concordava sem restrições. Exigia, no entanto, exclusividade absoluta. Queria ser sua única amante naquele porto. Ai dele se ousasse se aventurar com outra mulher. Morreriam os dois, ela mesma se encarregaria de matá-los, de preferência quando estivessem no melhor da diversão.

Desde o início daquele estranho namoro, era a primeira vez que acordava sem o marinheiro do seu lado. Onde estaria? Não havia ido embora, isso era certo. Teria se despedido antes, dito palavras picantes e ternas, prometeria voltar para se casar com ela... Não iria assim, sem mais nem menos... Estava com outra. Não havia dúvidas de que a estava traindo.

Vestiu-se atabalhoadamente e saiu, indagando todos que lhe cruzavam o caminho. Alguém teria visto o marinheiro que era seu? Aquele alto e forte?

Não queria acreditar no que diziam. Eram todos uns invejosos que não se conformavam com a felicidade dos dois. As pessoas do porto lhe disseram que o marinheiro, o seu marinheiro, havia embarcado de madrugada, mas ela sabia que era mentira. Tinha que ser mentira. Ele tinha que estar ali – com uma qualquer, mas ali. Se fosse partir, ele teria se despedido, teria lhe confortado com palavras de amor e carícias sufocantes.

Ah, mas ela sabia que era tudo mentira. Decerto as pessoas do porto eram amigas da outra mulher, por isso queriam convencê-la de que o marinheiro havia ido embora. Se ele tivesse mesmo partido, se a tivesse enchido de beijos ardentes e declarações apaixonadas, tudo estaria bem. Mas se estivesse sendo traída, haveria morte, por isso o pessoal do porto mentia para ela.

Dias e dias se passaram e ela não encontrou quem pudesse ser a amante do seu marinheiro. Por que ele iria embora sem se despedir? Será que ela havia feito algo de errado? Talvez não lhe tivesse proporcionado tantos momentos de prazer quanto ele estava acostumado. Por que ele havia fugido?

Estava preparada para quando ele partisse. Prometera a si mesma que não sofreria. Agora, no entanto, precisava saber o que o levou embora sem ao menos se despedir. Precisava encontrá-lo para fazer a pergunta, mas o mar era a única pista que tinha sobre o paradeiro dele.

Não tinha outra escolha, a não ser a de seguir essa pista. Vestiu-se com a roupa de que ele mais gostava e entrou no mar. Resistiu à violência das primeiras ondas e seguiu em frente. Não parou nem quando as águas lhe cobriam por inteiro. Não iria sofrer por ter sido abandonada pelo marinheiro, mas queria saber o motivo de não ter merecido uma despedida. Iria encontrá-lo custasse o que custasse. Iria encontrá-lo algum dia, em algum lugar na imensidão daquele mar.


sexta-feira, 17 de abril de 2009

Sobre Sapos e Borboletas


Diz a lenda que girino e lagarta apaixonaram-se perdidamente. Na margem da lagoa havia um arbusto que espalhafatava seus galhos até quase tocarem a água. Ali aquelas criaturas se conheceram. Ali aconteciam os encontros, iluminados pelo sol da manhã ou ensolarados pelos raios da tarde. Ali foram felizes como jamais seriam em qualquer outro tempo ou espaço possível.

Assim foi até que notaram as mudanças – descobriram-se em mudança. A lagarta, agora, falava pouco, ocupada que estava em fechar-se no casulo. O girino, por sua vez, falava menos ainda, envergonhado com as formas bizarras que dominavam seu corpo.

Tristonho por ver a amiga escondendo-se em si mesma, chegou o dia em que o girino decidiu recolher-se a qualquer lugar que também o escondesse. Foi para um lado bem oposto da lagoa e lá ficou, vendo as formas cada vez mais estranhas que saíam em (de?!) si.

A lagarta, por sua vez, morria de saudades do girino, mas nada podia fazer por enquanto, trancada que estava na prisão que ela própria havia construído – com tanto esmero que nem pôde dar a atenção devida ao amigo.

Dias se passaram e o girino resolveu tentar uma reaproximação – já não aguentava mais ficar longe da lagarta. Desolado, entretanto, percebeu que sua amiga havia simplesmente desaparecido. No galho em que ela costumava esperá-lo só havia agora uma casca esfrangalhada. O girino, então, voltou ao lado oposto da lagoa decidido a nem mais sair de lá.

Precipitado que foi - se tivesse esperado um minutinho de nada, teria encarado uma linda borboleta cheia de tamanhos e cores que morava naquele galho. Somente para se alimentar de néctares é que ela voava dali, e nunca se demorava, posto que passava os dias olhando para a lagoa com a esperança de re-encontrar seu amigo anfíbio.

Tempos depois, o girino já era sapo e havia saído de dentro da lagoa, mas jamais pulava para muito longe, pois ali vivera os momentos mais lindos de sua vida e ainda nutria o desejo forte de rever a lagarta um dia.

Num de seus voos em busca de nutrição, a borboleta cheia de tamanhos e cores se deparou com aquele bicho tão diferente e cismou que algo nele lhe era familiar. Aproximou-se até encará-lo nos olhos e exclamou, cheia de certezas, que o conhecia de lugar qualquer que fosse.

Faminto, o sapo nem deu importância para as palavras da criatura lepidóptera que esvoaçava à sua frente. Piscou para a borboleta cheia de tamanhos e cores que nunca tinha visto iguais sem nem perceber o gesto que fazia. Em seguida, lançou sua língua anfíbia e a devorou com ânsia e brutalidade. Regalou-se com todas as sílabas que a palavra é capaz de carregar!

E, desde que encontrara as cascas no galho e enquanto houve-se em vida, nem mesmo um único dia se passou sem que ele se sentisse triste e ressentido por considerar-se abandonado pela sua namorada de infância...


quarta-feira, 15 de abril de 2009

Renúncia


Hellah amava tanto que nem mais se acreditava capaz de suportar aquilo. Amava tanto que até doía.

Pensava-se vítima de um mal qualquer, o que sentia a deixava sem ares e sem juízo. Descobria-se faminta e egoísta, queria ser dona de corpo, mente e alma do seu amado. Queria sentir-se única e saber-se exclusiva, do mesmo modo que queria ser-se toda como desejava que ele fosse.

Temia, entretanto, que o que sentia nada fosse além de fantasia de conto de fadas. Sabia o absurdo que eram seus desejos e, por isso, reprimia-os todos. Fingia-se indiferente e fria quando o que queria era entregar-se plena, desdobrar-se em carinhos.

Tanto medo de perder e tanta certeza de nem merecer que as angústias eram tantas demais. Não mais conteve-se: precisava fugir daquele enredo de sentimentos inéditos e estúrdios que mais a confundiam do que alegravam.

O amado, tão amante quanto Hellah, mas livre de dúvidas e medos quaisquer, jamais pôde compreender os porquês de tê-la perdido. E Hellah, sozinha e ferida por si mesma, jamais pôde esquecer tudo aquilo que jamais viveu ao lado daquele que foi - e seria sempre - único em vida sua.


segunda-feira, 13 de abril de 2009

Instintos Controvertidos


Pessoa alguma poderia jamais imaginar o quanto ele sofria ali, deitado em posição estranha no chão daquele quarto escuro. Sim, ele sofria. Já era noite e ele sofria como jamais sofrera em todos os longos anos de sua existência medíocre.

Há muito perdera a noção do tempo, mas presumia estar em cativeiro há bem mais de uma semana. Nos primeiros dias, esteve à beira da loucura ali dentro, sozinho, sem ter o que fazer nem com quem conversar.

A sonoridade insuportável do silêncio que envolvia o aposento chegou a ensurdecer sua mente, obrigando-a a vagar pelo sombrio e temido universo das recordações subconscientes. Precisou encarar verdades aparentemente esquecidas ou escancaradamente reprimidas, mas ter um pouco de convívio consigo mesmo nem foi tão difícil, afinal. Soubesse disso, teria se encarado e enfrentado-se a si mesmo há tempos!

Aos poucos, acabou por acostumar-se àquela solidão forçada. Acostumou-se, também, à escuridão do ambiente e à atmosfera úmida e pesada que lhe causava espirros e uma leve irritação na garganta. Era alimentado pouco e mal, mas o suficiente para nutrir esperanças de sair dali.

Não sabia como fora parar naquele lugar e muito menos o que queriam dele. Lembrava-se vagamente de dois homens grandes, fortes e mal encarados vindo em sua direção, um cheiro estonteante e muitos sonhos psicodélicos. Depois, dores musculares que passaram no terceiro dia. Talvez o tivessem confundido com algum figurão importante... Talvez o julgassem rico e poderoso por causa das roupas e do carro que usava na ocasião (quem imaginaria a completa ruína em que se encontrava?)... Talvez seu filho tenha se metido em encrencas de novo e os caras tenham resolvido se vingar no pai desta vez... Ou talvez fosse apenas mais um dos inúmeros golpes de sua ambiciosa esposa...

Tudo isso, entretanto, já não importava agora. Há horas havia percebido que não havia mais chances de escapar dali. Ele logo morreria e sabia disso. Era inevitável.

Horas atrás, quando o tiroteio começou, ouviu vozes nervosas conversando numa espécie de código. Após dias de quase absoluto silêncio, aqueles ruídos de gritos e tiros nem eram assim tão desagradáveis. Logo, porém, o nervosismo aumentou e o tiroteio também. Sentia-se o medo e uma violência irracional naquilo tudo.

Foi aí que algo aconteceu naquele quarto. Uma bala atravessou a parede e, pela primeira vez, o lugar não parecia tão escuro. O pequeno orifício aberto pelo projétil deixava passar um feixe de luz que atraía os sentidos do homem. Decidiu olhar por ali a ver o que acontecia lá fora. Não conseguiu: o ângulo não era muito apropriado.

Pôs-se, então, a imaginar coisas: e se fosse uma briga de gangues? E se o ferissem? E se o fizessem refém? Aliás, já não era uma espécie de refém? Conseguiria aproveitar a confusão para fugir dali? E se fosse a polícia? Teriam vindo salvá-lo?

Nesse momento, um dos que discutiam lá fora entrou atabalhoadamente no quarto e o atingiu com um objeto duro e pesado. Após tantos dias preso, seu sofrimento só começou de verdade quando acordou daquele golpe. Embora se visse numa posição aparentemente incômoda, percebeu que não sentia mais parte alguma de seu corpo.

Teve medo. Muito medo. E sofreu com todas as forças que lhe restavam. Morreria, é verdade, sabia disso e tinha esperanças de que acontecesse logo. Mas tinha muito medo de que algo pior o surpreendesse. E se chegassem agora para salvá-lo? E se desse tempo de ser resgatado, medicado e tratado? E se sobrevivesse às cirurgias e continuasse saudável por muitos anos? Não, seria crueldade demais do destino.

Precisava morrer e o mais depressa possível. Sabia, tinha a mais completa certeza de que jamais seria o mesmo. Morrer preso num quarto escuro e poeirento era digno. Viver preso a uma cama parecia inconcebível. Era preciso morrer antes que alguém chegasse e fosse tarde demais. Não queria acreditar que estava ouvindo o barulho de sirenes de ambulância. Talvez já estivesse nos delírios da morte e aquele ruído fosse apenas coisa de sua cabeça.


sexta-feira, 10 de abril de 2009

A Gota d´Água


Após longa série de desafios, tentativas frustradas, derrotas e novos desafios com resultados identicamente decepcionantes, a menina compreendia que tornava-se cada vez mais forte. Tal e qual a lagarta na escuridão do casulo, a menina enfrentava tudo e sabia das recompensas imateriais e invisíveis que sempre alcançava.

Dessa vez, entretanto, algo diferente acontecia – algo mais forte e mais sério do que nunca antes havia experimentado. Sentimentos que eram seus tornavam-se estúrdios. Lágrimas escorriam dela como substantivo abstrato que mergulha numa onomatopeia absurda e equivocada. Sufocada, o que lhe restou foi somente o grito.

Jamais seria a mesma a partir daquele momento. Descobria que era forte e podia suportar muitas coisas, mas para tudo havia um limite. Naquele momento, uma decisão havia sido tomada. Todo um destino estava prestes a mudar por completo e para sempre. A menina sabia que não poderia voltar atrás. A partir de agora tornava-se outra pessoa – irremediavelmente.


quarta-feira, 8 de abril de 2009

Sessyllya em Arbítrio Aplicado


Todo e cada momento de vida é de se fazer as escolhas.

Todo e cada momento oferece infinitas possibilidades de escolha. E cada escolha reflete-se em consequências quase sempre imprevisíveis – que exigem novas escolhas, quase sempre direta ou indiretamente interligadas às escolhas anteriores. Às vezes todas as escolhas parecem ser certas. Outras vezes, parecem ser todas absurdas. Muitas vezes é preciso refazer certas escolhas. Algumas vezes, é preciso simplesmente esquecê-las. É preciso, entretanto, analisar bem as consequências das possibilidades escolhidas, para aprender a decidir pela melhor escolha no próximo momento de vida.

A mente de Sessyllya – labiríntica – enxergava a todo momento mais alternativas de escolha do que parecia ser possível em vidas comuns. Sentia-se, assim, conflituosa diante de tantas possibilidades – pois que cada escolha que fazia a levava à necessidade de outra e mais uma escolha.

Assim Sessyllya pensava quando percebia-se em vida: como se estivesse em labirinto infinito e sem saída, irremediavelmente presa de tudo o que escolhia. Ora era vítima, ora era algoz. Sempre, contudo, sabia-se única responsável por suas escolhas – e suas consequentes consequências.

Sessyllya nunca sabia com certeza por qual caminho andava e nem mais pensava onde ou quando iria chegar em definitivo – afinal, nada existia que fosse de fato definitivo. Única certeza em sua vida era a de estar caminhando – pois que jamais admitiria a escolha do estar parada.


segunda-feira, 6 de abril de 2009

O Susto do Menino de Arame


E o menino de arame caminhava e caminhava. E tanto caminhou até que um dia encontrou a fonte. Era a única nascente de água que ainda existia na Terra. Não era a última que havia sobrado, mas, sim, todas as últimas que haviam sobrevivido e se juntado para formar uma única criatura. As águas todas do mundo (muito poucas naquela época) estavam reunidas ali naquele oásis obsoleto, águas que não mais alimentavam plantas nem bichos nem seres quaisquer que delas precisavam antes. As águas todas do mundo somente brotavam de um orifício na montanha, escorriam em filete pelas rochas e repousavam naquela cratera, tranquilas e límpidas como o céu sem nuvens. Nem mesmo eram suficientes para produzir alguma chuva. Todas as águas do mundo agora se resumiam em uma lagoa relativamente grande.

