Desafio


Decidida, borboleta preparava-se para o novo desafio. Camuflada há dias num tronco de árvore específica, sabia-se segura de predadores todos e quaisquer que rondassem o lugar, mas precisava com urgência de seguir sua vida e não mais convinha permanecer imóvel ali.

Era necessário ação qualquer que modificasse sua condição – ou morreria segura e inútil naquele tronco de árvore. Não queria ser inútil. Havia flores esperando para serem polinizadas, muitos jardins desejosos de sua visita, inúmeras crianças ansiando por ver suas cores flutuando nos ares.

Borboleta reunia-se em coragem, toda aquela que sabia ter e mais alguma que não conseguia adivinhar de onde vinha. Estava certa de que, uma vez que se mexesse, não haveria meios de estar novamente segura até que alcançasse o outro lado da floresta. Predadores a veriam e atacariam – doidos de famintos. Borboleta sabia das mínimas chances que tinha de sobreviver, mas precisava tentar. Antes morrer lutando que perecer inerte.

Assim, borboleta levantou voo – tão ágil e rápida quanto sua condição de borboleta lhe permitia. Sentiu bicadas de pássaros nas asas, garras que lhe rasgavam as escamas, espinhos que lhe feriam o corpo... Prosseguiu, porém, escapando de tudo, não sem surpresa por ainda estar no ar.

Ao atravessar a zona de perigo, pousou em lugar qualquer para avaliar as perdas. Viu-se com parte das asas esfrangalhada, um ferimento doído no corpo e pequeno trauma numa das antenas. Já não seria mais tão fácil sobreviver com tantas avarias físicas, mas estar viva – naquele instante – parecia-lhe mais importante que tudo o mais que existia. Enquanto vida tivesse, útil poderia ser.

E pensar que a metamorfose de lagarta era o ápice de evolução que uma borboleta poderia pretender... Ela agora sabia que as transformações mais importantes jamais poderiam ser vistas – pois que acontecem do lado de dentro...