E o menino de arame estava bem ali em frente delas. Era a primeira vez que via algo diferente do resto. Enquanto tudo era seco, empoeirado, endurecido ou gosmento, aquilo não era. Enquanto tudo era sujo, escuro e sombrio, aquilo não era. Sentia a brisa fresca passear ao redor das águas, nem sinal daquele mormaço que sufocava o resto do mundo. O sol ali refletia, a luz alaranjada se irradiava, em vez de penumbrar. Extasiado sem saber que estava, o menino de arame contemplou a visão mais linda que existia na face da Terra. Não sabia que era a visão mais linda da face da Terra, não conhecia ainda conceito algum que fosse. Sabia, no entanto, que aquilo que sentia era diferente do que sentira antes. E devagar constituía em si os opostos que haviam no mundo e formavam os princípios todos que resultariam (futuramente?) em conceitos.

O menino de arame agachou-se à margem, pois quis tocar a água. O que aconteceria se encostasse naquilo que era tão diferente? Não hesitou muito, visto que acostumara-se a tocar as coisas que estavam ao seu alcance. Ainda não sabia o que era medo. Então, mergulhou ali, com algum cuidado de primeira vez, o que poderia ser chamado de um dedo. Mergulhou seu dedo na água e sentiu tudo diferente, sensação diferente de tudo o que já experimentara antes. Não saberia descrever com precisão o que ou como sentia, mas havia-se em certezas de que não quereria mais sair dali de perto daquela fonte de sensações tão diversas do comum. Nem seco, nem quente, nem sufocante, nem desagradável de forma alguma. Como explicar coisa assim?

Agora confiante, mergulhou a mão inteira e o braço também, ambas e ambos. Assim permaneceu por muito tempo, apenas sentindo. Depois sentou-se no chão de cascalho grosso e foi a vez de suas pernas sentirem, por muito tempo. O menino de arame tinha pressa nenhuma, nem sabia o que era tempo. Sentia e sentia a água em seus membros. Molhava o que chamariam de rosto, jogava um pouco na barriga e no dorso. Refrescava-se sem saber que era esse o verbo para o que fazia.

Até que teve vontade de jogar-se inteiro ali dentro daquela lagoa fresca e tão boa de sensações. Por que não havia pensado isso antes? Como distraíra-se e contentara-se tanto com pequenos experimentos sensitivos em vez de simplesmente sentir tudo de uma vez só e por todas? Assim pensou e logo agiu: caminhou para dentro da lagoa e aguou-se inteiro, submergindo até que o líquido encobrisse sua cabeça. Por muito tempo ali ficou, apenas sentindo. (Sentindo-se?)

Lá dentro, no fundo da lagoa, o menino de arame sentia seu corpo todo impregnar-se da água, como se ela invadisse as entranhas que ele nem mesmo havia em si. Seu corpo inteiro quase que a respirava. E o menino de arame já pensava-se incapaz de um dia sair dali. Aliás, nem mesmo queria pensar em coisa assim. Dentro da lagoa era onde se encontrava. Dentro da lagoa era onde se encontrara. Dentro da lagoa era onde sempre se encontraria.


sexta-feira, 3 de abril de 2009

Conto de Fadas


A princesa tinha duas borboletas azuis no lugar das pupilas. Havia muitos pretendentes desejosos de cortejá-la, mas eles todos demonstravam o desejo maior de extirpar-lhe as borboletas dos olhos. Um dia, cansada de sentir suas borboletas em risco, fugiu do castelo e se perdeu na floresta. Somente a princesa sabia dos temores e angústias que sentia enquanto perambulava, sozinha com as borboletas dentro de seus olhos, por aqueles lugares. Por muito tempo ficou perdida e chegou a pensar que morreria por ali, desfavorecida de alimentos saudáveis ou devorada por bicho qualquer.

Quando nem mais esperava por coisa qualquer que fosse boa em sua vida, ouviu o eco de uma voz rude que entoava belas canções em algum lugar no interior da floresta. Desacreditada de que pudesse haver perigo em tal atitude, caminhou com pressa em direção que pensava originar aquela voz, feliz que estava por ouvir algo tão lindo depois de tantos dias perdida e sozinha naquela floresta densa, escura e fria. Não encontrando o dono dela, entretanto, pôs-se a dançar com a alegria de uma criança e com a leveza de uma borboleta.

Tão entretida estava que nem reparou no ogro que se aproximava. E, quando o viu, percebendo que era ele o dono da voz que a embalava, continuou dançando, com maior entusiasmo, posto que se lembrara de histórias fantásticas entre princesas e outros seres anfíbios ou metamorfoseados em monstros. Sabia que bastava um beijo sincero para acabar com o feitiço e trazer de volta o príncipe aprisionado dentro daquele corpo estranho.

O ogro cantava e a princesa dançava, ambos se olhando nos olhos, ambos se aproximando lentamente e já sentindo algo totalmente novo e absurdo, mágico e sublime, indescritível e inexplicável – mas irremediável –, acontecendo entre eles. Cativavam-se.

E quando o beijo aconteceu, o ogro não virou príncipe, como todos esperavam. Em vez disso, nasceram asas na princesa – asas enormes, coloridas e delicadas. Asas de borboleta.

Sem entender direito o que acontecia, olhou para o ogro e as borboletas dos olhos dela esvoaçaram numa pergunta que somente a ele poderia ser dirigida. Em resposta, o ogro estendeu as mãos e segurou as dela – e nos olhos dele as borboletas se viram refletidas.

E foi então que a princesa entendeu que ambos voariam juntos por lugares desconhecidos cuja existência nem precisava ser descrita, num tempo que nem carecia de marcação qualquer - pois que, para eles, única coisa que importava agora era cuidar de suas borboletas...


quarta-feira, 1 de abril de 2009

Namoro


Quente. Era assim que se sentia quando a grandeza dele se mostrava por debaixo dos panos. Sabia da desnecessidade de línguas enroscadas para que as formas se enaltecessem dele. Bastavam palavras algumas – as certas – e mais um olhar disfarçado de sorriso des-inocente. O sorriso gêmeo acontecia junto com a re-significação das formas e a quentura era somente a conseqüência inevitável que Hellah mesma provocava. Os poros aquecidos – de ambos – sentiam sufoco difícil de ser indesejável: estofavam-se na desesperada tentativa de sugar um vento que nem existia.

Aí sim, ficava impossível que não se grudassem com bocas famintas – como se saliva fosse água fresca para esfriar o calor da pele ou matar a sede do instinto. Furiosos, era assim que se tornavam, loucos de desejo. Quanto mais suor escapava em fuga da temperatura que só aumentava, mais forte era o abraço que se davam, mais perto era o aperto que trocavam. Dessa forma, viravam desbravadores de corpos, descobridores de pontos, destruidores de pecados, desfazedores de dores quaisquer que pudessem ocupar os espaços que usavam em prol de seu bel-prazer.

Então, Hellah já nem sabia mais que parte da indecência lhe cabia, que parte era presente dele, que lado de conivência cada um tomava para si ou implorava para o outro. Enroscavam-se, enrascados em panos que precisavam ser despidos. Agiam juntos, num tipo de luta consigo mesmos em que adversários não cabiam, mas somente a busca de resultados deleitosos e comuns, ainda que individuais e específicos. A euforia de uma era a energia do outro; a alegria do outro era sincronia para Hellah.

Quando o grau máximo de calor parecia insustentável, única alternativa era mergulharem um no outro, lambuzados que já estavam em seus próprios líquidos trocados. Nessas horas, nem havia mais palavras que justificassem constrangimentos alguns ou proibissem fantasias incomuns. Os sons possíveis eram somente aqueles que propagavam o concerto harmonioso dos movimentos voluptuosos e contribuíam para manter a temperatura em nível alto e subindo. Ambos – Hellah e ele – não conheciam limites para suas vontades: não havia regras para o amor, somente exceções.

Em tempo não tão curto que não fosse suficiente e nem tão longo que deixasse de ser envolvente, ambos descobriam – sempre juntos, sincrônicos – que o calor poderia ser muito maior do que o que parecia ser insustentável, mas de maneira alguma desejavam que não fosse exatamente assim. Pelo contrário, sempre, nessas horas, conseguiam se grudar ainda mais, como se tentassem somar-se em calores para sentir o máximo possível daquilo tudo. Era forte o que sentiam, quase que os obrigava a gritar para evitar que explodissem. O ápice.

Depois o vértice, o retorno do termômetro ao nível que se julgava comum. Tudo muito lento, gradual, desde a intensidade entre lábios e línguas até o descolamento dos corpos. Era preciso evitar o choque térmico, por isso aproveitavam-se enquanto o aquecimento provocado não arrefecia – como se aproveita o calor da fogueira enquanto ainda há brasas nas cinzas.

Era sempre assim e era sempre bom – estúrdio, estupendo, assombroso –, por isso não desejavam morrer de amores, embora soubessem da grande desvantagem em viver sem amar. O que queriam era viver em amores, manter a inconstância das temperaturas e sentir-se em altos e baixos de deleites. Em palavras outras, ambos – Hellah e ele – mal podiam esperar para começar e terminar e começar de novo o tudo outra vez.


segunda-feira, 30 de março de 2009

Luzes e Asas


Uma criança mantém fechados os olhos para evitar a existência cheia de sombras. Única luz possível em sua vida é a descoberta das palavras, que tudo são capazes de criar - até mesmo asas!

video


Vídeo by Lacerda: lacerdacharges.blogspot.com


sexta-feira, 27 de março de 2009

Causa e Efeito de Ser


Desatenção demais, o que era. Sempre haveria de ser esse o motivo. Colocar-se toda vez em posição de levar rasteira e, depois de estatelar-se em terra, prostrar-se de cara e coração, sentir o destrambelho completo, procurar de onde é que teria vindo a perna que derrubara.

Tudo o que acontece com quem quer que seja é de sua inteira responsabilidade. Se alguém decidir pelo sim ou pelo não, houve o arbítrio, portanto, há a responsabilidade e ela é de quem fez a escolha. Mesmo se o alguém decidir pela neutralidade, nem sim nem não, é também uma escolha, é arbítrio praticado, é, portanto, responsabilidade dele.

Em vão procurar culpados pelas graças, desgraças ou sem-graças que lhe acontecem, pois que, em algum momento, consciente ou não, o alguém fez suas escolhas – e delas advêm as consequências todas que possam ser ruins ou boas.

Todos estão condenados à liberdade da escolha. É a única prisão que de fato existe. Entender o arbítrio é agir atento ao próprio destino. Um singelo bater de asas em ambientes propícios pode criar inesquecíveis tempestades em lado inverso de espirais do espaço-e-tempo.

Todos os seres estão condenados às asas da borboleta. Falta apenas o desejo de deixar de ser lagartas - e a coragem para desafiar o casulo...


quarta-feira, 25 de março de 2009

Sessyllya e a Felicidade Alheia


De quando em quando, Sessyllya sentia que todo tipo de borboleta lhe (per)seguia. Como quando palavras e imagens cheias de asas se lhe apareciam sem que ela nem tivesse procurado. Veja-se como são as coisas: Sessyllya teria ficado feliz por si mesma se tivesse sido capaz de inventar as palavras e desenhar as imagens que as ilustram nessa mensagem aí abaixo, que lhe surgiu aos olhos por "mero acaso":




segunda-feira, 23 de março de 2009

De 5 em 5


Após horas e horas esmolando pelas ruas de uma cidade grande qualquer, o homem conseguiu arrecadar somente 1 real e 95 centavos da bondade das pessoas. Achou que era pouco demais pelo trabalho que tinha – de andar tanto e ter que se sujeitar à condição humilhante de pedição.

Sentou-se num banco de praça e matutou por muito tempo, em busca de solução para seu dilema. Não pretendia procurar trabalho, também não gostava da ideia de se apossar do que fosse alheio, mas não podia viver de esmolas que lhe rendiam tão pouco. Tantas moedas no bolso e elas nem mesmo somavam 2 reais. Se tivesse os 2 reais inteiros, poderia trocar as moedas por uma nota, que não tilintaria em seus bolsos em barulho tão mesquinho de moedas que se chocam.

Foi daí que surgiu a brilhante ideia na mente do homem. Entrou no primeiro boteco que viu pela frente e pediu:

— Seu moço, tenho aqui 95 centavos em moeda e ainda muito chão há que se andar pela frente. Sinto até medo de alguma delas se perder por esses caminhos sem eu nem ter tempo de perceber. Será que o senhor podia arredondar pra mim e trocar esses 95 centavos em moeda por 1 real em nota?!

Por achar honesto o pedinte e talvez também para se livrar daquela criatura em seu estabelecimento, o comerciante topou a troca, de modo que o plano acabava de obter resultado positivo.

No boteco seguinte, o homem pegou mais 95 centavos das outras moedas que havia conseguido e aplicou o mesmo golpe, obtendo resultado idêntico ao anterior. Depois trocou os 2 reais em notas por moedas e fez novas tentativas de trocá-las por notas em arredondamento. Em nenhuma delas responderam-lhe com negativas. Segundo seus cálculos, portanto, acabava de ganhar a vida, literalmente (?!).

Daí em diante, tudo viraram flores em vida dele. Se jamais fora ambicioso ou materialista, não seria agora que começaria a alimentar sonhos de riqueza. Não precisava de bens quaisquer que fossem, não precisava de lazer nem de cultura. Do que precisava era apenas comida, algumas roupas em condições razoáveis de uso e passagens de ônibus. Sim, porque é muito lógico que ele não poderia aplicar o golpe repetidas vezes nos mesmos lugares, sob o risco de desconfiarem e cortarem-lhe os rendimentos. Assim, embora conseguisse arrecadar pouco dinheiro por dia, era ganho garantido e suficiente para manter a vida como ela sempre havia sido.

Com o tempo, variou e aperfeiçoou sua atividade. Não importava quanto em moedas pedia para ser trocado por nota, o importante era o arredondamento de 5 centavos. Em tempos de maior ousadia, chegava a pedir que completassem 10 ou mesmo 15 centavos, conforme a situação favorecesse. Chegava a uma cidade qualquer, perambulava de estabelecimento a outro trocando seus dinheiros e, ao fim do dia - ou dos dias, dependendo do tamanho da cidade -, pegava um ônibus dos mais baratos e seguia o destino que ele mesmo havia traçado.

Décadas se passaram e o homem, já idoso, guardava o segredo com todo o cuidado. Ninguém sabia quem era, de onde vinha ou o que fazia - e ele seria capaz de viver mil anos assim. O velhinho, enrugado e caquético, sabia-se o mais esperto e perseverante dos homens, tão simples e confortável em sua vida de ser feliz com tão pouco.


sexta-feira, 20 de março de 2009

O Gato e a Borboleta


Quando ela nasceu, estranho ser de consciência adormecida e feições ainda mal definidas, ele já era ágil, esperto e cheio de manhas no enfrentar a vida.

Enquanto a curiosidade o levava a observar e analisar diariamente os hábitos daquela criatura primitiva e quase abominável, ela parecia nem se dar conta de sua própria existência, tão preocupada estava em apenas prover-se de substâncias nutritivas. Nem sequer imaginava que também era fundamental camuflar-se dos predadores. Se a natureza não tivesse se encarregado de criá-la em tons e nuances especiais que a tornavam parte das folhas, talvez esta história nem pudesse ser contada.

Certo dia, o felino se viu diante de uma novidade sem precedentes: aquele bicho asqueroso, ultimamente objeto de seus estudos, fechava-se em si mesmo, numa casca até que bastante esmerada. E, o que era mais curioso, parecia ter se dado conta do sentido de sua vida, parecia mais altivo e objetivo em seus atos. Como era possível? Teria espaço lá dentro para o bicho viver? Ou seria sua forma de morrer? Pela imobilidade do casulo recém acabado, a segunda opção parecia a mais verdadeira, mas por algum motivo inexplicável o bichano sentia que ainda não chegara o momento de perder seu novo brinquedo.

Resistiu à tentação inicial de tocar aquela espécie de tumba e limitou-se a gastar mais tempo do seu dia na observação de fenômeno tão inusitado. Logo, porém, movido pela curiosidade pessoal e investigativa, viu-se obrigado ao gesto que, no mínimo, aliviaria suas dúvidas: tocou de leve o casulo, como se o acariciasse. E foi então que, com surpresa e alegria, viu a pupa se mexer em suave movimento ondulante. Constatou, assim, que o bichinho lá dentro ainda estava vivo. E não pôde compreender, no momento, o porquê de se sentir tão contente por isso.

Os dias se passavam lentos para ambos. O felino cochilava ao lado do casulo e lá permanecia durante grande parte de seu tempo desperto. Pressentia que mais alguma surpresa surgiria dali e ansiava para que isso acontecesse logo. A criatura encerrada lá dentro, por sua vez, sentia as transformações pelas quais passava e começava a perceber a seriedade da vida. Embora na escuridão de sua casca, sabia que outro bicho a observava lá fora e temia que ele a devorasse assim que saísse do casulo. Sentia suas carícias de vez em quando e não conseguia se fingir de morta: o toque do bicho predador provocava-lhe cócegas. Já estava em tormentos com a dúvida: queria sair logo da casca, ver-se transformada, conhecer seu destino; mas se fosse para morrer antes mesmo de conferir o resultado da metamorfose, preferia ficar ali dentro para sempre.

A criatura do casulo mal sabia que o felino era seu maior protetor: o bichano afugentara vários passarinhos que tentaram molestá-la e outros bichos cujo intuito era similar. Agora, ele se sentia responsável por aquela estranha e surpreendente forma de vida que acompanhava desde muito tempo, desde o início. Queria ver o que surgiria dali e, para isso, precisava garantir que ela sobrevivesse.

A metamorfose pareceu incrivelmente lenta: ambos concordariam com isso. O felino, por estar ansioso demais em suas expectativas de observador. A criatura do casulo, por estar na escuridão e saber que seu período de vida já estava pela metade.

E eis que chegou o dia em que a criatura saiu do casulo. O bichano estava lá, a postos, e presenciou o espetáculo todo. Com que dificuldade a pobre criatura parecia lutar para se libertar da tumba em que se encerrava! Apesar da vontade quase incontrolável de ajudá-la a se livrar daquela casca que tanto sofrimento parecia causar, o gracioso felino apenas observou. Sentia que não poderia interferir. Sabia que suas patas eram grotescas demais para qualquer atuação naquela cena. Sabia que, por algum motivo, tinha que ser daquela maneira.

Assim, após uma eternidade, o gato pôde contemplar a linda borboleta azul recém liberta do casulo. Linda, graciosa, suave, sublime! Agora que sentia as asas secas e prontas para o voo, a borboleta estava segura o suficiente para encarar o bicho predador. E foi com certa surpresa que constatou a beleza e a graciosidade do felino. Não, aquele não poderia ser um bicho predador, de forma alguma. Não foi somente a graça harmoniosa das feições do gato que lhe deu essa certeza, visto que muitos predadores se disfarçavam assim justamente para atrair as presas. Havia, no entanto, algo inexplicável, uma energia forte que emanava do felino e garantia à borboleta que ele era um amigo simpático e gentil. Pressentiu que o bichano não representava perigo e imediatamente se lembrou de suas carícias que lhe provocavam cócegas. Ah! Aquelas carícias demonstravam carinho - e não ameaça. Como fora tola em temer bicho tão lindo e atencioso!

Como prova de amizade e para retribuir os carinhos do gato, a borboleta arriscou seu primeiro voo e pousou-lhe delicadamente no nariz. O bichano sentiu uma felicidade tão intensa que pensou ser capaz de explodir a qualquer momento. O que aconteceu de mais parecido com uma explosão, no entanto, foi o espirro que o pó liberado pelas escamas das asas da borboleta causou ao felino. Foi a primeira crise de gargalhada que ambos tiveram juntos. E a amizade incondicional entre os dois bichos acabava de ser selada. E somente aumentava a cada dia, a cada hora, a cada momento.

Amavam-se, sem dúvida. Mas amavam-se de amores diferentes.

Ele queria abraçá-la, beijá-la, tocá-la, senti-la fisicamente perto... Queria envolvê-la com as mãos, experimentar o gosto da cor tão interessante que ela tinha, acariciar suas asas macias e sentir a suavidade delas... Amava a beleza, a delicadeza, a leveza da borboleta... Admirava a capacidade de transformação que a amiga havia demonstrado. Não se cansava de contemplá-la, de usar todos os seus sentidos para aproveitar ao máximo a existência sublime que ela representava.

A borboleta, por sua vez, queria brincar, esvoaçar as belas asas em torno do amigo, mostrar-lhe as incríveis danças aéreas que criava, voar bem alto e ver o gatinho correndo lá embaixo para acompanhá-la, trazer a ele o cheiro das flores que visitava. Amava o gato por ele ser corajoso, forte, grande e ao mesmo tempo gracioso e esperto – o mais inteligente de todos os animais que conhecera em sua curta existência.

O pobre felino compreendia o instinto da borboleta, por isso nunca se ressentiu por ela sempre se manter afastada dele. Todas as brincadeiras da amiga implicavam certa distância entre os dois e ele sabia que essa distância era necessária. Logo no começo, constatou que era impossível tocá-la sem machucá-la: as unhas felinas arranhavam as asas da borboleta, as lambidas deformavam-lhe o voo, certa vez quase a matou ao apertá-la num abraço. Amava-a mais a cada dia, ansiava fisicamente por tê-la perto de si, sofria de vontade de tocá-la. Contentava-se, porém, em participar das brincadeiras cautelosas da amiga, satisfazendo-lhe o capricho de ser apenas um espectador de seu suave e sublime balé aéreo. Amava a borboleta e queria enchê-la de tudo o que ela quisesse.

A borboleta jamais imaginou que fosse amada dessa maneira. Nunca percebeu o sofrimento que suas brincadeiras – o exibir a graça de suas danças – causavam ao amigo. Nem mesmo chegou a desconfiar da vontade que ele tinha de abraçá-la, beijá-la e tocá-la. Até já havia se esquecido dos acidentes que aconteceram logo no começo, quando ele a machucou sem querer. Na ocasião, pensou que ele também estava apenas brincando. Amava o gato e queria enchê-lo de beleza e divertimento. Pensava ser a melhor amiga do mundo, por proporcionar ao felino o espetáculo sublime do voo e das cores de suas asas.

Assim foi, até que chegou o dia em que o gato não pôde mais se controlar diante daquele espetáculo de asas. Talvez tenha sido na época em que a borboleta começava a procurar outro de sua espécie. A amiga aprendia novas coreografias a cada dia e se tornava ainda mais bela e irresistível. Para ele, já não bastava ver a dança da borboleta: ele tinha muitos outros sentidos e queria – precisava – usá-los! Tinha o tato para tocar, o olfato para cheirar, a língua para provar... Não queria machucá-la, é lógico que não, afinal, ele a amava intensamente e cada vez mais! Queria apenas senti-la de verdade, dar carinho a ela e receber seu toque suave como retribuição. Não queria machucá-la, de forma alguma... Não queria e tentaria ser delicado e gentil, para que nada de mau acontecesse à amada.

Quando ela apareceu, esvoaçando-se numa dança em torno da cabeça do bichano, ele estendeu a pata para capturá-la. A amiga escapou, pensando ser mais uma das inúmeras brincadeiras que ele inventava para diverti-la. O felino, no entanto, voltou a estender a pata, estendeu de novo e mais uma vez, depois passou a usar as duas e em intervalos cada vez menores. Logo suas garras afiadas já estavam de fora sem que ele mesmo percebesse, o instinto sobressaindo-se à intenção inicial de apenas sentir sua amada mais de perto. Em pouco tempo, as unhas agarravam-se às asas, dilacerando-as, e a borboleta se via presa entre as mãos do amigo, sem entender direito o que acontecia.

Ele a lambia com avidez, não se contendo de felicidade por, finalmente, ter a amada para si. Queria experimentar o gosto daquelas asas tão lindas e macias que tanto o enterneciam. Nem se dava conta de que terminava de destruí-las com sua saliva grossa. Nem se dava conta do quanto a amiga sofria.

Era tão gostoso sentir aquela criaturinha em suas patas, que não pôde resistir à vontade de envolvê-la como se a abraçasse com as mãos. A borboleta se contorcia, tentava escapar, previa o que poderia acontecer se o amigo calculasse mal a força do abraço. Surpreendeu-se ao constatar que suas asas já não serviriam mais ao propósito para o qual haviam sido feitas. O felino, cada vez mais afoito, envolveu a amada com força, como se faz quando a saudade é muito grande.

Foi nesse dia que, com o maior dos amores e a melhor das intenções, o gato acabou com a vida da linda borboleta azul.


quarta-feira, 18 de março de 2009

Releitura


Príncipe encantado é sapo desencantado. É preciso beijo de princesa para refazer o desfeitiço.

— Nunca pensei em pedir às fadas um conto pra mim. Não conheço príncipe encantado, desacredito dessa lenda. Mas o sapo que me acompanha é encantador. E tanto me basta para a felicidade ser pra sempre companhia em vida minha.

Tudo aconteceu por causa de um momento de distração entre eles, espécie de acidente entre as dimensões relativas do espaço e do tempo. Grave – o acidente –, mas com grandes riscos de sobrevivência. Era para ser assim, decerto que era, senão nem teria sido. Ou pode ser que ambos tenham apenas se perdido dos caminhos que lhes cabiam na existência e acabaram se encontrando um e outro. É provável que tenha sido assim. Ou não, já que a vida se adivinha a cada unidade de tempo passado – ou em cada presente recebido.

— Os passarinhos encantam as manhãs com seu canto de alegria pura. Coisa que o sapo me fala sem motivo e enche o ar de doçura. Queria que fosse assim todo dia, toda hora: tanta doçura a ponto de atrair abelhas!

Primeiro foi o cheiro que sentiram: sentiram-se. Ele a pressentiu de longe, forte ela era, diferente. Ela o sentiu doce e misterioso, quando já estava muito perto e não havia chances de escapar. Ele se enrijeceu. Ela toda amoleceu. Depois foram os olhos: azuis os dele – ou verdes?! –, sagazes os dela. Um átimo inesquecível, daqueles que resumem a história como se nem houvesse o supérfluo dela. Até que, no antes do de repente, uma palavra soou diferente, como se fora senha previamente combinada. E depois foi pior ainda: somente percebiam as palavras surgindo como quebra-cabeças desvendados, como enigmas destruídos ou mistérios desmontados. Senhas. Logo descobriram tudo, o futuro deles mesmos. Nem precisaram se tocar para adivinhar o resto. Sabiam o que aconteceria como se já houvesse acontecido. Sabiam. Sabiam-se. E fazia tempo a sabedoria deles.

— Dejá vu? Mais que isso. Já-visto, já-ouvido, já-lido, já-sentido, já-vivido, já-sabido. Coincidências muitas, várias, explícitas demais para serem relegadas ao plano da fantasia mística. Atração intensa, ligação cósmica foi o que nos uniu.

Coisa mais esquisita, isso sim. Talvez nem houvesse nome praquilo em língua qualquer, conhecida ou não. Talvez até nunca houvera coisa igual em lugar que fosse deste mundo. Tão forte o que os unia que custaram a acreditar que fosse possível, embora inevitável fosse o acontecer. Nada poderia explicar aquilo e, no entanto, acontecia. Nem haviam se tocado e o desastre já estava acontecido. Era palpável em cada um dos milhares de poros deles dois, em cada uma de suas células, em todos os pensamentos. Não precisavam se tocar para se sentirem beijados, acariciados, encaixados e saciados. Não precisavam se tocar, mas se tocaram – o que tornou em catástrofe íntegra o que antes era, apenas, desastre pressentido. Temporariamente saciados, sangue e baba juntos numa mistura que era, tão somente, inevitável e insuficiente, pois que ainda não era tempo de tanta força estar arrefecida. Antes o inverso. Reverso. A vontade, loucura para que acontecesse logo, para que acontecesse mais, para que acontecesse sempre.

— Não me entendo. Só agora parece que compreendo o existir em mim. Não sei de mais nada e sinto como se soubesse o tudo. Estou mais perdida em mim do que nunca pensei que seria e estou certa de que jamais estive tão perto de mim mesma. Tudo culpa do sapo que está comigo. Não dele propriamente, mas da maneira como me vejo e a ele e a tudo que me rodeia nele.

As possibilidades. O que aconteceria já sabiam. Mas como aconteceria? De que forma o futuro lhes daria aquilo de presente? E por quê, afinal?! Para quê?! Já sabiam: sabiam-se. Só não sabiam respostas que se dessem às dúvidas inesperadas, imprevistas. Ligação cósmica de algum tempo indefinido em espaço distante, mas sem clareza explícita para as pragmáticas da vida, as realidades presentes, as questões do agora. Teriam que deixar o tempo seguir seu caminho e se adivinhar nele.

— Porquês alguns seriam suficientes pra explicar aquilo. Explicar é uma forma de definir. Definir é limitar, de alguma forma. E limitar é desprezar a possibilidade de que seja eterno – ou infinito.

Tem história que começa invertida. Primeiro Hellah pensou que ele era doce demais para não ser encantado. Que não devia ser real, foi o que imaginou dentro de suas observações. Foi então que se tocaram e Hellah descobriu que ele era sapo.

— É sapo, estou dizendo. Dorme como bicho-preguiça, bebe como camelo, come como elefante, corre como cavalo, age como porco – em vários sentidos, nem todos absolutamente pejorativos. Tantos animais juntos só podem fazer do homem um sapo. Mas não deixa de ser doce e a doçura dele o faz encantador.

Era o que sentia, ele também descobrira outros detalhes dela. Imperfeições que harmonizavam o par, pressentidas desde o começo também. Algo que ia além de qualquer teoria cuja lógica fizesse o mínimo sentido. Impossível não concluir o óbvio: desde o início dos tempos e começo dos espaços, era nítido que haveria de acontecer algo com eles, entre eles, ao redor deles e por eles, apesar de coisa qualquer em que eles se transformassem – ou talvez por causa disso mesmo... Algo de muito íntegro e decisivo. Estavam marcados um e outro, um para o outro, ainda que o caso nem fosse definitivo, mas somente temporário enquanto durasse.

— Sapo encantador, o que vem sempre comigo, lado a lado. Muito doce ele é, embora seja sapo. Se eu fosse princesa, um beijo meu o faria príncipe. Mas sou anfíbia também. Se não tomo cuidado, é até capaz dele virar príncipe de verdade. Se ele não toma cuidado, quem vira princesa sou eu.


segunda-feira, 16 de março de 2009

Os Tigres


Era bela, era ágil, era forte e era a mais rara criatura daquele lugar, talvez de qualquer lugar, de todos os lugares. Era tigresa e tinha fome. Tinha uma fome tão grande que nem todas as presas do universo seriam capazes de saciar.

Mas, por estranhos instintos que sempre a dominaram, não se alimentava de carne. Por saber-se insaciável, não achava justo que outros animais perdessem a vida pra que tivesse somente algum prazer pequeno. Pensava que, se sua fome nunca acabava, não tinha o direito de acabar com a vida de ninguém, afinal, isso infringiria as sábias leis naturais que sempre organizaram a lógica da cadeia alimentar: animais carnívoros caçam para saciar sua fome. Então, ela, cuja fome era grande demais, evitava a convivência com os companheiros. Sabia-se controlada, mas preferia não arriscar a proximidade com eles, afinal, era como um vulcão contendo-se que, a qualquer movimento brusco de placas tectônicas desavisadas, poderia entrar em estado de fúria.

Era bela, ágil, forte, silenciosa e sozinha. E todos a admiravam e respeitavam muito por isso, embora se mantivessem distantes por não saberem direito como agir diante dela.

A tigresa se alimentava de sonhos e de sombras, e sua fome mais aumentava a cada dia. Quanto mais se alimentava, mais fome sentia.

Até que um dia a tigresa se cansou. Aquela vida escondida e faminta não fazia sentido algum. Então, decidiu caminhar sem destino, ir aonde seus passos a levassem. Foi uma longa jornada, no tempo e no espaço, a ponto da tigresa se cansar de novo. Jornada assim comprida também não tinha sentido algum, ainda menos por causa da fome que sempre crescia.

Foi então que ela resolveu gastar suas últimas forças numa corrida contra si mesma. Se ficar parada era ruim e caminhar não melhorava, então correria até desaparecer. As pernas ágeis responderam à sua vontade e ela logo sentiu a brisa se transformar em vento forte passando entre seu pelo. Correu tanto e tão rápido que pensou que era capaz de voar. E foi num arranco de maior velocidade que aconteceu a colisão.

Tempos depois, nenhum dos dois saberia dizer se haviam se passado segundos, dias ou anos, mas ambos retomaram a consciência e se encararam perplexos - eram espelho quase, tigresa e tigre, ambos silenciosos, sozinhos e, mais do que nunca, famintos.

Naquele momento, embora a fome deles fosse tão grande quanto o infinito, sentiam-se salvos. Devorariam um ao outro e achariam pouco, sempre tão pouco quanto o infinito jogado na imensidão do nada...


sexta-feira, 13 de março de 2009

Lucidez


Tal como borboleta, a menina gostava que a Lua iluminasse seus olhos quando era hora de adormecer e que o Sol aquecesse seu corpo quando a hora era de despertar.

Tal como borboleta, a menina gostava de alimentar-se com cheiro de flores e perfumar-se com os néctares todos que elas fabricavam – misturar-se às cores delas.

Tal como borboleta, a menina gostava de dançar pelos ares, leve e livre – linda!

Tal como borboleta, a menina mal se aguentava em espera tão grande que vivia – predestinada que sabia-se a adquirir asas. Bastava apenas que fosse capaz de conter-se até chegar o tempo de fechar-se em casulo. Por enquanto, havia que ter paciência grande, pois que ainda estava em fase de ser lagarta...


quarta-feira, 11 de março de 2009

Sessyllya em Linhas Tortas


A vida acontece numa estrada torta, esburacada, com acostamento e placas avariados, becos sem saída, atoleiros, mato alto nas margens. Ainda que o motorista seja afobado, aventureiro, irresponsável ou negligente, em trechos mais perigosos certamente terá alguma cautela – se não por si mesmo, que seja pela integridade do carro.

Se a estrada fosse reta, com pistas duplicadas e asfalto novo, bem sinalizada e com manutenções em dia, maioria dos motoristas engataria a quinta marcha e tão somente tentaria vencer os limites do velocímetro. Nem mesmo olharia a paisagem lá fora. O máximo de desafio que haveria seriam as tentadoras ultrapassagens.

Assim, Sessyllya compreendia-se em vida. Em termos de relatividade, achava fácil dirigir em estrada reta e boa – mas não é em pistas assim que os bons motoristas se fazem.


segunda-feira, 9 de março de 2009

Cansaço


Acordou atrasada mais uma vez.

Por mais que desejasse e se esforçasse, parecia-lhe impossível imaginar que em algum dia de sua vida conseguiria despertar com o alarme do rádio relógio. Algo muito mais irritante que aquele barulho, muito mais enérgico que qualquer grito dos pais, muito mais rígido que as sacudidas que lhe davam, muito mais forte do que ela, muito mais impiedoso que o próprio sono, a impedia. Sentia-se incomensuravelmente cansada, desanimada, esgotada.

O alarme disparava todos os dias, pontualmente às 7h da manhã. Ela se levantava, batia a mão com estrondo no aparelho, desligando-o, e voltava para a cama. Quando enfim acordava, quatro ou cinco horas depois, não se lembrava dessa sequência de acontecimentos. Como era possível levantar, desligar o alarme e voltar para a cama sem perceber, sem se lembrar depois? Seria sonâmbula? Os pais a chamavam, batiam na porta... Às vezes entravam no quarto e sacudiam a garota para lá e para cá, mas da mesma maneira ela não despertava, não se lembrava do que havia acontecido. Apenas continuava sentindo o cansaço de sempre, por mais que dormisse.

Passou a estudar à noite, visto que perdera dois anos na escola devido aos constantes atrasos. Era inteligente e estudiosa, mas chegava sempre depois do recreio, quando chegava. Era simpática e possuía certa facilidade para encontrar empregos bons, mas incrível dificuldade para mantê-los. Nos últimos três meses, passara por cinco empresas diferentes e a atual chefe já a encarava de maneira hostil.

Toda a sua vida estava se dissolvendo porque não conseguia despertar do sono como qualquer pessoa normal. Quando dormia, parece que apagava sua existência, sua consciência. Quando estava acordada, sentia apenas cansaço. Um cansaço imenso, descomunal, inimaginável. Dormir descansava...

Ouviu a mãe chegando do trabalho e reclamando da bagunça da casa, da louça suja na pia, do almoço por fazer e da filha que dormia tranquilamente até uma hora daquelas. Menina irresponsável! Se não queria estudar nem trabalhar, ao menos que ajudasse a mãe! O marido, que era homem, a ajudava, mas a filha não movia uma palha.

A garota ouvia as lamentações da mãe e sentia-se ainda mais cansada daquilo tudo. Diferente do que os pais pensavam, ela não dormia tranquilamente. Na verdade, parecia-lhe que não dormia, mas que visitava o reino da morte a cada noite. Não se lembrava de absolutamente coisa alguma que houvesse acontecido durante o sono, mas sentia-se, a cada novo dia, mais cansada, desanimada e esgotada do que no dia anterior.

Ouviu o telefone tocar e a mãe conversar demoradamente com o marido, que há anos não almoçava em casa. Ambos lamentavam o triste fardo que era tê-la como filha. “É uma menina boa”, dizia a mãe, “inteligente, educada... mas tão preguiçosa...”. O pai a defendia, sabia disso, mas no fundo também sabia que ele começava a se decepcionar profundamente com ela. Tempos depois, o telefone tocou de novo. Pelo tom da mãe, entendeu que era a chefe, dizendo que contratara uma nova funcionária. As reclamações da mãe tomaram novo fôlego.

O cansaço se tornou ainda mais pesado, denso, concreto... De onde viria aquilo? Por que se sentia assim? Não acreditava ser capaz de suportar tamanho esgotamento físico e mental. Queria dormir. Precisava. Urgia!

Por isso entregou-se, enfim. Dormiu profundamente. Não lutou mais contra os seres do mundo do sono. E dessa vez, ninguém jamais conseguiu acordá-la novamente.


sexta-feira, 6 de março de 2009

A Invasão das Borboletas


Começou como é típico em vésperas de qualquer primavera de cidadezinha de interior: alfaces e couves infestadas de repente com ovinhos de borboleta. Alguns poucos cidadãos mais atentos, entretanto, notaram que este ano parecia haver mais ovos do que o comum – não importava quantos fossem esmagados, sempre havia mais e mais deles nas folhas das hortaliças.

Algum tempo depois, eram as lagartas que empesteavam as singelas plantações de subsistência. Muitas pessoas tiveram a sensação de que havia lagartas demais este ano, muito mais do que jamais haviam visto. Quanto mais matavam os bichos, mais certeza tinham de que havia lagarta demais – tantas como se fosse impossível (ou inútil?) exterminá-las. Pela primeira vez desde que se lembravam, alfaces e couves tornaram-se itens raros em suas refeições.

Quando os casulos, enfim, apareceram grudados aos montes em muros, paredes, ripas, troncos e inúmeros outros lugares propícios, a população daquela cidade levou susto grande. De início, evitavam escorar-se em lugar qualquer que fosse, para não esmagar as pupas. Locomoviam-se com cautela para não pisá-las. Os adultos recomendavam às crianças que deixassem em paz as ninfas.

Com o tempo, porém, tornou-se incômoda tal situação. Quase não havia mais lugar livre daqueles bichos encasulados. Cantos, canos, corrimões – até nos automóveis eles grudavam-se. Bancos, buracos no asfalto, lâmpadas, outdoors – tudo tapado por eles. A cidade inteira infestava-se.

E, esmagados inadvertidamente diante da impossibilidade de serem preservados, tantos que eram, os casulos tornavam-se massa gosmenta e repugnante espalhada por todos os lugares. Em pouco tempo, já as pessoas precisavam desocupar lugares, pois que precisavam agir e prosseguir em suas vidas, daí que varriam calçadas e muros e enchiam latas e mais latas de casulos, bem como incentivavam as crianças a brincarem de exterminar os bichos. E, ainda muito embora tenha sido assim, o número deles parecia jamais diminuir – antes o oposto, parecia sempre aumentar.

Até que houve o dia em que as primeiras borboletas nasceram. E logo as outras também. Em poucos dias, a quantidade de asas em voo por aquelas plagas era tamanha que ninguém, estando são de consciência, se aventurava a sair de casa. As borboletas, em número infinito, eram bem capazes de derrubar qualquer cidadão, mesmo os mais fortes, em atitude de arrastão; eram capazes de entupir escapamentos de carros e tubulações de ar condicionados; eram bem capazes de pousar em alimentos e cair goela abaixo sem se darem por notadas.

Não demorou muito até que portas e janelas precisassem ser e permanecer fechadas – e até as frestas houveram que ser vedadas, tanto pó colorido de asa de borboleta pairava nos ares. Bichos predadores sentiram-se atraídos por tanta fartura e já migravam para lá. A prefeitura e a secretaria responsável tentaram uma ação de envenenamento por fumacê. Em vão, pois que, se muitas borboletas morriam, milhares de outras nasciam no mesmo dia. Alguns habitantes, mais corajosos, tentaram armadilhas, enquanto as crianças se deliciavam com brincadeiras de tiro ao alvo, tapas mortíferos no ar ou apostas de quem capturava mais bichos. Tudo em vão, posto que, quanto mais matavam borboletas, mais delas surgiam para repor o exército alado e colorido. O caos instalou-se na pequena cidade e já ninguém sabia mais o que fazer para solver a questão.

E foi então que, numa manhã ensombrecida pelas asas que, de tantas que eram, dificultavam a irradiação natural do sol, uma menina adolescida sentiu-se sufocada dentro do quarto que era o seu. Sem mais poder conter-se, abriu a janela e subiu no parapeito. Ondas e mais ondas de borboletas invadiram seus aposentos, fizeram-na desequilibrar e cair da janela. Antes que tocasse o chão, porém, um tapete voador composto por borboletas multicores a fez flutuar.

A menina abriu os braços e fechou os olhos – deixou-se levar por aquelas asas. E as borboletas a levaram para fora, para o alto, tão alto que, quanto a menina quis abrir os olhos, nada mais viu além do céu acima de si e uma nuvem gigantesca de borboletas abaixo.

Estonteante de alegria, ela se jogou do tapete e foi recebida pelas amigas lá embaixo, se jogou de novo e foi salva de novo, e mais uma vez e tanto que quase sentiu que voava. Todas as borboletas se reuniram num ponto do céu para brincar com a menina. E alguém, lá embaixo, na cidade, viu aquilo e mostrou pros outros, e logo a cidade inteira parou para contemplar o espetáculo de bailarinas cheias de asas e menina no meio delas.

Somente ao fim do dia foi que as borboletas levaram a amiga de volta para o chão. E todos os moradores da cidade as receberam com flores e sorrisos. E, sem entender o que acontecia, viram as borboletas irem embora, todas juntas, para lugar qualquer do mundo, bem longe dali. E cada um que ali estava desejou com muita sinceritude que elas voltassem no dia seguinte, o que – obviamente – não aconteceu.

As borboletas jamais voltariam àquela cidade. Ainda tinham muitas outras para ensinar...


quarta-feira, 4 de março de 2009

Enredo Carente de Cenários


Ele apareceu sem que Hellah tivesse tempo de se preparar para a espera. De repente, apareceu em vida dela. Ele mesmo não poderia imaginar que os caminhos aparentemente aleatórios que trilhava o levariam à companhia tão aconchegante que era a dela. Nada que houvesse avisado ambos da possibilidade que lhes surpreenderia – o remédio para um certo tipo de vazio que somente pode preencher aquelas almas mais sensíveis. Almas deles – logo se reconheceram com carinhos e semelhanças de tempos remotos, muito embora apenas se conhecessem agora. Era o que Hellah gostava de pensar, que ambos possuíam gêmeos os sentimentos. Jamais, todavia, poderia afirmar semelhante enunciado, posto que havia o perigo de se encontrar em grande equívoco.

Ela se alegrava de jeito diferente agora, como nem se sentia há muito tempo. Desconfiava de possibilidades há muito esquecidas – pode ser que ele as trouxesse de volta, mesmo que somente algumas poucas. Qual é distância mínima possível entre duas almas sozinhas? Qual a lonjura máxima para ainda se considerarem próximas? Alegrias separadas por distância grande têm o nome de saudade, exceto quando não são vividas conjuntamente, porque aí fica sendo curiosidade – ou, talvez, desejo.

Sentia já com força muito branda a banda tristonha de sua existência, aquela que nem mesmo imaginava que origem pudesse ter. Tristeza que dói sem motivo ganha nome de solidão. Amiga de horas já muito longas, era – até então – a solidão que cumpria, dedicada, o papel de companhia para Hellah. Somente já não era assim tão bem-vinda pelo risco de provocar muito o que fosse o adormecimento da razão. Se razão fugia em sonos – seus sonhos –, pode ser que a loucura encontrasse leito aquecido para se abrigar – virava doença grave.

Com que tipo de remédio cura-se da razão? Que força de veneno arrefece a loucura? Solidão é veneno medicinal ou remédio venenoso? Presença dele começava a provocar confusões risonhas em pensamentos dela: já nem sabia mais limitar o que era razão, o que era solidão, que parte ficava sendo loucura ou outra coisa qualquer.

Assim, Hellah ficava feliz com o remédio que adivinhava ter vindo com ele. Já havia se sentido assim outras vezes, embora porém tivesse a impressão de somente agora ter sido agraciada com tamanha satisfação de (con)vivências. Hellah sabia que começava tudo de novo, como se antes jamais houvesse acontecido. Estava apaixonada. Como se fosse iniciante, apaixonara-se. Sentia tudo com a intensidade de primeira vez. Apaixonava-se. Curava-se de uma enfermidade sofrida e adquiria os sofreres de uma outra enfermidade mais alentada em sorrisos – assim como certos remédios trocam o mal por um efeito colateral. Desconfiava de que seria assim, posto que conhecia causas e sintomas dessa outra espécie de doença – a paixão – para a qual só há um único remédio – a solidão. Firme-se no entendido: uma doença pode ser que exclua a outra. Pode ser que sim...

Que tanto de delicadeza fora suficiente para remediar a falta de cor que há muito enfeitava sua vida? A dose do que sentia parecia ser forte demais para não ser coisa alguma além do veneno mais doce que já provara. Seria a paixão veneno disfarçado de doçura? Ou seria o avesso disso? Imaginava como é que ele conseguia acender uma chama que nem havia pavios ou combustível ou lenha por perto, mas também pensava que o infinito daquilo tudo poderia nem durar o suficiente para que se convencesse da eternidade que há em tudo o que é mortal.

De onde ele surgira? Por que entrava em sua vida em momento de surpresa, sem prévio aviso? Como teria feito fogo, se nem mesmo havia distância pequena entre a vontade de cura e as possibilidades de intoxicação? Seria que tudo não passava de ilusões dentro dela? Para nada Hellah poderia ter as respostas, a não ser que coragem houvesse para fazer as perguntas. Tudo que sabia dele não passava da fábula mais louca que sua razão havia sido capaz de projetar. Orientava-se por uma imagem dele que ela mesma havia desenhado, com todas as riquezas de detalhes que somente a pureza de uma loucura latente poderia racionalizar.

E agora, que fazer sabendo-se personagem desse sonho confuso que parecia ser sua morada de sempre? Não sabia nem queria saber – e seria capaz de odiar até o fim dos tempos alguém que lhe desse conselhos quaisquer. Se agora entendia-se personagem de uma história absurda, somente desejava que o caminho até o epílogo lhe fosse literariamente agradável – posto que os romances existiam apenas para presentear com toques de infinitude todas aquelas histórias que se consumissem de algum potencial de beleza.


segunda-feira, 2 de março de 2009

O Menino de Arame


Quando a raça humana há muito não mais existia sobre a face da Terra e todas as formas de vida conhecidas já haviam perecido por razões previsíveis e de maneiras irremediáveis, o menino de arame era mais um entre aqueles que existiam naqueles tempos.

Eram poucos, eram os primeiros. Havia raças várias, cada uma formando-se a partir de elementos inorgânicos que o planeta disponibilizava em seu seio. A Terra, agora, era útero que gerava seres inimagináveis mesmo à mente mais criativa e livre dentre a dos humanos de outrora. Via-se por ali algumas dezenas de criaturas feitas de pedra, de areia, de sal; outras compostas por ligas ou placas de metais raros ou ordinários; algumas invisíveis em sua conformação gasosa ou escorridas em suas não-formas de líquido gosmento. Cada uma delas descobrindo-se com susto, sentindo-se viva pela primeira vez, tentando qualquer forma de compreensão que lhe fosse possível diante das circunstâncias.

Como seria perceber-se, de repente, vida? Como é entender-se, conscientemente, existindo? Como será a descoberta de ser? Os verbos começavam a agir naquelas criaturas muito antes – de fato, muito antes – que elas pudessem esboçar uma mínima capacidade de abstração para defini-los.

O menino de arame até que lembrava mesmo um menino humano, vagamente, é claro, ao menos na estrutura básica do corpo. Fios de arame farpado haviam se conglomerado em um tronco com quatro membros encimados por uma forma esférica, mais ou menos como os bonequinhos-palito que os humanos faziam em tempos muito remotos. Dois dos membros eram mais longos e serviam para a locomoção. Os outros dois ficavam na parte superior do corpo e ajudavam no equilíbrio. O menino de arame caminhava sem saber para onde e nem exatamente por quê. Apenas caminhava lento, girando o que poderia ser sua cabeça para todos os lados, como se estivesse observando o mundo à sua volta. De vez em quando parava para tocar coisa qualquer que via, uma pedaço maior de pedra ou um punhado de metal com cores exóticas. Ele, em verdade, gostava de tocar as coisas. Sempre o fazia quando era possível.

Caminhou por tempo incontável, não-deduzível, visto que o tempo não havia ainda sido inventado por aquelas criaturas recém-existentes. Caminhou até conhecer o mundo todo, até ver e tocar quase tudo o que nele havia. Durante seu percurso, entendia que tudo aquilo era seco e escuro, árido. Não conhecia tais conceitos, claro está, mas começava a impregnar-se de impressões que poderiam ser assim traduzidas.

Caminhou o suficiente para fixar tais impressões, fortes o bastante para intensificar seus sentidos. Em meio a tamanha sequidão e escuridez, parece até que ficava sedento e amedrontado. Será? Cansava-se um pouco e sentia algo estranho em seus passos. Para onde caminhava, afinal? Começava a se perguntar. O que procurava? Não saberia responder. Já se nascia pela primeira vez com os instintos simples e as angústias básicas? Nem era capaz de elaborar tamanho raciocínio, tão somente continuava o desbravamento daquelas terras desérticas, sombrias mesmo quando o alaranjado do sol coloria as coisas todas de luz ofuscada – não mais ofuscante, como antigamente. Às vezes pensava que estava rodando em círculos, tanto igual era tudo o que via. Caminhava a esmo, entretanto, convergia em várias direções, o que significava que não estava no rumo certo de um caminho circular. Tampouco estava perdido, visto que nem mesmo havia um caminho que devesse ser seguido.

O que havia era algo invisível que o fazia continuar. Não sentia fome nem sede nem cansaço. Tecnicamente, nada sentia (ainda?). Talvez o que sentisse era somente a vontade. De quê? Como saber?! Talvez a vontade de descobrir qualquer coisa que fizesse aquilo tudo fazer sentido, qualquer coisa que esclarecesse sua existência, qualquer coisa que fosse resposta a todos os por quês que ele ainda nem havia formulado.


sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Incógnitas


Ao fechar-se em casulo, lagarta sabe da escuridão lá de dentro? Uma vez presa no escuro, lagarta sabe-se criando asas? Sozinha em escuro e silêncio, não se sente sufocada a lagarta? Como agiria uma lagarta claustrofóbica? Haveria meios de permanecer em casulo se tivesse a crise? Seria possível fugir do casulo sem ainda estar pronta para os voos?

Onde está a borboleta enquanto ainda é lagarta?! A lagarta será capaz de prever seu destino colorido e esvoaçante enquanto ainda rasteja?! Que parte da metamorfose é escolha da lagarta, que parte é predestinação?

Virar borboleta é arbítrio ou obrigação?!



quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

As Asas de Sessyllya


Embora não sejam, as palavras a seguir bem que poderiam ter sido de autoria de Sessyllya...



segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

O Mentiroso


Mentia por não suportar a miséria interior que sentia ser a única verdade em sua vida. Mentia desde a mais tenra idade. Mentia tanto e há tanto tempo que mentia muito bem. Mentia tanto e há tanto tempo e tão bem que ninguém percebia. Mentia tanto e há tanto tempo e tão bem que convencia a si mesmo. E mentia tanto e há tanto tempo e tão bem que, um dia, suas mentiras passaram a se tornar verdade.

Chegava atrasado ao trabalho por ter passado a noite em bares e boemias – e mentia que se atrasara por causa de uma pane no carro. Na hora do almoço, encontrava o carro fundido. Levava-o ao conserto e pedia descontos e prazos – mentindo estar cheio de dívidas e à beira da falência. Imediatamente, perdia absolutamente tudo o que possuía de material. Voltava para casa mais cedo, ansioso e deprimido – e, para evitar questionamentos de esposa e filhos, mentia que os amigos o haviam chamado para um jogo de futebol ou coisa qualquer que fosse. Ao fim da noite, pode ser que alguma mentira o fizesse reaver os prejuízos que tivera ao longo do dia.

Assim eram seus dias, a vida transformada num amontoado de acontecimentos bizarros e estúrdios, inconstantes – às vezes o homem nem sabia mais que parte dele era dele mesmo.

Mentia tanto e há tanto tempo e tão bem que um dia quis ter uma mulher e, para conseguir tal intento, mentiu que a amava. Como ela não acreditasse, ele insistiu e fez promessas e jurou um monte de sentimentos insinceros – que, já sabemos, tornaram-se em verdade plena. Ainda assim – ou talvez justamente por isso – a mulher desconfiou, e o mentiroso jurou que a amava desde sempre e que a amaria para sempre.

A vontade de ter aquela mulher era tão grande que o homem mentiu mentiras grandes demais. Tão grandes que pararam o tempo e paralisaram seu poder de criar verdades. Tão grandes que a mulher teve certeza de que só poderia ser tudo mentira. E nem ela nem ninguém mais deu ouvidos a ele.

Desde então, o homem se viu irremediavelmente apaixonado e sozinho. Louco! E jamais houve-se em coragem para mentir novamente.


sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Armadilha


Era uma borboleta exuberante, roxa com degradê de lilás e detalhes prateados que brilhavam refletindo a luz do sol. Exuberante, diferente, linda. Há pouco saíra do casulo e se deliciava com as coisas que via, os cheiros que sentia. Agora que voava, ou melhor, agora que flutuava no ar dançando com a brisa, tudo parecia diferente. Visto do alto, o mundo era muito diferente de quando se rastejava em corpo de lagarta. A borboleta se sentia a criatura mais importante desse mundo, tão linda e exuberante que era, tão suave em seu bailado esvoaçante, admirada por todos. Assim imaginava e visitava todas as flores que lhe pareciam tão belas quanto ela mesma. Buscava sempre uma identificação com as flores que visitava, não iria se alimentar de néctares quaisqueres, queria aqueles que mais lhe fossem saudáveis e salutares. Pensava que eles estavam nas flores mais belas, mais coloridas e viçosas. Estaria certa? Somente a experimentação eliminaria a dúvida.

Em pouco tempo, a borboleta se tornou conhecida de todos aqueles lugares, de cada uma das mais belas flores. Era gentil e delicada, por isso, admirada. Voava longe em busca de seus néctares, ainda pensando que eles estavam nas flores mais belas, tão belas quanto ela mesma. Começava, porém, a se sentir incomodada. Algo havia de errado em seus voos. Por mais que buscasse, não sentia o sabor maravilhoso que procurava. O alimento das flores era bom, mas muito longe do que ela desejava. Sabores todos bons e parecidos, quase iguais. Teria que se sujeitar a experimentar o gosto de outras flores menos coloridas, menos macias, menos admiradas? Teria que procurar o oposto de si, do que ela era? Somente a experimentação eliminaria a dúvida.

Então, a borboleta passou a ser ainda mais conhecida por todos aqueles lugares, agora ainda mais admirada por se alimentar também das flores menos belas. Ela aprendia a sentir as diferenças de uma forma diferente, nem tão diferentes assim eram os néctares das flores, fossem elas belas ou nem tanto. Os sabores eram apenas levemente diferentes, mais similares do que contrastantes. Ainda assim não conseguia degustar o que imaginava que deveria haver de mais saboroso naqueles mundos. Não sabia de onde vinha aquela vontade de beber um néctar maravilhoso, muito menos imaginava como sabia da suposta existência dele. Haveria algum tipo de instinto que orienta os seres lepidópteros exuberantes a prever um tipo ideal de alimento?

Pensava nessas coisas e voava. Batia asas e pensava. Coloria o mundo e sentia suas tintas se diluindo aos poucos. Quanto tempo ainda gastaria pelos ares sem encontrar o néctar delicioso? Que desconcerto de voos eram os seus que não chegavam ao pouso perfeito? Quase desesperada, começou a seguir todos os cheiros anárquicos que sentia, cheiros que a levavam a montes de lama, dejetos pútridos e restos de animais quaisquer. Sabia que a experimentação é o único meio de eliminar a dúvida. Então, experimentava esses líquidos absurdos aos quais chegava através dos cheiros, degustava-os e descobria no lixo um alento para suas necessidades alimentares, um gosto de fato muito diferente daquele das flores, embora, ainda assim, muito distante daquele que sua gula adivinhava.

Um dia, a borboleta esvoaçava nas entranhas de um bosque cuja descrição poderia ocupar muitas páginas. Em resumo, um bosque com tudo aquilo a que um bosque tem direito. A borboleta esvoaçava por esse bosque, como sempre fizera em toda a sua curta vida, buscando alimento em flores e lixos. Foi quando sentiu o cheiro distinto. Que cheiro seria aquele que ainda não conhecia? Nem doce como o das flores, nem ácido como o dos lixos. Guiou-se por ele e descobriu-se seguindo um caminho novo. O cheiro vinha de um lugar mais escuro do bosque, cercado por galhos que abafavam o ar. O escuro abafado umedecia. A borboleta roxa e exuberante quase nadava agora, em vez de voar, tamanha a densidade do ar que ali nem circulava. Ela nadava no ar, no escuro, no calor, e o cheiro ficava cada vez mais forte e irresistível. Pensava vagamente que não deveria se embrenhar por caminhos tão estranhos, nem via aonde estava indo. Ao mesmo tempo, a vontade de descobrir o cheiro era bem maior do que a vontade de se proteger contra os perigos predadores da vida de uma borboleta.

Até que, finalmente, a borboleta sentiu na pele o cheiro forte. Literalmente. Sentiu-se tocar em algo fino e pegajoso, algo que emanava o cheiro maravilhoso. Percebeu-se com as asas meio presas. Com as asas, realmente, meio presas. E, quanto mais tentava voar, mais presa ficava. Como se estivesse grudando-se numa fina rede a cada movimento que fazia, como se cada parte do seu corpo se grudasse quando encostava na rede. O escuro impedia que a borboleta reconhecesse a teia, mas, ainda que não estivesse escuro, ela certamente não reconheceria a aranha bizarra que havia tecido aquela rede com odores maravilhosos. A borboleta nunca havia se deparado com predador de tal estirpe em toda a sua vida de buscas. Como poderia reconhecê-lo, então?!

Algum tempo depois, já praticamente imobilizada na armadilha, a borboleta previa qualquer tipo de tragédia. Um erro que havia cometido e agora estava ali, irremediavelmente presa. Qual foi o erro? Desvendar o caminho escuro? Entrar no bosque? Ou procurar o alimento maravilhoso que seu instinto exigia? Pensava em coisas assim quando sentiu leve dor de picada. Que coisas esdrúxulas aconteciam em seu mundo, ó céus? Havia mais um bicho ali. E esse bicho injetava algo em seu corpo, qualquer coisa que ardia e depois queimava. Sentia-se arder e queimar aos poucos, lentamente, assustadoramente, irremediavelmente... Sentia-se impotente agora, previa que arderia e queimaria pela eternidade afora.

A aranha via pouco no escuro. Orientava-se pelas ondas que os movimentos provocavam no ar pesado de seu lar. Sentia as ondas começando no escuro, aumentando aos poucos, emanando dos bichos que se grudavam em sua teia e, finalmente, arrefecendo. Só então ela se aproximava e inoculava neles seu líquido digestivo, ácido implacável que, uma vez em contato com as entranhas de seres vivos, não oferecia chance alguma de recuperação. O escuro impedia que a aranha reconhecesse a borboleta roxa com nuances lilásicos que se grudara em sua teia, mas, ainda que não estivesse escuro, ela certamente não reconheceria o perigo que as cores roxas alertavam. A aranha nunca havia se deparado com equívoco de tal estirpe em toda a sua vida de caças em armadilhas. Como poderia reconhecê-lo, então?! Nem mesmo a borboleta, exuberante que era, sabia que continha em si o veneno mortal que afastava os predadores. Exuberante que era, pensava que os pássaros e sapos e outros bichos não a atacavam por admiração ao seu excêntrico mosaico de cores. Jamais imaginaria que era justamente o mosaico de cores excêntricas que a delatavam como bicho venenoso e, portanto, impróprio para consumo animal.

A borboleta transformava-se, lentamente, numa pasta digerida. Sentia-se adormecer aos poucos, entrava nas estranhas dimensões do nada mais absoluto que pode haver. Nesse momento, a aranha apenas começava seu repasto, regalava-se com um tipo de alimento que nunca antes havia provado – o sabor único e indescritível que sua esganação já desejava repetir. Que gosto era aquele tão maravilhoso que descobria? Teria a grande dádiva de obtê-lo novamente em sua armadilha? Ao pensar assim, desacelerou o ritmo com que degustava o alimento novo, engolia devagar a pasta para aproveitar melhor o sabor, já que não sabia se uma outra vez, no futuro, o receberia em sua teia. A aranha não sabia, a borboleta jamais saberia, mas, num espaço muito curto de tempo, ambas se encontrariam novamente nas dimensões absolutas do nada mais estranho que poderiam imaginar.


quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Universo Paralelo


Acordou sobressaltada. Sonhava molhado e despertou num repente, um cheiro estranhamente adocicado perturbava-lhe a memória. O corpo inteiro pulsava como se fosse um coração completo, repleto de vibrações. Era enorme a preguiça de se levantar da cama, de se privar da quentura das cobertas. Não poderia ter certeza, mas certamente sonhara com ele.

Era assim todas as noites, agora. O mundo parecia estar imerso numa incrível falta de circunferências, como se houvesse se perdido naquilo que antes se sustentava. Nunca sentira coisa parecida. Antes era outra, havia sido outra. Nem se (re)conhecia mais, talvez mesmo nem se (re)conheceria. Agora voltava a ser o que nunca antes havia sido. O que significa dizer que sair com ele seria o mesmo que entrar numa outra vida. Se o encontrasse algum dia, as estrelas sofreriam de um colapso vulcânico.

Queria engolir todo o desejo que viesse dele, ser trucidada pela doçura de suas palavras e sentir a caótica desarmonia do mais perfeito equilíbrio que há nos mundos. Os alicerces do universo exigiam sons mais fortes, em troca de não mais sufocá-la. Jamais Hellah poderia imaginar o desastre de tamanho tal como o que inundava dentro de si. Embriagada, transida pela mais pura forma do amar: o instinto.

Era dele, sempre fora desde a primeira vista. Era dele toda Hellah, sem que nunca lhe tivesse tocado, sequer. Ou talvez ficasse mais acertado dizer que era dela aquele homem, posto que o escolhera no olhar primeiro trocado entre ambos. Foi nesse momento que as asas do mundo sofreram de uma revoada íntegra, embora Hellah soubesse que o mundo que o habitava pertencia a galáxias muito dimensionadas em universos paralelos.

Quando a estridência alegre dos pássaros foi convincente o bastante para acordá-la, a mulher pôde, enfim, presenciar a vitória ensolarada da manhã que atravessava as cortinas. Então, os órgãos dela se conformaram em ser apenas pulsações de vida e calor. Não mais se aquietaram. Destemores, destemidos.

Um perfume colorido – trazido por brisas simpáticas e bem humoradas – veio do jardim, invadiu seu quarto e sufocou toda a vida que havia ali dentro. A garota se viu obrigada a correr à janela para sentir a beleza perfumosa das flores que Hellah mesma fazia questão de alimentar.

E, diante da simplicidade fantástica que a mistura de pétalas e polens jogou em sua cara, não pôde pensar em outra atitude que não fosse abrir um sorriso generoso, insistente e decisivo – visto que se recusaria a desaparecer, permanecendo desabrochado até que as cores do dia trocassem de turno com o escuro cheio da falta de cores da noite.

E, a cada vez que o dia encontrasse o fim de seu percurso, Hellah sabia que também encontraria o caminho para iniciar os sonhos mais elétricos que eram os seus. Sempre que tal acontecesse, ele estaria lá para ser contemplado. Ele sempre estaria lá e – sem saber – ativaria todas as engrenagens de vida que havia nela.

A noite, assim, transformava-se em fonte que alimenta as vontades do dia. Não mais as sombras eram passíveis de temor, posto que dentro delas a história mais absurda e incrível acontecia em vida daquela mulher. Jamais saberia dizer se a realidade dessa história era plena, parcial, proibida ou ilusória. Somente possuía as certezas de que, dentro dela, era capaz de se sentir criatura vivente e gemente nas circunferências rosadas do universo.

O mundo se resumia a isso. Ele era o resumo disso. E tudo Hellah resumia em si.


segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

A Estrela e o Arco-Íris


Era uma vez uma estrela que brilhava longe no infinito escuro do Universo. Há zilhões de anos ela brilhava sem parar, mas seu pisca-pisca chegava fraquinho no céu dos planetas do Sistema Solar, os mais próximos que havia - embora extremamente distantes. Tão distantes que sua luz chegava fraquinha até eles. Tão fraquinha que até se confundia com as outras zilhares de estrelas que também piscavam por ali.

Essa estrela era lilás, única entre todas as outras que tinham cores. Única estrela lilás de todo o Universo. Mas que é que interessava a cor da estrela se seu brilho chegava tão fraquinho nos planetas para os quais piscava? Tão pouco interessava a cor que refletia que nem mesmo ela mesma sabia que era única.

Um dia, cansada de brilhar tão longe e ser só mais uma entre todas as outras, a estrela lilás se jogou no planeta Terra. Queria cair naquele azul tão lindo que via de longe. Jogou-se e caiu numa praia de areia clarinha e bem fina, tão macia e leve que nem se machucou na queda. Olhou para o céu e viu todas as suas colegas estrelas, tantas cores elas tinham... Com um pouco mais de observação, descobriu, cheia de susto, que não tinha uma colega com cor gêmea. Era única, pois.

A dúvida, então, se instalou em sua vida. O que “era” agora que se descobria única? O que “fora” antes de sabê-lo? O que seria daqui em diante, sabendo-se assim? Cheia de dúvidas, conflituosa que se tornava, perguntava-se qual seria sua função no mundo. Não sabia, nem imaginava – por isso, desesperava-se.

A noite seguia seu curso e, de repente, a estrela viu o arco-íris. A visão a deixou alucinada, jamais havia visto imagem tão linda em todo o seu existir. Quis subir nele e descer de tobogã, mas, quanto mais tentava se aproximar, mais ele se afastava. Virou criança entretida com o novo brinquedo. Corria para o arco-íris e ele lhe fugia.

Muito tempo se passou até que a estrela intuísse algum engano. Que estranho amigo era aquele que aparecia para alegrá-la com suas cores mas lhe fugia o tempo todo? Tanto pensou nisso que chegou a dizê-lo em voz alta. O arco-íris, então, soube o que se passava na cabeça da amiga e fez questão de responder o que sabia, tão óbvio parecia – o arco-íris era tão somente reflexo que a estrela fazia na água.


sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Incômodo


Ali estava somente por ter sido convidada com excesso de gentilezas. Acontecia, às vezes – ela ser convidada para clichês quaisquer que nunca a atraíam, embora fossem deliciosa e descompromissada rotina para maioria dos outros – alienados.

Gostava mesmo era de ficar trancada no quarto por eternidades. A companhia de si mesma era o que mais apreciava. Criava mundos e habitava todos eles com suas alucinações de raridade e estranheza – artista que era.

Houve, porém, o dia em que sua rotina foi transformada naquilo que jamais poderia ser compatível com o que se costuma chamar de vida. Ou melhor dizendo de verdades, desde que vida dela havia sido transformada numa rotina que nem dava mais para ser separada em dias, todos iguais que eram. Como se há tempos estivesse imóvel a observar um casulo de borboleta - parecia que nada acontecia, a não ser o tédio de mesmice.

Regras que ninguém inventara, mas que todos seguiam feito se fosse a verdade absoluta entranhada em corações. A menina não adaptava-se a elas - incomodada. A derrota às vezes começa muito antes da luta ser necessária.

Tivesse escolhido transformar sua história em romance e é certo que seria reconhecida como artista – independente da qualidade, sendo boa ou má, da obra. Como, entretanto, enveredara por caminhos de estudos de si mesma, a busca pela Verdade do que era, diziam-na perturbada por distúrbios vários e imaginação fantasiosa.

Sorte dela era saber-se diferente de tudo o que ela mesma conhecia. Sorte dela era saber-se conhecida de si mesma. Sorte maior dela, contudo, era amar o diferente em si e o conhecimento de si.


quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Todas as Vezes de Sessyllya


No mais das vezes, Sessyllya descobria que tudo é espelho, embora nesses momentos sempre decidisse abandonar a vaidade e, até mesmo, quebrar aqueles que mostrassem os detalhes muito explícitos.

Muitas vezes, a grandeza de mares e águas não passava de coisa alguma se colocada perto a uma lágrima com dor.

Outras vezes, nem toda a luminescência de estrelas era capaz de ofuscar o brilho de alegria num olhar que fosse sinceridade qualquer.

Certas vezes, única ação possível era simplesmente respirar com as funduras de todos os órgãos, relaxar os músculos e líquidos do corpo e deixar de sofrer diante da impossibilidade do que mais seja.

Às vezes, quaisquer teorias relativas e fenômenos concretamente meta-alternativos sucumbiam perante a maravilhosa e incompreensível manifestação do tempo – que é mistério íntegro.

Havia as vezes em que decidia, apenas e tão somente, desistir.

Tinha vez que mil palavras valiam menos que titica de calango no meio do cerrado, enquanto uma imagem valia o extravaso de tudo o que poderia ser dito.

Toda vez que pensava isso, Sessyllya sabia que haveria tudo mais uma vez.


segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Mimese


Londres, 1944.

Chegou à estação minutos antes da partida do trem.

Quando viajava, gostava de chegar pelo menos 30 minutos mais cedo, para observar o movimento das pessoas, imaginar as histórias de cada um, organizar as malas e embarcar com calma. Aqueles 30 minutos de descuidada espera eram estranhamente prazerosos, relaxantes...

Desta vez, porém, intuiu que a expectativa pela chegada do trem não seria uma boa companheira e ainda menos uma conselheira sensata. E estava certa. Os pouquíssimos minutos que gastou ali, parada na plataforma de embarque, olhando para a linha e tentando ouvir o apito da locomotiva, pareceram séculos sem fim num tempo perdido. Os ínfimos minutos de expectativa foram suficientes para fazê-la recordar as mais sublimes reminiscências de sua vida. E os mais tenebrosos instantes também.

Mesmo tão poucos minutos poderiam tê-la feito pensar melhor e desistir da idéia que a levara à estação naquele dia. Foi a lembrança desses instantes de horror que a impediu de cogitar essa hipótese. Estava mais do que decidida. Estava certa do que precisava ser feito.

Havia um rapaz sentado num banco bem próximo a ela. Parecia distraído com um grande volume de livros nas mãos, tentando ler e prestar atenção à chegada do trem ao mesmo tempo. Logo notou que a garota estava sem malas, ansiosa e perto demais da linha. Talvez tenha sido o único a vislumbrar a intenção da garota, mas não em tempo de impedir-lhe o gesto.

Nesse momento, o apito do trem soou forte e a máquina pôde ser vista aparecer lá no fim da linha, se aproximando cada vez mais rápido.

A menina correu em direção ao trem e, antes que o maquinista começasse a diminuir a velocidade para parar na estação, ela se atirou na linha.

Essa imagem jamais abandonaria a mente do rapaz sentado no banco.


Londres, 2004.

Chegou à estação minutos antes da partida do trem. Era estranho, mas de algum modo aquela situação lhe parecia familiar.

Quando viajava, gostava de chegar pelo menos 30 minutos mais cedo, para observar o movimento das pessoas, imaginar as histórias de cada um, organizar as malas e embarcar com calma. Aqueles 30 minutos de descuidada espera eram estranhamente prazerosos, relaxantes...

Desta vez, porém, sentiu a inexplicável sensação de que já vivera isso. Dejá vù? Não, besteira. Intuiu que a expectativa pela chegada do trem não seria uma boa companheira e ainda menos uma conselheira sensata. E estava certa. Os pouquíssimos minutos que gastou ali, parada na plataforma de embarque, olhando para a linha e tentando ouvir o apito da locomotiva, pareceram séculos sem fim num tempo perdido. Chegou a pensar que aquilo tudo não era novidade em sua vida. Os ínfimos minutos de expectativa foram suficientes para fazê-la recordar as mais sublimes reminiscências de sua vida. E os mais tenebrosos instantes também.

Chegou a refletir sobre a possibilidade de mudar de ideia... Quem sabe não haveria outra alternativa? Seria possível? Os momentos de tristeza e desolação pelos quais havia passado pareciam argumentar contra a hipótese de desistir. E agora?

Havia um senhor de cabelos ralos e brancos sentado num banco bem próximo a ela. Parecia distraído com um grande volume de livros nas mãos, tentando ler e prestar atenção à chegada do trem ao mesmo tempo. Logo notou que a garota estava sem malas, ansiosa e perto demais da linha. Talvez tenha sido o único a adivinhar a intenção da garota, sentindo, ele também, que aquilo já acontecera antes.

Nesse momento, o apito do trem soou forte e a máquina pôde ser vista aparecer lá no fim da linha, se aproximando cada vez mais rápido.

A menina não teve tempo de correr em direção ao trem, pois, antes mesmo que o maquinista começasse a diminuir a velocidade para parar na estação, o frágil senhor se precipitou em sua frente, barrando-lhe o caminho e dizendo:

— Querida, não faça isso. Por Deus, não faça isso! Deixe essas coisas pra quem já viveu o suficiente...

Perplexa, a garota ainda pôde vislumbrar a intenção do velho homem, mas não em tempo de impedir-lhe o gesto. Ele, simplesmente, se atirou na linha, pouco antes que a máquina parasse. Por ser já idoso, o choque foi fatal.

Essa imagem jamais abandonaria a mente da garota, agora sentada no banco.


sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Sonho de Borboletas


Desde criança ela encantava borboletas com seu canto. Entoava melodias que atraíam toda sorte de lepidóptero para perto de si. Brancas, negras, multicoloridas... Todas as borboletas surgiam de todos os lugares e esvoaçavam a vida da menina. Eram companhia que ela tinha... Era companhia que elas tinham.

Quando a tarde se despedia, entretanto, as asas todas iam embora, decerto em busca de abrigo para repousar em sono tranquilo. A menina, então, sozinha ficava - sozinha se sentia.

Tentara, vezes algumas em tempos antigos, cantarolar à sombra da noite, chamar borboletas que acompanhassem seus sonhos. Quem vinha de noite, porém, eram somente as mariposas – escuras e peludas, antipoéticas...

Certo dia, quando suas amigas lepidópteras se foram, sentiu tão forte a tristeza de tanto ser sozinha que chorou. Chorou lágrimas grossas e fartas, gotas que caíram na terra e encharcaram-na de barro. Chorou tanto que ficou fraca, ali mesmo se deitou e dormiu.

Ao despertar, notou – incrédula – a mudança. Dormira na lama e acordava em meio ao jardim mais belo e perfumoso que jamais imaginaria ser possível existir. Cheia de alegria, cantou com a intensidade mais forte que nunca antes havia sentido. E recebeu suas borboletas com o sorriso mais sincero que nem pensava ser capaz de criar.

Desde então, nunca mais elas precisaram se despedir quando a tarde ia embora. Aquele jardim era quarto íntegro de aconchego e conforto para elas todas – borboletas e menina.

E tão mais felizes as borboletas se tornaram que decidiram ainda mais alegrar a amiga. Deram-lhe um presente enquanto dormia. E em seus sonhos a menina se viu cheia de asas, esvoaçando em meio a toda sorte de borboletas...




quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Cárcere


Não mais aguentava tal paisagem! Queria fechar janelas, cerrar cortinas e apagar as luzes que a encarceravam.

Lembrava-se de ser feliz quando vivia em escuridão. Sombras...

Sim, Hellah era feliz... Imaginava o mundo como se houvesse nascido para habitá-lo, como se houvesse nele braços abertos para recebê-la. Imaginava o mundo como se a liberdade existisse nela, como se as escolhas pudessem ser decididas, marcadas, construídas e acontecidas sem quaisquer interferências que não fossem as vontades dela mesma.

Caprichos...

Pensava que havia no universo um mundo como aquele que havia dentro de suas fantasias e isso era o bastante para que Hellah fosse feliz... A esperança habitava a fantasia. Ou talvez fosse a fantasia que se abrigava em esperar...

Até que, um dia, abriram a janela e pôde, enfim, ver o que havia por trás daquelas cortinas e persianas e venezianas: o mundo de todos os que vivem lá fora, aquilo que se chama o mundo real.
Seria a realidade algo possível? Será que podia ser contemplada por pessoa qualquer que fosse? Não seria somente alucinação com pretensiosa vontade de ser concreta? Será que alguém lá fora a via?

Reflexões tardias, posto que, naquele momento, quando viu a paisagem des/conhecida, com força foi que gritou que aquele mundo lhe servia, mas ninguém pareceu ouvir. Repetiu que a deixassem sair dali: embora não fosse tão dela quanto o que Hellah própria inventou, aquele mundo lá de fora era o que lhe bastava para existir melhor dentro de suas aspirações de ser.

Surpresas dela, quando percebeu que as janelas estavam abertas – e assim ficariam para todo o absurdo nomeado de sempre –, mas a tranca permaneceria na porta, mutilada em suas funções de deixar ir e vir. Não bastasse tortura assim tamanha, ainda surgiram grades quadriculando a paisagem. Essas Hellah conhecia, as grades. Conhecia com maestria devido à convivência do sempre, é o que se pode dizer.

Hoje Hellah sabia que a janela não foi aberta para que se acostumasse à paisagem antes de se tornar parte dela. Ainda sentia raiva, revoltava-se às vezes, embora soubesse que precisava se conformar, afinal, nada há que se possa fazer... Só abriram a maldita janela para que Hellah visse, com olhos próprios, onde é que jamais poderia viver – e como era o lugar que jamais seria seu...

Coisa engraçada, somente sua cela é enfeitada de paisagem e luzes. Quando se junta aos outros seres dali, eles pensam que Hellah sofre de insanidade por falar em mundos desassombrados. Em todos os lugares de uso comum, Hellah volta a encontrar as sombras. As sombras e as grades são companheiras de sempre. E tudo o que Hellah vê são celas escuras onde há pessoas de mãos suficientemente adestradas para construir tudo aquilo que julgam necessário para uma vida confortável e feliz. Seus olhos dilatados se habituaram à escuridão a ponto de fugirem apavorados de qualquer centelha que lume. Seus sentidos estão tão acostumados aos limites das celas que, ainda que as grades sejam tiradas dali, é impossível que haja uma única fuga.

Por que não acontece a adaptação em olhos d’Hellah? Por que tanto a sufoca o lugar em que sempre esteve, este que habita? É onde nasceu, onde os outros nasceram e são felizes, donde se conclui que Hellah deveria ser como todos. Será que Hellah deve lutar contra si mesma, engolir a náusea de uma situação que a destrói a cada dia e se tornar igual a essa gente? Ou será que Hellah consegue a escolha de fantasiar maneira qualquer para fugir dali?

Talvez a esperança viva de fantasia. Ou seja a fantasia apenas uma alternativa que se cansou de esperar...


segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Vingança


Havia já 16 anos desde que fora atacado pelos lobos brancos. As lembranças daquele noite já não lhe perturbavam tanto, mas ainda apareciam às vezes, durante o sono. No começo se revoltou, quis se vingar, fugir... Mas jamais conseguiria se vingar ou fugir das centenas de lobos brancos que o atacaram. Por isso, acabou se juntando a eles.

Levou algum tempo até descobrir a verdade sobre o aumento desordenado da população de lobos naquela região. Aquela história de que eles começaram a se reproduzir desordenadamente era uma farsa. Em primeiro lugar, eles se reproduziam muito pouco, pois a quantidade de fêmeas era insignificante por ali e elas só permitiam a cópula nas épocas de cio. Em segundo, os lobos brancos eram nômades caçadores e migraram para aquele lugar após serem escorraçados de um vilarejo no estado vizinho. Devoraram os lobos nativos e, desde então, começaram a se alimentar principalmente de pessoas que passavam desavisadas pelo lugar, o que acontecia regularmente.

Não entendia como as pessoas continuavam se aventurando por aqueles caminhos, mesmo sabendo do perigo que corriam. Descobriu, ao longo dos anos, que era aquela velhinha caquética quem as convencia a caminharem rumo ao Grande Rio, em troca de os lobos deixarem em paz a população do vilarejo. Como a região era um ponto turístico muito famoso e importante no país, todos os dias recebiam boas e fartas refeições humanas: 10, 20 pessoas, às vezes o dobro disso.

Algumas vezes, caçadores armados atiravam nos lobos, mas eles nem mesmo sangravam. Aqueles lobos não morriam. Lobisomens. A população de lobos aumentava desordenadamente por esse motivo. Uma espécie de lobisomens que não tinham mais necessidade de se transformar em homens para caçar, visto que a caça ia certeira até eles. E ele também se tornou um deles. Também comia turistas desavisados que se perdiam por aqueles prados.

Nos primeiros dias após o ataque, foi difícil acreditar no que seus olhos viam, mas logo as evidências se tornaram incontestáveis. Havia se transformado em um deles e o mesmo acontecia com todos aqueles que eram atacados nas sextas-feiras do mês de agosto.

Conseguiu viver assim por 16 anos, assim como seu amigo. Tempo suficiente para que planejasse algo – qualquer coisa – que pudesse interromper a situação. Procurou por anos a fio até encontrar a erva – uma que conhecia de tradições antigas, única capaz de acabar com essa espécie de lobo. Já não podia contar com o amigo, há muito integrado como se fora nascido ali, lobisomem como os outros – tornara-se o chefe da alcateia. Haveria que agir sozinho.

Assim, em dia que julgou conveniente, ingeriu quantidade adequada do veneno e provocou o amigo da maneira como sabia que deveria ser. Provocou-lhe irritação, raiva, ódio, fúria... Os outros lobos todos se manifestaram, sabiam como agir em situações desse tipo. Desafiar o chefe era erro imperdoável. Qualquer outra infração às regras poderia ser relevada, menos essa.

A uma ordem do chefe, os lobos atacaram – sem que reação alguma de fuga ou enfrentamento fosse percebida no infrator. Cada um dos lobisomens obteve um naco daquele corpo, embora a parte mais nobre – o coração – ficasse reservada ao chefe.

Somente muitos dias depois, quando uma quantidade inenarrável de urubus foi capaz de formar uma nuvem que cobrisse a luz do sol por mais do que alguns instantes, a população do vilarejo se deu conta do significado da palavra “liberdade”.


sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Aurellyana


Aurellyana ouvia a canção - entitulada 'Borboletas' - e dançava feliz, como se a melodia e as palavras encantadas da linda voz de Luciana Melo tivessem sido compostas diretamente para si...


video



quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Ladainha de Sessyllya


Sessyllya pensava que tem coisa que jamais pode ser esquecida – principalmente quando se trata da presença de borboletas em vida qualquer que seja. Por isso, não cansava-se de repetir o que nem tinha inventado:




segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Enredo


Era uma vez uma menina sozinha que não se dava bem com a família e não tinha amigos. Não que ela não gostasse da família ou não quisesse ter amigos. Nada disso. Apenas a língua que ela sabia era outra muito diferente daquela que todos usavam.

Era uma vez uma menina que cresceu sozinha. Literalmente. Descobriu o mundo através de esforço e sofrimento próprios. Ninguém se lembrou de guiá-la por melhores caminhos e todos apenas alertavam para que tivesse extremo cuidado com tudo e qualquer coisa. A menina aprendeu a ter medo sem saber de quê. E fugia de tudo e qualquer coisa, pois se esmerava em tomar muito cuidado.

Era uma vez uma menina que se escondeu sozinha num mundo próprio. Não encontrava quem lhe entendesse a língua e, por isso, desistiu de se expressar. Para que falar se não há quem ouça? O que dizer se não há quem escute? Antes só que mal interpretada! O mundo é ruim. Melhor se proteger num refúgio de máscara, ser tão leve e transparente a ponto de nem ser notada.

Era uma vez uma menina que se sentia sozinha. Não por não se dar bem com a família ou não ter amigos. Não por ter medo de tudo e qualquer coisa. Não por se proteger contra toda e qualquer pessoa. Ela se sentia sozinha porque não sabia quem era, nem o que queria, nem o que tinha vindo fazer neste mundo. Por que existir? E para quê?!

Um dia, a menina teve um sonho. Havia um rapaz que ela não conhecia, mas que fazia tudo parecer bom. Conversaram a noite toda – posto que ele parecia falar a mesma língua que era a sua. Ao acordar, entretanto, ela somente lembrava-se de ter perguntado se iam se encontrar de novo. Haveria obtido resposta?

Era uma vez uma menina que aprendeu a mentir sozinha. Ninguém ensinou a ela. Aprendeu somente observando os outros que a cercavam. Descobriu que, embora ninguém falasse sua língua, todos entendiam suas mentiras e, na tentativa de não ser mais tão sozinha, mentia melhor que todos os outros somados.

Tanto praticou que acabou mentindo para si mesma, quase se convencendo de que não era mais uma menina sozinha. Quase se convenceu. Não fosse o vazio que mais aumentava a cada dia, talvez ela tivesse mesmo conseguido acreditar...


sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Sabedoria e Transformação


Coruja que já tem característica de ser sábia não come lagarta, pois que entende a característica metamórfica do bicho. Coruja sabe que, havendo-se em paciência, logo encontrará linda borboleta para lhe enfeitar as vistas. Coruja sábia contenta-se em admirar a beleza livre e leve da borboleta – e reserva o saciar da fome a outros bichos menos nobres.

Muitas vezes, lagarta foge da coruja, mimetiza-se ou simplesmente teme. Nem ela mesma sabe ainda que em breve também haver-se-á em asas, tal e qual a coruja. Lagarta não sabe que transforma-se. Lagarta nada sabe de si. Apenas obedece a intuições instintivas.

Coruja enxerga a borboleta quando vê a lagarta. Borboleta surpreende-se consigo mesma quando esvoaça as próprias asas. E tanto admira-se da coruja ser tão sábia que nem é capaz de decidir se embebeda-se de suas palavras de ensinamento ou se simplesmente enfeita-lhe as vistas como arremedo de uma gratidão que nunca vai saber expressar.


quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Arte


Às vezes, sozinha no escuro do quarto, Hellah costumava se perder em mundos desconhecidos, embora bastante familiares lhe parecessem. Vazio ao seu redor. Sentia tão íntegro o silêncio que ficava até capaz de pensar em ideias mais diferentes, absurdas se colocadas perto da palavra comum.

Anárquica!

Era assim, nessas horas, que os ruídos começavam – a zoeira dentro dela contrastava bruscamente com a falta das vibrações necessárias para que sons quaisquer pudessem existir.

Era assim, nessa ausência de cores e sons, que Hellah parecia ser capaz de absorver todas as sensações do mundo. Sua pele era antena eriçada com a intensidade maior que há!

Contraste mais absconso, o da sua vida. Quando ia ao banco, andava pelo calçadão ou viajava de ônibus – quando encontrava pessoas em balbúrdia colorida de movimento e corre-corre e salgados fritos e refrigerantes e altas vozes de vendedor ambulante e vozes altas de gente carente e choro de criança –, sentia o vazio mais pleno que pode ser concebido.

Achava esquisito que tanto paradoxo houvesse nos caminhos da existência. Não sabia se a solidão era maior no silêncio escuro que habitava em seu quarto ou no caótico concerto de todas as almas vazias que viviam impulsionadas somente pela inércia absoluta. Um dia, escreveria um romance e vomitaria em palavras todo o vazio que empanturrava os seus dias. Faria isso no vazio escuro e silencioso de seu quarto.

Faria Arte. E tudo se encheria de paz.


segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Sobre Fases e Luzes


Por conter-se em maiores massas, o Sol atrai os corpos celestes menores para sua órbita. Imóvel, estável, auto-iluminado, é referência segura para planetas e satélites e outros astros – todos giram em torno dele e aproveitam-se de sua luz.

O sol, contudo, se auto-consome – vai diminuindo-se em intensidade até apagar-se de vez, como toda estrela. Possui luz própria, mas não eterna.

A Lua, por oposição boba e clichê, é vítima de instabilidade. Varia. Segue em órbitas diversas – uma delas, a do Sol, dependente da luz dele e de sua força, que a faz brilhar e mudar-se em fases.

A Lua, pois, gira confusa em torno de um planeta, de um sol e de si mesma... Tem hora que se decide por algo, depois muda de ideia, volta atrás em seguida. Talvez pense ser inútil alguma decisão definitiva, pois que, quando o Sol se apagar, o que será dela?

O Sol tem importância grande para a vida da Lua...

Pode ser que, em tentativas de encantar o Sol, ela mude de fases como alguém que se enfeite para alguém que deseja. Pensa em mostrar-se toda, de maneiras várias, para conquistá-lo e sentir a felicidade máxima que for possível com o seu Sol, ao menos enquanto ele ainda possui a sua vida.

Todos os apaixonados são lua e todo sol pode ser lua para alguém. Sorte deles é quando se procuram e encontram-se em espelho.


sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Reflexos de Narciso


Tão linda era a borboleta – vendo-se refletida na água do lago, apaixonou-se por si mesma sem desconfiar de que as coisas eram assim. Todos os dias esvoejava sobre as águas, enamorada da imagem colorida que via, namorando o que pensava ser seu par. Tornara-se feliz e jurava-se correspondida, sentia-se completa e favorecida pelas sortes todas deste mundo – não era todo mundo que havia-se em tantas alegrias conjuntas como eram as dela.

Tão confiante estava que suas patinhas pousavam na superfície da água e ela assim permanecia por horas a fio, apenas contemplando a imagem tão linda do companheiro que imaginava estar também encarando-a nos olhos. As frágeis patinhas tocavam a água e a borboleta pensava estar tocando as patinhas do companheiro. E seus dias eram tão felizes que ela às vezes se esquecia de voar e enfeitar outros prados.

E o tempo passou e a borboleta aprendeu a passar o tempo todo parada na superfície da água, em companhia do reflexo que acreditava ser seu amor perfeito e eterno. Até o dia em que um peixe desses vulgares, que habitam lagos vulgares e exercem hábitos de vida vulgares, encontrou – na linda borboleta enamorada de si mesma – alento para a fome que sentia.


quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Sessyllya em Decisões


Imagine-se o clichê da cena: um anjinho e um diabinho tentando aconselhar alguém. Sessyllya às vezes tinha dessas ideias bestas, batidas, mas nem tentava evitá-las, posto que era justamente assim que se sentia em momentos mais confusos de sua vida: como se fosse alguém em meio a anjinho e diabinho que disputam sua decisão. Sessyllya pensava que nem havia bem e mal muito nítidos entre os dois, apenas os conselhos deles vinham em perspectivas diversas – ora incompletas de asas de anjo, ora duras e afiadas como tridente de diabo... Em meio à dúvida, o diabinho se apresenta, com energia e entusiasmo:

─ Olá, Sessyllya, sou seu amigo e vim ajudá-la.

E o anjinho diz, sereno e tranquilo:

─ Olá, Sessyllya, sou seu amigo e vim ajudá-la.


─ Que bom que apareceram, amigos, assim podem me ajudar na decisão de fazer uma escolha de mudanças de vida...

─ Ah, isso é muito fácil – responde o diabinho -, você não precisa ter pressa.

─ Mas não pode perder tempo – completa o anjinho.

─ Você pode mudar amanhã – diz o diabinho.

─ Mas só se começar hoje – completa o anjinho.

─ Você precisa cuidar dos outros – continua o diabinho.

─ Mas primeiro tem que cuidar de você mesma – completa o anjinho.

─ Você tem que ser firme com ideias e atitudes – afirma o diabinho.

─ Mas não inflexível – completa o anjinho.

─ Você tem que ser compreensiva com suas falhas – explica o diabinho.

─ Mas não condescendente – completa o anjinho.

─ Não precisa pensar muito – ensina o diabinho.

─ Desde que reflita o bastante – completa o anjinho.

─ E também não precisa falar muito – insiste o diabinho.

─ Desde que suas atitudes falem por você – completa o anjinho.

Sessyllya, então, protesta:

─ Ora, que assim ninguém me ajuda. Ouço e escuto, mas não sei o que fazer!

─ Faça o que estou dizendo – sugere o diabinho.

─ A decisão é sua – conclui o anjinho.

Então Sessyllya descobre que anjos e demônios são nada além de extremos inversos – tão distantes um do outro quanto as duas faces de uma mesma moeda...


segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Teia


Distraído, encarcerado no transe de uma preocupação qualquer, o motorista nem mesmo pôde perceber que seu carro sofrera um baque na esquina da pracinha. O automóvel compacto, desses chamados de modelo popular, atingiu algum tipo de obstáculo nas bandas dianteiras do lado do passageiro – como se tivesse passado por cima de pedaço de pau ou pedra ou algo do tipo. Talvez o hábito de trafegar pelos buracos das ruas da cidade tenha sido responsável pela indiferença do motorista, cansado já das agruras da vida e acostumado às péssimas condições do asfalto por onde costumava dirigir há, pelo menos, 10 anos.

Distraída, a ave ciscava por ali, comia farelos que os velhinhos generosamente ofereciam em momentos de lazer dentro da aposentadoria em que viviam. Pomba esbelta ela era, branquinha, gostava de estar ali a alegrar o dia daqueles senhores simpáticos que mereciam o descanso seguinte a uma vida toda de labor. Nem tanto pelo alimento, farelo seco e enjoativo que mais parecia ração para animais domésticos ou confinados, mas apreciava visitar a pracinha por saber que era deles a satisfação toda quando pousava ali e comia daquilo que eles jogavam ao solo – sem contar que adorava ser admirada por eles quando levantava seus voos cheios de dança nos ares daquele recanto.

Já havia comido bastante, empanturrado o papo com o que era abundância em lugares onde havia o tabuleiro de damas em praças diversas de cidades quaisquer. Achava que já havia cumprido suas funções de companheirismo aos vovôs que ali jogavam damas ou conversa fora. O que tomava seus pensamentos, agora, era uma ligeira preocupação com os filhotes nascidos – ou chocados, ou algum outro verbo que semantize a saidura dos filhotes de ave dos ovos em que se incubam – havia apenas três dias. As crias – par delas – precisavam de alimento e aquele farelo não era transportável. Difícil, para uma pombinha branca e esbelta, a vida de mãe numa cidade grande. A população de sua espécie saturava os lugares, havia concorrência até mesmo para consumir a ração que os aposentados atiravam às praças. Quando se tratava de comida com mais sustâncias, como seres pequenos com massa proteica suficiente para fortalecer filhotes de aves recém-nascidos – ou chocados, como se queira –, a situação ficava mesmo complicada: raras eram essas regalias de origem animal.

Assim pensava – em sua inexperiência de primeira cria – enquanto seus olhos observavam em torno, a busca por alimento que desse sobrevivência aos filhos. Já se distraía de novo, entretida com o movimento de tudo ao seu redor, quando viu o milagre. Não acreditou de imediato, mas também não se furtou a oportunidade de conferir de perto o que seus olhos viam. Lá na rua, pouco depois de se descer a calçada, havia um ninho de formigas – daquelas de cabeça muito enorme e cor alaranjada. A pombinha usou voo rasteiro para se aproximar da rua, notou que as formigas se abrigavam num buraco de tamanho considerável que havia perto de um bueiro. Certamente era moradia muito bem localizada, posto que o terreno era fofo para os túneis, fértil para a subsistência e ficava no lado em que a água não incomodava. Único problema eram as crianças que, vez ou outra, implicavam com elas, cutucando-as com palitos de picolé acabados de serem devorados – havia uma loja de sorvetes ali perto.

A pombinha acabava de se concluir abençoada por todos os deuses que suas crenças juravam existir. Os filhotes teriam desenvolvimento garantido com tamanha fartura de alimento. Ali havia formigas para alimentar várias gerações de sua descendência. A felicidade a fez agir de forma quase automática, descuidosa de perigos quaisquer que pudessem rondar seus atos de mãe que alimenta a prole. Desceu a calçada e se aproximou do buraco cheio do movimento das formigas, comeu algumas para se certificar de que havia nelas a qualidade. Depois, capturou o que julgou suficiente para os filhotes e se afastou do lugar, pronta para alçar os voos de volta para